Agranulocitose

Ver também Anemia aplásica.

Sobre

Caracteriza-se pela diminuição dos glóbulos brancos (polimorfonucleares) para menos de 500/mm3. É uma reação idiossincrática imunomediada complexa, que se correlaciona com fatores genéticos. Como os neutrófilos perfazem entre 50 e 70% da contagem de leucócitos totais, é comum ocorrer agranulocitose associada à leucopenia. Pode ocorrer, embora sempre de maneira rara, com antidepressivos (clomipramina, doxepina, fluoxetina, imipramina, maprotilina, mianserina, mirtazapina), anticonvulsivantes (carbamazepina, fenitoína, lamotrigina, ácido valproico) e alguns antipsicóticos (clorpromazina, levomepromazina, risperidona, olanzapina, quetiapina, tioridazina, ziprasidona).1,2 Em revisão sistemática de Andersohn de 2007, a agranulocitose ocorreu, em média, entre o 1° e o 2° mês de tratamento para os psicofármacos.3 Leucopenia transitória e benigna (< 4.000/mm3) ocorre em 30% dos pacientes nos primeiros 6 meses de uso da carbamazepina. O uso de longo prazo de clordiazepóxido, diazepam, midazolam e modafinila foi relacionado à agranulocitose em raras situações. Nesses pacientes, a suspensão do fármaco trouxe melhora rápida do quadro.

A agranulocitose é mais comum e grave com a clozapina, com incidência cumulativa de agranulocitose de 0,8% depois de 4 semanas ou mais de tratamento. Um follow-up de 1.038 pacientes, por 36 meses, apresentou risco absoluto de 0,77% para neutropenia severa (< 500/mL) e de 5,3% para neutropenia (< 1.500/mL).4 O risco maior é nos primeiros 3 a 6 meses de tratamento, em mulheres e idosos, na coadministração com outras substâncias que causam agranulocitose – por exemplo, metimazol, carbamazepina. Existe relato de neutropenia induzida por clozapina após 19 anos de uso da substância. Em novas tentativas, apenas 1/3 dos pacientes têm novo episódio de agranulocitose, porém reversível.5

Manejo

  • Durante o uso de antipsicóticos de baixa potência (p. ex., clorpromazina), não é necessária a contagem sanguínea frequente e regular. Entretanto, se o paciente apresentar febre e dor de garganta nos 3 primeiros meses de tratamento, é preciso fazer hemograma de urgência.
  • Em relação ao uso da clozapina, deve ser realizado semanalmente hemograma completo, com diferencial e contagem de plaquetas durante as primeiras 18 semanas de tratamento. Em seguida, deve ser feito controle mensal durante todo o tratamento e mesmo alguns meses após a suspensão do medicamento.
  • Neutrófilos totais entre 1.000 e 1.500: o tratamento pode ser mantido, mas a frequência do hemograma deve passar a ser 3 vezes por semana. Neutrófilos entre 500 e 999 indicam suspensão de clozapina, hemograma diário até que neutrófilos fiquem acima de 1.000 e consulta hematológica. Já se os neutrófilos estiverem abaixo de 500, além de suspensão do fármaco e consulta com hematologista, a clozapina não deve voltar a ser tentada.
  • Se nos dois primeiros anos os neutrófilos estiverem se mantendo sempre acima de 2.000, após esse período não é mais necessário controle regular hematológico (a não ser por outras razões).4
  • O quadro de agranulocitose regride depois de 2 a 3 semanas. Entretanto, essa reversão pode demorar se a clozapina for substituída por olanzapina.
  • O uso de fator estimulador de colônia de glanulócitos (filgrastima) pode ser útil no tratamento da agranulocitose provocada por clozapina, após 10° dia sem recuperação das contagens de neutrófilos.1,6
  • O rechallenge de clozapina deve ser individualizado levando-se em conta o risco de dano ao paciente pela sua doença psiquiátrica, resposta prévia à clozapina e resposta a outros antipsicóticos. Para esses casos, considerar a associação de lítio e, se iniciado associado, idealmente manter o lítio, dado que, em séries de relato de caso, ocorreram casos de nova agranulocitose na retirada de lítio.5 Em casos selecionados, pode-se associar filgrastima.6,7 Preferencialmente, realizar reintrodução lenta e gradual.
  • Não se deve associar clozapina e carbamazepina, pois o risco de agranulocitose aumenta.
  • Os pacientes devem ser orientados a referir ao médico a ocorrência de febre, petéquias e dor de garganta.

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Rattay B, Benndorf RA. Drug-induced idiosyncratic agranulocytosis: infrequent but dangerous. Front Pharmacol. 2021;12:727717. PMID [34483939]
  2. Lieberman JA, Johns CA, Kane JM, Rai K, Pisciotta AV, Saltz BL, et al. Clozapine induced agranulocytosis: non-cross reactivity with Other psychotropic drugs. J Clin Psychiatry. 1988;49(7):271-7. PMID [3391979]
  3. Andersohn F, Konzen C, Garbe E. Systematic review: agranulocytosis induced by nonchemotherapy drugs. Ann Intern Med. 2007;146(9):657-65. PMID [1747834]
  4. Goldani AAS, Rabelo-da-Ponte FD, Feiten JG, Lobato MIR, Belmonte-de-Abreu PS, Gama CS. Risk of neutropenia among clozapine users and non-users: results from 5,847 patients. Braz J Psychiatry. 2022;44(1):21-5. PMID [34730717]
  5. Boazak M, Goldsmith DR, Cotes RO. Mask off? Lithium augmentation for clozapine rechallenge after neutropenia or agranulocytosis: discontinuation might be risky. Prim Care Companion CNS Disord. 2018;20(6):18l02282. PMID [30549484]
  6. Gopalakrishnan R, Subhalakshmi TP, Kuruvilla A, Jacob KS. Clozapine rechallenge under the cover of Filgrastim. J Postgrad Med. 2013;59(1):54-5. PMID [23525060]
  7. Silva E, Higgins M, Hammer B, Stephenson P. Clozapine rechallenge and initiation despite neutropenia- a practical, step-by-step guide. BMC Psychiatry. 2020;20(1):279. PMID [32503471]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Eduardo Trachtenberg
Deborah Grisolia Fuzina
Everton Silva
Giorgia Lionço Pellini
Giovanni Michele Rech
Pedro Lopes Ritter
Vinicius Martins Costa
Aristides Volpato Cordioli