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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica
O acamprosato (acetil-homotaurinato de cálcio) é um derivado sintético com estrutura análoga ao GABA. Portanto, é um agonista gabaérgico que demonstrou diminuir o risco de recaída em alcoolistas graves.1 O acamprosato aumenta a neurotransmissão gabaérgica e diminui a ação excitatória glutamatérgica no SNC, via modulação de receptores NMDA.1,2 Esse fármaco, portanto, ao diminuir a atividade excitatória glutamatérgica no SNC, que ocorreria em alcoolistas em abstinência, reduz tanto a toxicidade induzida pelo glutamato como os efeitos desagradáveis da abstinência de álcool.3 O acamprosato parece ter, ainda, ação serotonérgica e β-adrenérgica. Entretanto, o mecanismo neuroquímico pelo qual ele apresenta atividade anticraving* ainda não está completamente esclarecido.3
* Craving, desejo obsessivo e intenso de consumir o álcool.
Farmacocinética
É pouco absorvido no trato gastrintestinal (menos de 10% do medicamento), e a administração conjunta a alimentos diminui sua absorção. Sua meia-vida é de 20 a 33 horas.4 O estado de equilíbrio plasmático é alcançado entre 5 e 7 dias de uso contínuo. Esse é o tempo necessário para atingir concentrações terapêuticas, o que equivale a uma concentração plasmática de 370 a 650 µg/L. Esse fármaco não se liga às proteínas plasmáticas. Sua excreção é predominantemente renal (90%), sendo, portanto, contraindicado para pacientes com IR.1
Foi aprovado pela FDA em 2004 para o tratamento da dependência de álcool, embora já fosse utilizado na França para tal indicação desde 1989.2 O acamprosato é um fármaco usado no tratamento da dependência de álcool e na prevenção de recaídas. Em 2004, Mann e colaboradores5 publicaram o resultado de uma metanálise que envolveu mais de 4 mil pacientes oriundos de 17 ECRs e controlados com placebo. Nesse estudo, as taxas de abstinência de álcool aos 6 meses de acompanhamento foram significativamente maiores em indivíduos sob uso de acamprosato em comparação ao placebo.5 Bouza e colaboradores,6 também em 2004, publicaram outra metanálise que envolveu ensaios clínicos com acamprosato, com resultados positivos para o tratamento do alcoolismo. Uma metanálise que avaliou 64 ensaios clínicos realizados entre 1970 e 2009 demonstrou que esse fármaco foi mais eficaz do que a naltrexona na manutenção da abstinência, após o período de desintoxicação, em pacientes com dependência de álcool.7
Referências
Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.
- Myrick H, Wright T. Clinical management of alcohol abuse and dependence. In: Galanter M, Kleber HD, editors. Textbook of substance abuse treatment. 4th ed. Washington: APP; 2008. p. 129-42.
- Saivin S, Hulot T, Chabac S, Potgieter A, Durbin P, Houin G. Clinical pharmacokinetics of acamprosate. Clin Pharmacokinet. 1998;35(5):331-45. PMID [9839087]
- Baltieri DA, Andrade AG. Efficacy of acamprosate in the treatment of alcohol-dependent outpatients. Braz J Psychiatry. 2003;25(3):156-9. PMID [12975689]
- Stahl SM. Fundamentos de psicofarmacologia de Stahl: guia de prescrição. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2019.
- Mann K, Lehert P, Morgan MY. The efficacy of acamprosate in the maintenance of abstinence in alcohol-dependent individual: results of a meta-analysis. Alcohol Clin Exp Res. 2004;28(1):51-63. PMID [14745302]
- Bouza C, Angeles M, Muñoz A, Amate JM. Efficacy and safety of naltrexone and acamprosate in the treatment of alcohol dependence: a systematic review. Addiction. 2004;99(7):811-28. PMID [15200577]
- Maisel NC, Blodgett JC, Wilbourne PL, Humphreys K, Finney JW. Meta-analysis of naltrexone and acamprosate for treating alcohol use disorders: when are these medications most helpful? Addiction. 2013;108(2):275-93. PMID [23075288]
Organizadores
Aristides Volpato Cordioli
Carolina Benedetto Gallois
Ives Cavalcante Passos
Autores
Bibiana Bolten Lucion Loreto