Ver também Abstinência.
Sobre
É um conjunto de sintomas que podem ocorrer após a cessação repentina (ou redução acentuada da dose) de um medicamento quando usado de forma contínua durante pelo menos 1 mês. É comum com o uso de ISRSs e IRSNs (como a venlafaxina), especialmente quando usados em altas doses. Pode provocar sintomas bastante desconfortáveis, que ocorrem com mais frequência em crianças do que em adultos. Os sintomas em geral começam em 2 a 4 dias e incluem manifestações sensoriais, somáticas e cognitivo-emocionais específicas, como flashes de luz, sensações de choques elétricos, náuseas, hiper-responsividade a ruídos e luzes. Ansiedade e sentimentos não específicos de temor também podem ser relatados. Os sintomas são aliviados pelo reinício do uso do medicamento (DSM-5-TR).
Após a interrupção abrupta de antidepressivos tricíclicos, são comuns perturbações do sono (pesadelos, insônia); flutuações do humor (labilidade afetiva, irritabilidade, hipomania); desconforto gástrico (cólicas, diarreia, náusea); ansiedade e agitação; transtornos do movimento (tiques, acatisia, discinesias, parkinsonismo); e arritmias cardíacas. Os sintomas podem ser devidos a um efeito-rebote, pela interrupção abrupta do bloqueio colinérgico induzido pelos antidepressivos tricíclicos, ou a uma alteração no equilíbrio ACh/dopamina (acatisia, parkinsonismo). Já a hipomania pode ser causada por excessiva estimulação colinérgica do sistema límbico. Pode iniciar em 12 a 48 horas após a última dose e durar até 2 semanas. Por isso, a retirada desses fármacos deve ser gradual. Em crianças, esse problema pode ser mais intenso, obrigando, inclusive, a dividir a dose diária total em várias tomadas, para que não haja o aparecimento de sintomas durante o dia. Os sintomas ocorrem com mais frequência na descontinuação de venlafaxina e paroxetina, seguidas de citalopram, sertralina, fluvoxamina e, por último, fluoxetina, e estariam relacionados com a diferente meia-vida desses fármacos. A venlafaxina de liberação lenta também está associada à síndrome de retirada.
Não existe ainda explicação convincente para o surgimento dos sintomas de descontinuação. Os autores têm levantado várias hipóteses: repentina redução na disponibilidade de serotonina ante receptores dessensibilizados, levando à súbita restauração da recaptação de 5-HT, depleção desse neurotransmissor e estado hiposserotonérgico.
Sintomas de descontinuação também foram descritos na retirada da clozapina, manifestando-se por diaforese, náuseas, vômitos, rinite, ataxia, inquietude, delirium e alucinações, que desapareceram com a retomada do fármaco. Acredita-se que tais sintomas de retirada ocorram devido a um rebote da atividade colinérgica, bloqueada pela potente ação anticolinérgica do fármaco. Pode ocorrer também com outros psicofármacos.
Manejo
- Alertar o paciente para o risco da síndrome caso se esqueça de tomar o medicamento ou caso o interrompa abruptamente: evitar fazer “feriados” do fármaco, especialmente paroxetina, sertralina e venlafaxina.
- A reintrodução do fármaco, em geral, faz desaparecer os sintomas.
- A retirada de antidepressivos deve ser sempre gradual, particularmente os de meia-vida mais curta (paroxetina, sertralina, venlafaxina).
- Ainda com base em evidências preliminares, sugere-se que a substituição de venlafaxina por desvenlafaxina possa reduzir os sintomas de retirada, uma vez que a última apresenta menor chance de desencadear esses sintomas. Em pacientes com pouca adesão e com predisposição a desenvolver a síndrome de retirada, utilizar fármacos de meia-vida longa (fluoxetina).
- Tranquilizar o paciente de que a síndrome não é um quadro de abstinência, já que não há o desenvolvimento de tolerância, ou de fissura pela substância, e que os antidepressivos, ou mesmo os antipsicóticos, não produzem dependência.
- Nos casos em que não é possível realizar redução gradual da dose, ou em pacientes muito sensíveis aos sintomas de descontinuação, podem-se utilizar medicações sintomáticas (p. ex., paracetamol, ibuprofeno ou um antiemético), com o objetivo de diminuir o desconforto do paciente.
- Em casos de rebote colinérgico por retirada de clozapina, a literatura americana sugere 1 mg de benztropina para cada 50 mg de clozapina em não fumantes e 1 mg de benztropina para cada 100 mg de clozapina para fumantes. Na realidade brasileira, pode-se utilizar biperideno, 2 mg para cada 50 mg de clozapina para não fumantes e 2 mg para cada 100 mg para fumantes. Atentar para dose-teto de biperideno.
Referência
Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.
Organizadores
Aristides Volpato Cordioli
Carolina Benedetto Gallois
Ives Cavalcante Passos
Autores
Eduardo Trachtenberg
Deborah Grisolia Fuzina
Everton Silva
Giorgia Lionço Pellini
Giovanni Michele Rech
Pedro Lopes Ritter
Vinicius Martins Costa
Aristides Volpato Cordioli