Ver também Síndrome de retirada ou de descontinuação.
Sobre
Abstinência é uma síndrome decorrente da retirada de substâncias que, com uso prolongado, causam adaptações no SNC – desenvolvimento de tolerância – e têm potencial de abuso e dependência.
Sabe-se que quanto mais intensa e menos duradoura for a reação provocada por uma substância química (medicamento ou droga) no comportamento do indivíduo, maior será seu potencial de provocar sintomas de abstinência e, consequentemente, abuso e dependência (isto é, repetição do uso da substância para cancelar sintomas de abstinência). Quanto maiores forem a dose utilizada e a cronicidade do uso, maior será a chance de ocorrência de sintomas de abstinência. São também preditores de quadros mais intensos: gênero feminino e a presença de sintomas residuais de ansiedade, de depressão e TP no início da retirada.
Embora possam surgir sintomas semelhantes aos da síndrome de abstinência na interrupção abrupta de outros medicamentos, como APAs e ADs – especialmente os de meia-vida mais curta –, nos casos dessas classes de fármacos é preferível utilizar as expressões “síndrome de retirada” ou “síndrome de descontinuação”, pois elas não causam dependência.
Este tópico será focado na síndrome de abstinência associada a BZDs, por serem, no cenário brasileiro, os casos mais frequentes.
Os sintomas da síndrome de abstinência de BZDs são muito semelhantes aos de um quadro de ansiedade: inquietude, ansiedade, taquicardia, insônia, agitação, fraqueza, cefaleia, dores musculares, letargia, tremores, náuseas, vômitos, diarreia, cãibras, hipotensão, tonturas, hipersensibilidade a estímulos, alucinações ou ilusões táteis ou auditivas, disforia, etc. Nos casos mais graves, podem ocorrer convulsões, delirium e sintomas psicóticos. A duração é variável, e os sintomas físicos não costumam ultrapassar 7 a 10 dias.
Os sintomas de abstinência devem ser distinguidos dos sintomas de rebote e de recaída do transtorno psiquiátrico subjacente. O rebote é o surgimento de ansiedade em níveis que podem ser até superiores aos que existiam antes do início do tratamento. Essa é, provavelmente, a primeira manifestação de alterações dos receptores em razão do uso crônico de BZDs. Os sintomas de recaída são o retorno dos sintomas do transtorno subjacente.
A síndrome de abstinência ocorre mais frequentemente quando são usados os BZDs de meia-vida curta e quando a retirada é abrupta, devido à rápida queda das concentrações séricas dessas substâncias.
Nos compostos de meia-vida mais curta, como o lorazepam, o quadro clássico é o surgimento de sintomas de 12 a 16 horas após a última dose. Ainda assim, os BZDs de meia-vida curta administrados à noite para o tratamento de insônia podem causar sintomas de ansiedade de rebote durante o dia, em razão da diminuição de suas concentrações séricas. Esse quadro se assemelha à abstinência e conduz a aumento da dose e da frequência de uso dessas substâncias por automedicação. No caso dos BZDs com meia-vida longa e compostos de eliminação mais lenta, como diazepam, a abstinência pode ocorrer 2 ou mais semanas após a interrupção do uso.
Manejo
- Uma metanálise de ensaios clínicos randomizados de 2014 demonstrou que a estratégia de retirada gradual é efetiva para obtenção de abstinência.1 Além disso, uma metanálise da Cochrane 2018 que avaliou estratégias farmacológicas para descontinuação de BZDs demonstrou diminuição de sintomas de abstinência e de ansiedade com uso de pregabalina e paroxetina e de sintomas de ansiedade com uso de carbamazepina.2
- A troca do BZD de meia-vida curta para um de intermediária ou longa ação (clonazepam ou diazepam) e a subsequente retirada gradual de acordo com os sinais e os sintomas do quadro de abstinência são opções. É sugerida, de acordo com estudos, a retirada de 25% por semana e de 12,5% nas últimas duas semanas, porém a conduta pode ser individualizada.1
- Quando a retirada for mais difícil, pode-se tentar o uso de carbamazepina associada ao BZD até se atingir concentrações plasmáticas de 4 a 8 μ/L e, então, retirar o BZD.
- Agonistas parciais (abecarnil), AVPs, ADs (trazodona), clonidina e propranolol mostraram-se pouco efetivos e semelhantes quanto à retirada gradual. Existe relato de caso de diminuição da fissura e de sintomas de abstinência de BZDs com o uso de agomelatina.1
- A gabapentina demonstrou utilidade para o tratamento da síndrome de abstinência por BZDs e álcool.
- Em pacientes com TOC e transtornos de ansiedade como TP, fobias e TAG, evitar o uso prolongado de BZDs, preferindo o uso de AD indicado.
- Em alguns casos, é necessária a hospitalização para a retirada da substância.
- Nos quadros de ansiedade ou de insônia situacionais, usar BZDs pelo menor tempo possível e na menor dose necessária para o controle dos sintomas.
- Evitar o uso de BZDs em indivíduos com fatores de risco para abuso e dependência de substâncias, exceto para o tratamento agudo da abstinência.
Referências
Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.
- Gould RL, Coulson MC, Patel N, Highton-Williamson E, Howard RJ. Interventions for reducing benzodiazepine use in older people: meta-analysis of randomised controlled trials. Br J Psychiatry. 2014;204(2):98-107. PMID [24493654]
- Baandrup L, Ebdrup BH, Rasmussen JØ, Lindschou J, Gluud C, Glenthøj BY. Pharmacological interventions for benzodiazepine discontinuation in chronic benzodiazepine users. Cochrane Database Syst Rev. 2018;3(3):CD011481. PMID [29543325]
Organizadores
Aristides Volpato Cordioli
Carolina Benedetto Gallois
Ives Cavalcante Passos
Autores
Eduardo Trachtenberg
Deborah Grisolia Fuzina
Everton Silva
Giorgia Lionço Pellini
Giovanni Michele Rech
Pedro Lopes Ritter
Vinicius Martins Costa
Aristides Volpato Cordioli