Ácidos graxos (ômega-3)

Ver também

Terapêutica

Nome comercial: Fish oil, óleo de peixe, ômega 3

Apresentações:

  • Caixas com 60 cápsulas de 550 ou 1.100 mg (Merck)
  • Caixas com 30 cápsulas de 600 mg (Herbarium)
  • Caixas com 60, 90, 120, 145, 200, 220, ou 320 cápsulas de 1.000, 1.200, 1.400 ou 2.400 mg (Nature’s Bounty)
  • Frascos com 60 cápsulas de 500 mg (Nutraway)
  • Frascos com 45 cápsulas de 1.000 mg (Geyer)
  • Frascos com 45, 60, 140, ou 360 cápsulas de 1000 mg (FDC)
  • Frascos com 60 cápsulas de 1.000 mg (Vitafor)
  • Frascos com 60, 100, 120 cápsulas de 1000 mg (Naturalis)
  • Frascos com 60 ou 120 cápsulas de 1.000 mg (Vitalab)
  • Frascos com 70 ou 130 cápsulas de 1.000 mg (Bionatus)
  • Frascos com 90 cápsulas de 1.000 mg (Sanavita)
  • Frascos com 120 cápsulas de 1.000 mg (Catarinense)

Nota: Informações sobre nomes comerciais e apresentações atualizadas em abril de 2021.*

Classe

  • Ácidos graxos (ômega 3)
  • Agente antilipêmico1

Comumente prescrito para

(em negrito, as aprovações da FDA)

  • Redução de risco cardiovascular em pacientes com níveis de triglicerídeos ≥ 150 mg/dL (tratamento adjuvante a estatinas em dose máxima tolerada em pacientes com indicação)1,2
  • Suplementação dietética em pacientes com risco de doença arterial coronariana1
  • Hipertrigliceridemia (tratamento adjuvante a mudanças dietéticas em adultos com hipertrigliceridemia ≥ 500 mg/dL)1

Principais sintomas-alvo

  • Possível ação anti-inflamatória e de neuroproteção.6
  • Redução de risco cardiovascular.
  • Suplementação dietética.
  • Hipertrigliceridemia.

Evidências incompletas de eficácia:

  • Profilaxia e tratamento adjuvante na esquizofrenia e em outros transtornos psicóticos
  • Tratamento adjuvante ou em monoterapia nas síndromes depressivas uni e bipolares
  • Neuroproteção nos quadros demenciais em estágios iniciais
  • Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH)
  • Transtorno da personalidade borderline
  • Transtornos de ansiedade
  • Tratamento de nefropatia por imunoglobulina A (IgA)1

Como a substância atua

  • Ômega-3 é um grupo de ácidos graxos poli-insaturados (PUFA, do inglês polyunsaturated fatty acids), do qual fazem parte o ácido α-linolênico (ALA), o ácido eicosapentaenoico (EPA) e o ácido docosa-hexaenoico (DHA), entre outros.
  • Diversos mecanismos têm sido sugeridos para explicar a farmacodinâmica dos ácidos graxos ômega-3, entre eles aqueles que se devem às propriedades estabilizadoras de membranas, anti-inflamatórias e neuroprotetoras.
  • Os ácidos graxos são capazes de melhorar a fluidez da membrana, auxiliando na função de receptores, na neurotransmissão, no transporte de glicose e na transdução de sinal.
  • Apresentam atividade supressora da síntese de citocinas pró-inflamatórias, prostaglandinas, leucotrienos e fosfodiesterase, além de potencializar mecanismos antioxidantes, aumentando, por exemplo, a glutationa.
  • Além disso, parecem aumentar o suprimento de oxigênio e glicose no cérebro, modular a produção e a função de neurotransmissores e, ainda, aumentar a concentração cortical de N-acetil-aspartato (possível marcador de densidade de integridade neuronal) e a produção do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), prevenindo a apoptose e favorecendo a neurogênese e a plasticidade sináptica.
  • Sugere-se, ainda, que esses mecanismos possam atuar de forma sinérgica em relação aos fármacos já empregados nos diferentes transtornos psiquiátricos.3,4

Tempo para início da ação

  • Ensaios clínicos com uso de ômega-3 para tratamento de hipertrigliceridemia apresentaram resultados estatisticamente significativos em estudos com 6 a 16 semanas de duração.2,5

Se funcionar

  • Reduzem os níveis de triglicerídeos e de eventos cardiovasculares.1
  • Auxiliam na prevenção em indivíduos em alto risco para transtornos psiquiátricos.6
  • Funcionam como estratégia de neuroproteção em pacientes com transtornos de humor ou psicóticos.6,7

Se não funcionar

  • Deve-se revisar evidência que sustente seu uso no transtorno psiquiátrico em questão.

