Síndrome de Munchausen por procuração (transtorno factício imposto a outro) em crianças e adolescentes
O que é?
Em 1951, Asher descreveu uma importante síndrome, encontrada por muitos médicos e reconhecida ao longo do tempo, caracterizada pelo fato de os indivíduos por ela afetados em geral serem admitidos em hospital geral, aparentemente, com quadro agudo embasado em história plausível e dramática na qual depois se percebem inconsistências e falsificação de informações. Percebe-se, com o passar do tempo, que esses pacientes já passaram por diferentes serviços de saúde e, com muita frequência, queixam-se dos serviços médicos, argumentando que foram mal examinados e que seus casos foram mal investigados, mesmo quando submetidos a intervenções sérias e, algumas vezes, até a procedimentos cirúrgicos. Em geral, o quadro é acompanhado por sintomas mentais, como pseudologia fantástica, e muitos dos sintomas podem ser autoinduzidos.1 Vários nomes foram propostos para a síndrome, entre eles “síndrome dos pacientes com problemas que peregrinam”, “dos frequentadores de hospitais” ou “de Ähasuerus” (do judeu, errante).1
Na criança, assume a forma da chamada “síndrome de Munchausen por procuração” (ou por transferência) (de acordo com o DSM-5,2 transtorno factício imposto a outrem) praticada pelo cuidador em vez de pelo próprio paciente, em uma situação na qual este é encaminhado para cuidados médicos com sinais e sintomas provocados ou inventados por seus pais ou responsáveis. Isso caracteriza uma violência psicológica para a qual se deve estar sempre atento, uma vez que impõe sofrimento, inclusive físico, pois demanda exames complementares, muitas vezes com caráter invasivo, bem como ingestão de medicamentos desnecessários, além do óbvio dano psicológico que acarreta.3
Seu reconhecimento é difícil, pois, muitas vezes, o agressor é a própria mãe, que, utilizando alguns conhecimentos da área de saúde, se torna capaz de enganar os próprios serviços médicos.4
Caso clínico
Confira o caso clínico de uma menina de 3,5 anos, encaminhada para investigação diagnóstica após período de internação em hospital de retaguarda, devido a intoxicação exógena.
Referências
Este conteúdo foi originalmente publicado em: Assumpção Jr FB (Org.). Psiquiatria da Infância e da Adolescência: Casos Clínicos. Porto Alegre: Artmed; 2014.
- Enoch MD, Terthowan WH. Uncommon psychiatric syndromes. Bristol: Wright; 1979.
- American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.
- Françoso LA, Abramovici S. Injúrias não intencionais (acidentes): atendimento pré-hospitalar e transporte de vítimas de trauma. In: Ancona Lopez F, Campos Jr D. Tratado de pediatria. 2. ed. São Paulo: Manole; 2009.
- Abramovici S, Waskman RD, Hirschheimer MR. Cuidados hospitalares de crianças e adolescentes vítimas de violência trauma. In: Ancona Lopez F, Campos Jr D. Tratado de pediatria. São Paulo: Manole; 2009.
Adaptação editorial
Malu Macedo
Autores
Francisco B. Assumpção Jr.
Alessandra Freitas Russo
Carolina Rabello Padovani
Cristina Maria Pozzi
Evelyn Kuczynski
Marília Penna Bernal
Melanie Mendoza
Milena de Oliveira Rossetti