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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica
Ômega-3 é um grupo de PUFA, do qual fazem parte o ácido ALA, o EPA e o DHA, entre outros. São considerados essenciais por não serem sintetizados pelo ser humano, devendo ser adquiridos pela alimentação sob a forma de gorduras.
Diversos mecanismos têm sido sugeridos para explicar a farmacodinâmica dos ácidos graxos ômega-3, entre eles aqueles que se devem às propriedades estabilizadoras de membranas anti-inflamatórias e neuroprotetoras. São capazes de melhorar a fluidez da membrana, auxiliando na função de receptores, na neurotransmissão, no transporte de glicose e na transdução de sinal. Apresentam atividade supressora da síntese de citocinas pró-inflamatórias, prostaglandinas, leucotrienos e fosfodiesterase, além de potencializarem mecanismos antioxidantes, aumentando, por exemplo, a glutationa. Além disso, parecem aumentar o suprimento de oxigênio e glicose no cérebro, modular a produção e a função de neurotransmissores e, ainda, aumentar a concentração cortical de N-acetil-aspartato (possível marcador de densidade de integridade neuronal) e a produção de BDNF, prevenindo a apoptose e favorecendo a neurogênese e a plasticidade sináptica. Sugere-se, ainda, que esses mecanismos podem atuar de forma sinérgica em relação aos fármacos utilizados nos tratamentos já empregados nos diferentes transtornos psiquiátricos.1,2
Farmacocinética
Sua absorção se faz por meio da difusão passiva pelos enterócitos, após formação de micelas por ação de lipases linguais e gástricas no trato digestivo superior. A administração oral de formulações de ômega-3 mostrou-se efetiva no aumento das concentrações de EPA e DHA no plasma, com picos plasmáticos entre 2 e 4 horas após a ingestão.
Apesar de existirem algumas dificuldades nos estudos de intervenção com ômega-3, como a definição das concentrações de EPA e DHA mais adequadas para cada transtorno, assim como a da razão EPA/DHA mais indicada, seu uso tem sido amplamente estudado em diversos transtornos psiquiá-tricos. Na última década, um robusto número de estudos observacionais, ensaios clínicos randomizados, revisões e metanálises tem sido produzido, examinando a efetividade do emprego do ômega-3 tanto clinicamente como laboratorialmente, por meio da avaliação de biomarcadores, em vários transtornos psiquiátricos: esquizofrenia, TDM, transtorno bipolar - episódio atual depressivo, ansiedade, TOC, TEPT, TDAH, TEA, transtornos alimentares, transtorno por uso de substâncias e transtorno da personalidade borderline.3
Nos transtornos de humor, há maior evidência da sua eficácia, ainda com resultados modestos, conflitantes e restritos a alguns grupos. Em adultos apresentando TDM, as evidências sugerem melhor resposta em formulações com EPA puro ou concentrações de EPA maiores que DHA (razão > 2:1), e com doses de EPA variando desde 1.000 mg/dia até mais que 2.000 mg/dia.4
Já na depressão perinatal, as evidências de benefício da suplementação de ômega-3 na população com essa condição são insuficientes tanto na prevenção quanto no tratamento do quadro.5
Já entre adolescentes, existem evidências de melhora em sintomas depressivos com suplementação de ômega-3, ainda que os dados na literatura possam divergir.3,6
No TB, dados recentes sugerem que a suplementação com ômega-3 possa ser eficaz no tratamento da depressão bipolar, mas não na mania, quando associado a estabilizadores de humor.
Na esquizofrenia e em outras psicoses, os benefícios da suplementação com ômega-3 têm se demonstrado mais restritos à população jovem de alto risco para psicose.7
Em estudos envolvendo população em primeiro episódio de psicose, há evidência de melhora de resposta clínica no tratamento com AP quando era associada à suplementação de ômega-3. No entanto, seu uso em monoterapia não demonstrou eficácia em manter o paciente em remissão após descontinuação do AP.8,9
Estudos envolvendo quadros mais crônicos tendem a demonstrar algum benefício, mas apresentam dados heterogêneos, com limitações significativas em relação ao tamanho de população, à duração do estudo e à composição do suplemento de ácidos graxos. Em geral, sugerem superioridade em suplementações com EPA puro ou com EPA em maior concentração.3,4
Vários estudos têm avaliado o ômega-3 em outros transtornos psiquiátricos. Evidências modestas e limitadas têm sido demonstradas no TDAH, no TEA e nos sintomas de impulsividade, autolesão e raiva do transtorno borderline. Nos transtornos de ansiedade e no TEPT, os dados são insuficientes até o momento para propor seu uso. Já no TOC, nos transtornos alimentares e no transtorno por uso de substâncias, os ácidos graxos/ômega-3 não apresentaram eficácia.3,9
Referências
Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.
- Balanzá-Martínez V, Fries GR, Colpo GD, Silveira PP, Portella AK, Tabarés-Seisdedos R, et al. Therapeutic use of omega-3 fatty acids in bipolar disorder. Expert Rev Neurother. 2011;11(7):1029-47. PMID [21721919]
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- Bozzatello P, Rocca P, Mantelli E, Bellino S. Polyunsaturated fatty acids: what is their role in treatment of psychiatric disorders? Int J Mol Sci. 2019;20(21):5257. PMID [31652770]
Organizadores
Aristides Volpato Cordioli
Carolina Benedetto Gallois
Ives Cavalcante Passos
Autores
Leonardo de Almeida Sodré