Ver também
Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica
O mecanismo de ação da buspirona não é bem conhecido e envolve vários neurotransmissores. Embora apresente ação ansiolítica, não atua como os BZDs por meio do complexo GABA-canais de cloro e não apresenta efeitos hipnóticos, anticonvulsivantes e de relaxamento muscular.
A buspirona é o protótipo do ansiolítico agonista parcial 5-HT1A. Tem alta afinidade serotonérgica, pré e pós-sináptica. Nos receptores 5-HT1A pré-sinápticos (autorreceptores), age como se fosse um antagonista: sua ativação pela buspirona inibe a descarga serotonérgica do núcleo dorsal da rafe, diminuindo o turnover da serotonina. Nos receptores pós-sinápticos, atua como agonista parcial. Acredita-se que, em razão da demora do início, a ação ansiolítica dos agonistas parciais 5-HT1A deva-se mais a fenômenos de adaptação neuronal do que propriamente à ocupação imediata de receptores, de forma semelhante ao que ocorre com os ADs no tratamento da depressão.
A buspirona tem fraca afinidade pelos receptores D2 e D3. Em estudos com animais, em doses elevadas, aumentou a atividade dopaminérgica na substância negra. Estimula a produção da prolactina, podendo causar irregularidades menstruais e galactorreia. Esse efeito é dose-dependente.
Seu metabólito principal (1PP) atua nos receptores α2-adrenérgicos, aumentando as concentrações de noradrenalina, razão pela qual não é eficaz no TP ou na síndrome de abstinência de BZDs.1 Não piora as habilidades motoras após administração aguda ou crônica. Interage pouco com depressores do SNC, como o álcool. Sua interrupção não causa síndrome de abstinência, nem dependência. Sua principal desvantagem em relação aos BZDs é a demora de 2 semanas ou mais para o início de ação.
O uso de buspirona não indica tolerância cruzada com os BZDs e os barbitúricos. Pode, entretanto, ser o fármaco de escolha em pacientes ansiosos com alto potencial de abuso de substâncias e/ou dependentes de álcool e ansiolíticos.
Farmacocinética
A buspirona é um ansiolítico do grupo das azapironas com características farmacológicas distintas dos BZDs e de outros agentes ansiolíticos. É um agonista serotonérgico parcial 5-HT1A e um antagonista dopaminérgico D21.1 É absorvida de forma rápida e integral após administração VO. É extensamente metabolizada no fígado, sobretudo por oxidação, produzindo metabólitos com quase 1/4 da atividade da buspirona. Apenas 4% do medicamento chega inalterado à circulação. Atinge o pico de concentração no sangue em aproximadamente 1,5 hora após a ingestão. A administração concomitante a alimentos retarda a absorção gastrintestinal, aumentando a quantidade de buspirona inalterada na circulação; a eficácia e a ocorrência de efeitos adversos, entretanto, não são afetadas. O equilíbrio plasmático é alcançado em cerca de 2 dias. Apesar de a absorção oral ser de 100%, sua biodisponibilidade é de apenas 4%, devido ao extenso metabolismo de primeira passagem. Mais de 95% do fármaco liga-se a proteínas plasmáticas, em especial à albumina (69%). O volume de distribuição após uma administração IV é de 5,3 L/kg. Sua meia-vida geralmente se situa entre 2 e 3 horas, podendo variar, entretanto, de 1 a 14 horas. Após uma única dose, 29 a 63% são excretados pela urina em 24 horas sob a forma de metabólitos. De 18 a 38% são excretados nas fezes.1
A buspirona foi aprovada em 1986 pela FDA como o primeiro medicamento não sedativo especificamente indicado para o tratamento do TAG. Nesse período, foi considerado um fármaco inovador, porque, ao contrário dos medicamentos ansiolíticos existentes, como os BZDs e os barbitúricos, não causava sedação e não tinha risco de dependência, abuso ou síndrome de abstinência. No entanto, a buspirona vem apresentando resultados controversos no tratamento do TAG em diferentes revisões sistemáticas. Em uma delas, as azapironas, incluindo a buspirona, demonstraram ser superiores ao placebo e menos eficazes do que os BZDs no tratamento desse transtorno. Essa mesma revisão foi inconclusiva quanto à comparação das azapironas com ADs, kava-kava ou psicoterapia.2 Já em outra revisão sistemática, com análise de TE no TAG, a buspirona não diferiu do placebo e teve um TE menor, em ordem decrescente, do que a pregabalina, a hidroxizina, a venlafaxina XR, os BZDs e os ISRSs.3 De qualquer maneira, a buspirona ainda parece ser uma escolha racional para pacientes que não toleram e/ou têm contraindicações em relação ao uso de BZDs e ADs, situações frequentes em idosos. Um ECR demonstrou a eficácia da buspirona, comparada à sertralina, no tratamento do TAG em idosos.4
Foram sugeridas indicações em vários transtornos: depressivo, obsessivo-compulsivo, de pânico e de ansiedade social, em crianças com TDAH, bem como na retirada de BZDs, mas a maioria não foi confirmada em ensaios clínicos.
