Tiques (Síndrome de Gilles de la Tourette) em crianças e adolescentes
O que são?
Os tiques são caracterizados pela ocorrência abrupta de movimentos (tiques motores) ou emissão de sons (tiques vocais) repetitivos. São geralmente precedidos por uma sensação premonitória de urgência, tensão, desconforto ou outro fenômeno sensorial.1 Shapiro e Shapiro e Mattos e Rosso2,3 conceituam tiques como a contração involuntária de músculos agonistas e antagonistas em uma ou mais partes do corpo. Caracterizam-se, clinicamente, como um movimento clônico, breve, rápido, súbito, inesperado, recorrente, estereotipado, sem propósito e irresistível. São exacerbados por ansiedade e tensão emocional e atenuados pelo repouso e por situações que exijam concentração. Podem ser suprimidos pela vontade, por segundos ou horas, logo seguidos por exacerbações secundárias.
Existem muitas causas orgânicas conhecidas para os tiques. Mejia e Jankovic,4 analisando prontuários de 155 pacientes com tiques e transtornos comórbidos, relatam que 9% deles apresentavam tiques secundários a lesão dos gânglios da base, decorrentes de trauma craniano, acidente vascular cerebral, encefalite, entre outros. Algumas drogas, toxinas e complicações pós-infecciosas também puderam ser etiologicamente associadas aos tiques. Os transtornos globais do desenvolvimento e a deficiência intelectual também podem estar associados a eles, assim como doenças genéticas e cromossômicas, como a síndrome de Down e a doença de Huntington. Os autores concluem dizendo que, para entender a fisiopatologia dos tiques e da síndrome de la Tourette, é importante reconhecer que estes podem ser causados por ou associados a outros transtornos.
No que se refere a sua semiologia, os tiques podem ser arbitrariamente classificados em simples e complexos. O tipo simples apresenta contração de um grupo muscular, e o complexo, de mais de um grupo. São exemplos de tiques simples: piscar, encolher de ombros, aceno de cabeça, contração da musculatura frontal, emissão de som ou ruído isolado. São exemplos de tiques complexos: súbita flexão da coxa com inclinação do corpo, girar ou fazer a volta durante a marcha e gestos obscenos (copropraxia). Podem variar em gravidade, e, habitualmente, história familiar positiva é comum.5
Uma série de distúrbios do movimento (como tiques, distonia, parkinsonismo) e transtornos psiquiátricos, como o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), vem sendo considerada parte de um espectro de manifestações pós-estreptocócicas. Entretanto, a análise crítica das evidências clínico-laboratoriais que apoiariam esse espectro ampliado de manifestações pós-estreptocócicas revela, além de resultados contraditórios, dados tendenciosos, não havendo, até o momento, justificativa para qualquer intervenção terapêutica baseada em antibioticoterapia profilática ou imunomodulação em pacientes com quadros considerados pós-estreptocócicos, excetuando-se a coreia de Sydenham.6
A causa mais comum de tiques na infância e na adolescência é a síndrome de Tourette; entretanto, ainda não se conhece a patogênese dos tiques primários. Mejia e Jankovic,4 postulam que o estudo dos casos de tiques secundários a doenças neurodegenerativas ou a causas genéticas pode ajudar no esclarecimento da fisiopatologia dos tiques primários.
Incluídos no DSM-57 dentro dos transtornos de neurodesenvolvimento, capítulo dos transtornos motores, os transtornos de tiques compreendem cinco categorias: transtorno de Tourette, transtorno de tique motor ou vocal persistente (crônico), transtorno de tique transitório, outro transtorno de tique especificado e transtorno de tique não especificado.
O diagnóstico diferencial deve ser feito entre os tiques e entre estes e outros movimentos involuntários. Assim, entre os tiques, é necessário diferenciar:
- Tiques transitórios: o tipo mais comum de todos; suas características são as mesmas dos demais, exceto pela remissão espontânea de todos os sintomas no período de um ano.
- Tique motor múltiplo crônico: múltiplos quanto ao número, aos tipos e à localização, perdurando por mais de um ano.
- Tique motor crônico: observam-se até três tiques motores, de intensidade não variável e com duração de até um ano.
Deve-se, ainda, diferenciar entre os tiques e outros movimentos involuntários que acompanham condições médicas gerais ou doenças neurológicas, entre os tiques e estereotipias motoras encontradas nos transtornos do espectro autista, bem como entre tiques e compulsões do TOC.
Para Jankovic,1 o diagnóstico diferencial se baseia em três fatores:
- os tiques são frequentemente precedidos por uma sensação peculiar e urgência irresistível para movimentar;
- podem ser suprimidos temporariamente pela vontade;
- persistem durante todas as fases do sono.
Não há tratamento curativo, sendo a terapia medicamentosa útil no alívio dos sintomas. O tratamento psicoeducacional é indicado e pode ser a única terapia no caso de tiques motores crônicos.5
Caso clínico
Confira os casos clínicos de um menino de 10 anos que apresenta tiques, baixo rendimento escolar e é inquieto e de outro menino, de 8 anos, com “manias que não consegue controlar” e também inquieto.
Referências
Este conteúdo foi originalmente publicado em: Assumpção Jr FB (Org.). Psiquiatria da Infância e da Adolescência: Casos Clínicos. Porto Alegre: Artmed; 2014.
- Jankovic J. Tourette’s syndrome. N Engl J Med. 2001;345(16):1184-92.
- Shapiro E, Shapiro AK. Semiology, nosology and criteria for tic disorders. Rev Neurol (Paris). 1986;142(11):824-32.
- Mattos JP, Rosso ALZ. Tiques e síndrome de Gilles de la Tourette. Arq Neuropsiquiatr. 1995;53(1):141-6.
- Mejia NI, Jankovic J. Secondary tics and tourettism. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(1):11-7.
- Simiema J. Tiques, estereotipias e hábitos. In: Assumpção Jr FB, Kuczynski E, organizadores. Tratado de psiquiatria da infância e adolescência. Rio de Janeiro: Atheneu; 2003.
- Teixeira AL, Corrêa H, Cardoso F, Fontenelle LF. Síndromes neuropsiquiátricas pós-estreptocócicas. J Bras Psiquiatr. 2006;55(1): 62-9.
- American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.
Adaptação editorial
Malu Macedo
Autores
Francisco B. Assumpção Jr.
Alessandra Freitas Russo
Carolina Rabello Padovani
Cristina Maria Pozzi
Evelyn Kuczynski
Marília Penna Bernal
Melanie Mendoza
Milena de Oliveira Rossetti