Melhores combinações de potencialização para resposta parcial ou resistência ao tratamento

  • Evidências preliminares, ainda que inconclusivas, apontam que a suplementação de ômega-3 tem potencial como tratamento adjuvante em transtornos mentais, ou como estratégia de prevenção e neuroproteção.6-8
  • Ainda há evidência inconsistente quanto ao uso como monoterapia.8

Dosagem e uso

Variação típica da dose

  • A posologia empregada nos ensaios clínicos apresenta grande variabilidade de dose. Predomina o emprego de doses entre 2 e 4 g/dia de óleo de peixe, em doses fracionadas 3 vezes ao dia, sendo descritas doses de até 10 g/dia em alguns ensaios.
  • Doses para tratamento de hipertrigliceridemia geralmente de 4 g/dia, divididas em 1 ou 2 tomadas ao dia.1
  • A American Psychiatric Association (APA) atualmente recomenda a suplementação de ômega-3 em transtornos depressivos, psicoses e transtornos de controle de impulsos,6,8 com recomendação de uso de 1 g/dia em pacientes com transtorno depressivo maior.6

Como dosar

  • Iniciar com a dose desejada.9
  • Cápsulas com grande variabilidade de composição (desde cápsulas de 200 mg até 2.400 mg).1

Dicas para dosagem

  • Cápsulas de ingestão via oral, junto com as refeições.1
  • As cápsulas devem ser engolidas inteiras.1
  • As cápsulas não devem ser mastigadas, quebradas, dissolvidas ou trituradas.1

Overdose

  • Não há relatos na literatura acerca de efeitos tóxicos da administração de compostos de ômega-3. No caso de superdosagem, o paciente deve ser tratado sintomaticamente, e medidas de suporte gerais devem ser tomadas.

Uso prolongado

  • O ômega-3 foi estudado em um ensaio clínico com mediana de seguimento de 4,9 anos.9

Formação de hábito

  • Não há dados relatando uso abusivo ou dependência.5

Como interromper

  • A medicação pode ser descontinuada subitamente.9

Farmacocinética

  • Ômega-3 é um grupo de PUFA que são considerados essenciais por não serem sintetizados pelo ser humano, devendo ser adquiridos pela alimentação sob a forma de gorduras.
  • Sua absorção ocorre por meio da difusão passiva pelos enterócitos, após formação de micelas pela ação de lipases linguais e gástricas no trato digestivo superior.
  • A administração oral de formulações de ômega-3 mostrou-se efetiva no aumento das concentrações de EPA e DHA no plasma, com picos plasmáticos entre 2 e 4 horas após a ingestão.
  • Faltam dados acerca do metabolismo da medicação.1

Mecanismos de interações medicamentosas

  • Os ácidos graxos ômega-3 podem aumentar os efeitos de antiagregação plaquetária de medicações com essas propriedades (p. ex., inibidores seletivos de recaptação da serotonina e anti-inflamatórios não esteroides [AINEs]). Por isso, deve-se monitorar a associação.1
  • Os ácidos graxos ômega-3 podem aumentar os efeitos de anticoagulação de medicações anticoagulantes. Por isso, deve-se monitorar a associação.1

Outras advertências/precauções

  • Tem-se discutido a possível relação entre a suplementação de ômega-3 e o câncer de próstata, com dados conflitantes sobre uma associação positiva ou negativa do ômega-3 e o risco de desenvolvimento do câncer. Dessa forma, é prudente que a suplementação dietética com ômega-3 em pacientes com risco aumentado de câncer de próstata ou já portadores da patologia seja feita com cuidado, analisando-se os riscos e os benefícios do tratamento e realizando-se monitoramento por meio de avaliações clínica e laboratorial adequadas.10

Não usar

  • Hipersensibilidade ao fármaco ou a qualquer componente de sua formulação.
  • Alergia a peixes ou frutos do mar.

Potenciais vantagens e desvantagens

Potenciais vantagens

  • Apresenta potencial para ser nova ferramenta terapêutica adjuvante no tratamento de transtornos mentais.6
  • Apresenta potencial para ser nova estratégia de prevenção e neuroproteção em transtornos mentais graves.6
  • A suplementação de ômega-3 é segura e geralmente bem tolerada.6

Potenciais desvantagens

  • Necessidade de mais estudos para fortalecer evidência quanto ao uso e indicações em psiquiatria.6,8

