Aripiprazol > Farmacodinâmica e farmacocinética

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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica

O aripiprazol é um antipsicótico pertencente ao grupo das quinolinonas. É considerado o protótipo dos antipsicóticos de terceira geração, os chamados estabilizadores do sistema dopamina-serotonina. Seu efeito antipsicótico está hipoteticamente associado ao agonismo parcial dos receptores dopaminérgicos D2 e serotonérgicos 5-HT1A, além do antagonismo dos receptores 5-HT2.

O aripiprazol apresenta-se como um antagonista dos receptores D2 em áreas de altas concentrações de dopamina, como a via mesolímbica, melhorando os sintomas psicóticos positivos. Todavia, sua atividade como agonista parcial dos receptores D2 na via mesocortical pode causar aumento da neurotransmissão quando a via estiver hipoativa, agindo, desse modo, sobre os sintomas negativos e cognitivos. De modo análogo, ao estabilizar o sistema dopamina-serotonina nas vias nigroestriatal e tuberoinfundibular, preserva a função fisiológica dos neurônios dopaminérgicos que regulam os movimentos e a prolactina, ocasionando a baixa incidência de sintomas extrapiramidais e hiperprolactinemia. Apresenta afinidade com outros receptores, incluindo D3, D4, 5-HT2C, 5-HT7, α1-adrenérgico e H1. O aripiprazol apresenta um metabólito ativo, o deidro-aripiprazol.

Farmacocinética

O aripiprazol oral atinge picos máximos de concentração plasmática de 3 a 5 horas após sua ingestão, com uma biodisponibilidade de 87%. A concentração plasmática estável é atingida após 14 dias de administração. O aripiprazol e o deidro-aripiprazol têm meia-vida longa, de 75 e 94 horas, respectivamente. Ambos se ligam em mais de 99% a proteínas plasmáticas, sobretudo à albumina. O aripiprazol sofre extensa metabolização hepática pela CYP2D6 e pela CYP3A4, apesar de não inibir nem induzir a isoenzima CYP2D6. Sua depuração é principalmente hepática. A farmacocinética não é alterada por disfunção hepática ou renal.

As formulações injetáveis apresentam diferenças farmacocinéticas entre si. O aripiprazol lauroxil, marca com maior circulação nos Estados Unidos, atinge sua concentração plasmática máxima entre 44 e 50 dias, tem meia-vida plasmática entre 54 e 57 dias e alcança estado de equilíbrio estável em cerca de 16 semanas.

Há fortes evidências sobre a eficácia do aripiprazol no tratamento da esquizofrenia. Metanálises em rede publicadas recentemente no Lancet demonstraram eficácia significativa do aripiprazol no manejo dos sintomas positivos, negativos e depressivos em pacientes em episódio psicótico agudo.1 Os resultados também foram favoráveis ao aripiprazol (via oral e injetável) na redução do risco de novos episódios psicóticos em pacientes estáveis (tratamento da manutenção).2 A eficácia do aripiprazol como tratamento adjuvante a outros antipsicóticos também apresenta evidências sólidas na literatura, em especial na redução de sintomas negativos e na melhora do perfil metabólico.3 Estudos que avaliam troca de esquema antipsicótico têm demonstrado que a substituição por aripiprazol pode levar a uma maior tolerabilidade sem redução da eficácia antipsicótica.4

O aripiprazol é um dos antipsicóticos com menos efeitos adversos metabólicos, tanto em suas formulações orais quanto injetáveis.1,5 Também está associado a menor risco de hiperprolactinemia, prolongamento do intervalo QT, sintomas extrapiramidais,1 disfunção sexual6 e discinesia tardia,7 apesar de ter maior risco de acatisia quando comparado à clozapina, olanzapina e quetiapina.1

Estudos também apontam para a eficácia do aripiprazol no tratamento do TB. O CANMAT indica o aripiprazol como tratamento para episódios agudos de mania, tanto em monoterapia quanto em associação com lítio ou ácido valproico. O CANMAT também sugere eficácia do aripiprazol (oral e injetável) no tratamento de manutenção do TB, com redução no risco de recaída de novos episódios de humor (efeito predominante na prevenção de episódios maníacos). Não há evidências que suportem o uso de aripiprazol no tratamento agudo ou na prevenção de depressão bipolar.8

Também há evidências que asseguram o uso de aripiprazol como terapia adjuvante no TDM9 e como tratamento para irritabilidade, hiperatividade e redução de estereotipias em crianças e adolescentes com TEA.10

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Huhn M, Nikolakopoulou A, Schneider-Thoma J, Krause M, Samara M, Peter N, et al. Comparative efficacy and tolerability of 32 oral antipsychotics for the acute treatment of adults with multi-episode schizophrenia: a systematic review and network meta-analysis. Lancet. 2019;394(10202):939-51. PMID [31303314]
  2. Schneider-Thoma J, Chalkou K, Dörries C, Bighelli I, Ceraso A, Huhn M, et al. Comparative efficacy and tolerability of 32 oral and long-acting injectable antipsychotics for the maintenance treatment of adults with schizophrenia: a systematic review and network meta-analysis. Lancet. 2022;399(10327):824-36. PMID [35219395]
  3. Zheng W, Zheng YJ, Li XB, Tang YL, Wang CY, Xiang YQ, et al. Efficacy and safety of adjunctive aripiprazole in schizophrenia: meta-analysis of randomized controlled trials. J Clin Psychopharmacol. 2016;36(6):628-36. PMID [27755219]
  4. Montastrucm F, Nie R, Loo S, Rej S, Dell’Aniello S, Micallef J, et al. Association of aripiprazole with the risk for psychiatric hospitalization, self-harm, or suicide. JAMA Psychiatry. 2019;76(4):409-17. PMID [30698607]
  5. Pillinger T, McCutcheon RA, Vano L, Mizuno Y, Arumuham A, Hindley G, et al. Comparative effects of 18 antipsychotics on metabolic function in patients with schizophrenia, predictors of metabolic dysregulation, and association with psychopathology a systematic review and network meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2020;7(1):64-7. PMID [31860457]
  6. Hanssens L, L’Italien G, Loze JY, Marcus RN, Pans M, Kerselaers W. The effect of antipsychotic medication on sexual function and serum prolactin levels in community-treated schizophrenic patients: results from the Schizophrenia Trial of Aripiprazole (STAR) study (NCT00237913). BMC Psychiatry. 2008;8:95. PMID [19102734]
  7. Carbon M, Kane JM, Leucht S, Correll CU. Tardive dyskinesia risk with first- and second-generation antipsychotics in comparative randomized controlled trials: a meta-analysis. World Psychiatry. 2018;17(3):330-40. PMID [30192088]
  8. Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, Schaffer A, Bond DJ, Frey BN, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97-170. PMID [29536616]
  9. Kennedy SH, Lam RW, McIntyre RS, Tourjman SV, Bhat V, Blier P, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2016 clinical guidelines for the management of adults with major depressive disorder: section 3: pharmacological treatments. Can J Psychiatry. 2016;61(9):540-60. PMID [27486148]
  10. Hirsch LE, Pringsheim T. Aripiprazole for autism spectrum disorders (ASD). Cochrane Database Syst Rev. 2016;2016(6):CD009043. PMID [27344135]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Daniel Prates Baldez