Estudos isolados constataram eficácia na bulimia nervosa, na ansiedade e nos sintomas negativos da esquizofrenia,5 na adição ao álcool e na retirada de opioides.6 Existem evidências de que a buspirona seja efetiva no tratamento de diversas condições, como transtorno disfórico pré-menstrual, ansiedade pós-AVC, adição à cocaína, em associação com a testosterona no transtorno do desejo sexual masculino hipoativo, em associação com a melatonina para o TDM, no bruxismo associado aos ISRSs e nos sintomas comportamentais das demências.7 A buspirona aumenta a peristalse esofágica e a função do esfíncter esofágico superior em sujeitos saudáveis. Com base nisso, vem sendo estudada para o tratamento da dispepsia funcional, ainda com poucos resultados consistentes.
Referências
Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.
- Gelemberg AJ. Buspirone: seven-year update. J Clin Psychiatry. 1994;55(5):222-9. PMID [8071276]
- Chessick CA, Allen MH, Thase M, Cunha ABCBM, Kapczinski FFK, Lima MSML, et al. Azapirones for generalized anxiety disorder. Cochrane Database Syst Rev. 2006;2006(3):CD006115. PMID [16856115]
- Hidalgo RB, Tupler LA, Davidson JR. An effect-size analysis of pharmacologic treatments for generalized anxiety disorder. J Psychopharmacol. 2007;21(8):864-72. PMID [17984162]
- Mokhber N, Azarpazhooh MR, Khajehdaluee M, Velayati A, Hopwood M. Randomized, single-blind, trial of sertraline and buspirone for treatment of elderly patients with generalized anxiety disorder. Psychiatry Clin Neurosci. 2010;64(2):128-33. PMID [20132529]
- Ghaleiha A, Noorbaa AA, Farnaghi F, Hajiazim M, Akhondzadeh S. A double-blind, randomized, and placebo-controlled trial of buspirone added do risperidone in patients with chronic schizophrenia. J Clin Psychopharmacol. 2010;30(6):678-82. PMID [21105281]
- Bergeria CL, Tan H, Antoine D, Weerts EM, Huhn AS, Hobelmann JG, et al. A double-blind, randomized, placebo-controlled, pilot clinical trial examining buspirone as an adjunctive medication during buprenorphine-assisted supervised opioid withdrawal. Exp Clin Psychopharmacol. 2022 Mar 10. Online ahead of print. PMID [35266779]
- Santa Cruz MR, Hidalgo PC, Lee MS, Thomas CW, Holroyd S. Buspirone for the treatment of dementia with behavioral disturbance. Int Psychogeriatr. 2017;29(5):859-62. PMID [28124634]
Organizadores
Aristides Volpato Cordioli
Carolina Benedetto Gallois
Ives Cavalcante Passos
Autores
Ana Paula Mezacaza Filippon