Esquizofrenia em crianças e adolescentes
O que é?
A partir do DSM-51, a esquizofrenia passou a ser considerada como um espectro que inclui, além dela mesma, outros transtornos psicóticos e o transtorno da personalidade esquizotípica, apresentando anormalidades em um ou mais dos seguintes domínios:
- Delírios
- Alucinações
- Pensamento e linguagem desorganizada
- Comportamento motor anormal ou francamente desorganizado (incluindo catatonia)
- Sintomas negativos (diminuição da expressão emocional, avolição, alogia e anedonia)
À semelhança dos transtornos globais do desenvolvimento, é crônica e, embora na maioria dos casos só se inicie ao fim da adolescência e começo da idade adulta, pode atingir crianças e adolescentes, ocasionando considerável sofrimento e inadaptação.2 É uma patologia caracterizada por distorções no pensamento, na percepção e nas emoções,3 e, na sua forma clássica estão presentes delírios e alucinações auditivas e visuais.
Considera-se difícil o diagnóstico na criança, uma vez que delírios e alucinações são menos elaborados, embora as alucinações visuais sejam mais frequentes, devendo ser distinguidas das fantasias normalmente encontradas em crianças. Linguagem desorganizada pode ser encontrada em outros transtornos, como os do espectro autístico, assim como o comportamento desorganizado, que pode ser observado nos pacientes com transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). Seu prognóstico parece ser pior.
Confira os critérios diagnósticos para esquizofrenia de acordo com o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5).1
Quando atinge uma criança ou um adolescente, a esquizofrenia altera seu desenvolvimento e manifesta-se em todos os seus domínios – cognitivo, afetivo e social –, alterando sensações, percepções, atenção, memória, linguagem, pensamento, vontade, julgamento, emoções e outros aspectos.2 Considerando a prevalência geral dos transtornos mentais na infância e na adolescência entre 10 e 15%,4 ela acomete cerca de 1% da população, e sua idade de início está entre 15 e 30 anos. É, portanto, uma doença rara na infância, e, conforme avança a adolescência (próximo dos 11 anos), os casos tornam-se mais expressivos. Apesar de existirem alguns relatos com idade inferior a 5 anos, estes são extremamente raros.
Estima-se que entre 0,1 e 1% dos casos de esquizofrenia tenham iniciado antes dos 10 anos de idade, e aproximadamente 4% antes dos 15 anos.5 King6 refere uma prevalência de 0,19:10.000 crianças, com idades entre 2 e 12 anos, reportando-se uma razão de 2 a 2,5 meninos:1 menina. Considera-se esquizofrenia de início precoce quando o quadro se dá antes dos 18 anos, falando-se em muito precoce antes dos 13 anos.7
Esposito e Savoia8 avaliaram adolescentes usuários de serviço especializado de saúde mental com importante impacto funcional. Encontraram como diagnóstico de maior incidência na população adolescente, de acordo com os critérios da classificação internacional de doenças e problemas relacionados à saúde (CID-10), o transtorno global do desenvolvimento, seguido por retardo mental e esquizofrenia.
Já Gutt e colaboradores9 observam diferenças relacionadas a gênero nos aspectos clínicos da esquizofrenia. Os homens apresentam início mais precoce da doença, sintomas negativos mais graves, maior frequência de hospitalizações e pior prognóstico funcional e social. O impacto social desse transtorno é grande, e a taxa de mortalidade devida ao suicídio é alta, atingindo cerca de 10% dos pacientes.
Seu diagnóstico na infância e na adolescência é difícil, envolvendo um diagnóstico diferencial com transtornos mentais orgânicos, afetivos, das personalidades borderline e esquizotípicas e globais do desenvolvimento.6 Consequentemente, estudos epidemiológicos são raros nessa faixa etária, e os poucos existentes apresentam dificuldades metodológicas.
Além disso, seus sintomas iniciais são pouco marcados, com aparecimento de medos não específicos, afeto lábil ou inapropriado, ansiedade social intensa levando a isolamento, pobre julgamento social e anormalidades cognitivas sob a forma de pensamento mágico, perseveração, comportamento repetitivo e ritualizado e preocupações não habituais.6 Esse início insidioso raramente é visto antes dos 6 anos de idade, embora sejam descritos casos de alucinações e delírios aos 3 anos,6 o que é considerado raro e discutível, uma vez que ambos partem da premissa de uma alteração do juízo de realidade, característica essa que se desenvolve, na criança, pensando-se sob o ponto de vista de seu desenvolvimento, com o advento das operações concretas. Assim, essa ideia seria pouco coerente.
Entretanto, em crianças maiores, podem ser observados alucinações, predominantemente auditivas, e delírios, embora também sejam encontradas alucinações visuais e táteis, de maneira pouco estruturada.
O diagnóstico da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos do humor têm pouca confiabilidade na primeira apresentação, com baixa concordância entre clínicos e uma instabilidade diagnóstica ao longo do tempo.
Caso clínico
Por sua raridade e dificuldade diagnóstica, são apresentados, dois casos com início precoce. assim, confira os casos clínicos de um adolescente de 8 anos com problemas de comportamento e dificuldade de aprendizagem e de um outro menino de 8 anos que “fala sozinho”.
Referências
Este conteúdo foi originalmente publicado em: Assumpção Jr FB (Org.). Psiquiatria da Infância e da Adolescência: Casos Clínicos. Porto Alegre: Artmed; 2014.
- American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5ª. ed. Porto Alegre: Artmed; 2013.
- Dumas JEE. Psychopathologie de l’enfant et de l’adolescent. 2. ed. Bruxelles: De Boeck Université; 2007.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artmed; 1993.
- Rohde LA, Zavaschi M, Lima D. Quem deve tratar crianças e adolescentes? O espaço da psiquiatria da infância e da adolescência em questão. Rev Bras Psquiatr. 2000;22(1):2-3.
- Tengan SK, Maia, AK. Psicoses funcionais na infância e adolescência. J Pediatr (Rio J). 2004;80(2):3-10.
- King RA. Childhood-onset schizophrenia. Development and pathogenesis. Child and Adolescent Psychiatry Clinics of North America 1994;3(1):1-13.
- Werry JS. Childhood schizophrenia In: Volkmar FR, editor. Psychoses and pervasive developmental disorders in childhood and adolescence. 2nd ed. Washington: American Psychiatric; 1996. p. 629-35.
- Esposito BP, Savoia MG. Atendimento especializado a adolescentes portadores de transtornos psiquiátricos: um estudo descritivo. Psicol Teor Prát. 2006;8(2):31-47.
- Gutt EK, Petresco S, Krelling R, Busatto GF, Bordin IAS, Lotufo-Neto F. Comportamentos agressivos em crianças e adolescentes com risco para esquizofrenia: diferenças entre gêneros. Rev Bras Psquiatr. 2008;30(2):110-7.
Leitura complementar
Grillo E, Silva R. Manifestações precoces dos transtornos do comportamento na criança e no adolescente. J Pediatr (Rio J). 2004;80(2):21-7.
Adaptação editorial
Malu Macedo
Autores
Francisco B. Assumpção Jr.
Alessandra Freitas Russo
Carolina Rabello Padovani
Cristina Maria Pozzi
Evelyn Kuczynski
Marília Penna Bernal
Melanie Mendoza
Milena de Oliveira Rossetti