Diabetes melito

Ver também Hiperglicemia na Seção “Efeitos colaterais e seu manejo”.

Introdução

Diabetes melito é uma síndrome constituída por distúrbio metabólico e hiperglicemia causada pela deficiência da secreção de insulina ou pela combinação de resistência à insulina e de sua inadequada secreção para compensar.

O diabetes melito está dividido em subclasses distintas: o tipo I está, em geral, associado à cetose em casos não tratados (aproximadamente 90% das causas de diabetes melito do tipo I são imunomediadas, e 10%, idiopáticas); o tipo II caracteriza-se pela presença de insulina endógena circulante a princípio suficiente para evitar cetoacidose, mas inadequada para impedir a hiperglicemia em face da necessidade aumentada e insensibilidade tecidual. Existem também outros tipos específicos de diabetes melito (p. ex., diabetes melito devido à insulina mutante, diabetes melito devido à mutação em receptor de insulina, etc.). A seguir, são descritas algumas implicações para o uso de psicofármacos em pacientes com diabetes melito.

Antidepressivos

Apesar de o efeito ser pequeno, há evidências de aumento da incidência de diabetes melito tipo II em sujeitos com depressão,1 bem como do surgimento de novos casos em pacientes em uso de antidepressivos.2

A prevalência de depressão em indivíduos com diabetes melito varia de 8,5 a 27,3%. É fundamental estar atento para o fato de que determinados fármacos podem interferir nos níveis glicêmicos. Os antidepressivos tricíclicos, por exemplo, podem causar hiper ou hipoglicemia, aumento do apetite, fissura por doces e, consequentemente, ganho de peso. A nortriptilina, que produz aumento de catecolaminas na fenda sináptica, tem demonstrado piorar o controle glicêmico. Os IMAOs podem causar hipoglicemia e ganho de peso. Quando forem utilizadas essas classes de medicamentos, deve-se, pelo menos no início do tratamento, verificar a glicemia com maior frequência e, se necessário, ajustar as doses de insulina ou do hipoglicemiante oral. Embora a fluoxetina possa causar uma reação hiperglicêmica aguda, ainda que muito raramente, os ISRSs — sobretudo a fluoxetina e a sertralina — são os medicamentos de escolha para diabéticos com depressão.

Nos casos de neuropatia diabética com sintomas sensitivos, está indicado o uso de antidepressivos tricíclicos e de antidepressivos de ação dual (serotonina e noradrenalina), bem como da gabapentina e da pregabalina.3

Antipsicóticos

Os antipsicóticos podem alterar a glicemia. Há anos, as fenotiazinas são apontadas como responsáveis por distúrbios na regulação da glicose. Verificou-se que os antipsicóticos atípicos têm grande propensão a desencadear o diabetes melito, particularmente a clozapina e a olanzapina. O risco de diabetes associado à risperidona e à quetiapina pode ser considerado intermediário, ao passo que pacientes sob uso de aripiprazol, ziprasidona, asenapina, lurasidona, brexpiprazol e cariprazina estão menos propensos ao desenvolvimento de tal condição.4

Estabilizadores do humor e anticonvulsivantes e benzodiazepínicos

O lítio e o ácido valproico podem causar hiperglicemia. Embora pacientes em uso de lítio apresentem ganho significativo de peso durante o tratamento, não há variação substancial da glicemia avaliada antes e depois do início da farmacoterapia com lítio em indivíduos sem diabetes melito.

Os benzodiazepínicos e a carbamazepina aparentemente não causam alterações no metabolismo da insulina. De modo geral, recomenda-se o monitoramento seriado de glicemias em diabéticos que iniciam psicofármacos. O topiramato mostrou-se útil no controle do peso, assim como melhorou o controle glicêmico em uma série de casos, sendo também sugerida sua eficácia, por meio de relatos de caso, no alívio da dor relacionada à neuropatia periférica presente em indivíduos com diabetes melito.

Nos pacientes com alteração da glicemia após a introdução de um psicofármaco, realizar ajuste nas doses de hipoglicemiantes orais ou da insulina e/ou do medicamento, quando possível. O mesmo cuidado é recomendado no momento da retirada do psicofármaco (a glicemia deve ser monitorada, e, se necessário, a dose do hipoglicemiante ou da insulina, reajustada).

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Rotella F, Mannucci E. Depression as a risk factor for diabetes: a meta-analysis of longitudinal studies. J Clin Psychiatry. 2013;74(1):31-7. PMID [23419223]
  2. Bhattacharjee S, Bhattacharya R, Kelley GA, Sambamoorthi U. Antidepressant use and new-onset diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetes Metab Res Rev. 2013;29(4):273-84. PMID [23390036]
  3. D’Souza RS, Barman R, Joseph A, Abd-Elsayed A. Evidence-based treatment of painful diabetic neuropathy: a systematic review. Curr Pain Headache Rep. 2022;26(8):583-94. PMID [35716275]
  4. Solmi M, Murru A, Pacchiarotti I, Undurraga J, Veronese N, Fornaro M, et al. Safety, tolerability, and risks associated with first- and second-generation antipsychotics: a state-of-the-art clinical review. Ther Clin Risk Manag. 2017;13:757-77. PMID [28721057]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Marianna de Abreu Costa | Marianna de Barros Jaeger
Lorenna Sena Teixeira Mendes | Fabiano Gomes
Arthur Ludwig Paim | Tamires Martins Bastos
João Pedro Gonçalves Pacheco | Alice C. M. Xavier
Alessandro Ferroni Tonial | Livia Biason
Ana Laura Walcher | Aristides Volpato Cordioli