Dicas

  • Existe evidência da associação de deficiência de ômega-3 com processos patológicos em alguns transtornos mentais graves, principalmente transtornos psicóticos e de humor.6
  • A suplementação adequada de ômega-3 pode ter potencial como estratégia de prevenção em indivíduos em risco para desenvolvimento de transtornos mentais.6
  • A suplementação adequada de ômega-3 também pode ter potencial como estratégia de retardo da progressão de patologia cerebral em indivíduos com transtornos mentais.6
  • Para esses benefícios, seria ideal a suplementação em estágios iniciais, ou previamente ao início dos sintomas de transtornos mentais.6

Referências

Conteúdo adaptado e ampliado de Henriques AA, Filippon APM, Padua AC, Kruter BC, Mattevi BS, Gallois CB, et al. Medicamentos: informações básicas. In: Cordioli A, Gallois CB, Isolan L, organizadores. Psicofármacos: consulta rápida. 5. ed. Porto Alegre: Artmed; 2015. p. 28-352. 

  1. Mozaffarian D. Fish oil: Physiologic effects and administration [Internet]. Waltham: UpToDate; 2019 [capturado em 5 set 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/fish-oil-physiologic-effects-and-administration.
  2. Vascepa®. Bula [Internet]. Bridgewater: Amarin Pharma; 2019 [capturado em 5 set 2020]. Disponível em: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2019/202057s035lbl.pdf.
  3. Balanzá-Martínez V, Fries GR, Colpo GD, Silveira PP, Portella AK, Tabarés-Seisdedos R, et al. Therapeutic use of omega-3 fatty acids in bipolar disorder. Expert Rev Neurother. 2011;11(7):1029-47.
  4. Prior PL, Galduróz JCF. (N-3) Fatty acids: molecular role and clinical uses in psychiatric disorders. Adv Nutr. 2012;3(3):257-65.
  5. Lovaza®. Bula [Internet]. Brentford: GlaxoSmithKline; 2019 [capturado em 5 set 2020]. Disponível em: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2019/021654s043lbl.pdf.
  6. McNamara RK, Almeida DM. Omega-3 polyunsaturated fatty acid deficiency and progressive neuropathology in psychiatric disorders: a review of translational evidence and candidate mechanisms. Harv Rev Psychiatry. 2019;27(2):94-107.
  7. Hsu MC, Huang YS, Ouyang WC. Beneficial effects of omega-3 fatty acid supplementation in schizophrenia: possible mechanisms. Lipids Health Dis. 2020;19(1):159.
  8. Nasir M, Bloch MH. Trim the fat: the role of omega-3 fatty acids in psychopharmacology. Ther Adv Psychopharmacol. 2019;9:2045125319869791.
  9. Bhatt DL, Steg PG, Miller M, Brinton EA, Jacobson TA, Ketchum SB, et al. Cardiovascular risk reduction with icosapent ethyl for hypertriglyceridemia. N Engl J Med. 2019;380(1):11-22.
  10. Masko EM, Allott EH, Freedland SJ. The relationship between nutrition and prostate cancer: is more always better? Eur Urol. 2013;63(5):810-20.

Leituras sugeridas

Appleton KM, Rogers PJ, Ness AR. Updated systematic review and meta-analysis of the effects of n-3 long-chain polyunsaturated fatty acids on depressed mood. Am J Clin Nutr. 2010;91(3):757-70.

Fusar-Poli P, Berger G. Eicosapentaenoic acid interventions in schizophrenia: meta-analysis of randomized, placebo-controlled studies. J Clin Psychopharmacol. 2012;32(2):179-85.

Joy CB, Mumby-Croft R, Joy LA. Polyunsaturated fatty acid supplementation for schizophrenia. Cochrane Database Syst Rev. 2006;2006(3):CD001257.

Lin PY, Mischoulon D, Freeman MP, Matsuoka Y, Hibbeln J, Belmaker RH, et al. Are omega-3 fatty acids antidepressants or just mood-improving agents? The effect depends upon diagnosis, supplement preparation, and severity of depression. Mol Psychiatry. 2012;17(12):1161-3.

Lin PY, Su KP. A meta-analytic review of double-blind, placebo-controlled trials of antidepressant efficacy of omega-3 fatty acids. J Clin Psychiatry. 2007;68(7):1056-61.

Mischoulon D, Freeman MP. Omega-3 fatty acids in psychiatry. Psychiatr Clin North Am. 2013;36(1):15-23.

Mossaheb N, Schäfer MR, Schlögelhofer M, Klier CM, Cotton SM, McGorry PD, et al. Effect of omega-3 fatty acids for indicated prevention of young patients at risk for psychosis: when do they begin to be efective? Schizophr Res. 2013;148(1-3):163-7.

Stafford MR, Jackson H, Mayo-Wilson E, Morrison AP, Kendall T. Early interventions to prevent psychosis: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2013;346:f185.

*Revisão dos nomes comerciais e apresentações

Felipe Mainka

Autores

Thiago Henrique Roza