CID-11: O que realmente mudou?

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Introdução

A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) faz parte de uma cooperação internacional que tem como objetivo inicial padronizar a classificação diagnóstica das doenças e as causas de mortalidade.1

[definição]
A CID é um instrumento de codificação estatística em saúde, cujos objetivos são descrever a condição de saúde humana2 e constituir uma referência de classificação diagnóstica para fins clínicos e de pesquisa.3

Entre as finalidades e utilidades da CID, estão incluídas:3

  • análise de informações de saúde para a tomada de decisão baseada em evidências;
  • compartilhamento e comparação de informações de saúde entre hospitais, regiões, locais e países;
  • comparação dos dados de uma mesma localização em diferentes momentos;
  • monitoramento da incidência e da prevalência das doenças;
  • análise para reembolso e alocação de recursos para a saúde.

A partir da primeira versão, lançada em 1900 (CID-1), nove revisões foram realizadas em um período de 90 anos. A revisão mais recente é a 11ª (CID-11), lançada em 2018. Ela apresenta mudanças significativas na seção referente aos transtornos psiquiátricos, agora denominados transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento.

Apesar das convergências com a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), possivelmente influenciadas pelo período semelhante de revisão e pelas sobreposições de grupos de trabalho, diferenças conceituais podem ser encontradas entre as duas classificações diagnósticas.

Neste capítulo, serão discutidos, além dos aspectos históricos da CID, as principais alterações nos diagnósticos relacionados à saúde mental na CID-11.

Objetivos

 Ao final da leitura deste capítulo, o leitor será capaz de

  • citar os principais objetivos da CID;
  • apresentar um breve histórico da CID e de sua seção de transtornos mentais;
  • descrever as principais mudanças nos diagnósticos relacionados à saúde mental na CID-11 em comparação à revisão anterior (CID-10);
  • discutir evidências científicas associadas às principais mudanças nos diagnósticos relacionados à saúde mental na CID-11 em comparação à CID-10.

História da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde

Apesar de a descrição das causas de mortalidade ser antiga, foi apenas no século XIX que tiveram início os esforços para organizar os dados estatísticos referentes às doenças e às causas de mortalidade.2

Em 1853, durante o primeiro Congresso Estatístico Internacional, o Dr. William Farr e o Dr. Marc d’Espine foram consultados para criar “uma nomenclatura uniforme de causas de morte aplicável a todos os países”.1,4 Dois anos depois, Farr apresentou uma classificação subdividida em cinco grupos:4

  • doenças epidêmicas;
  • doenças constitucionais;
  • doenças locais organizadas de acordo com a localização anatômica;
  • doenças do desenvolvimento;
  • doenças diretamente causadas por violência.

Essa classificação passou por revisões subsequentes, porém, elas não chegaram a ser aceitas internacionalmente.

Em 1893, um comitê chefiado por Jacques Bertillon, formado em uma reunião do Instituto Estatístico Internacional dois anos antes, apresentou a Bertillon Classification of Causes of Death, classificação, enfim, aceita por vários países.4 Apesar do título da classificação, além das causas de mortalidade, ela incluía, também, potenciais causas de incapacidade (morbidade).5

O Quadro 1 apresenta os grupos de doenças incluídos na Bertillon Classification of Causes of Death.5

QUADRO 1 | BERTILLON CLASSIFICATION OF CAUSES OF DEATH: GRUPOS DE DOENÇAS

I

  • Doenças gerais


II

  • Doenças do sistema nervoso e de órgãos sensoriais


III

  • Doenças do sistema circulatório


IV

  • Doenças do sistema respiratório


V

  • Doenças do sistema digestivo


VI

  • Doenças do sistema geniturinário


VII

  • Doenças puerperais


VIII

  • Doenças da pele e dos anexos


IX

  • Doenças dos órgãos locomotores


X

  • Malformações


XI

  • Doenças da infância precoce


XII

  • Doenças do idoso


XIII

  • Consequências de causas externas


XIV

  • Doenças indefinidas


Fonte:  Adaptado de Moriyama e colaboradores (2011).5


A primeira conferência internacional para rever a classificação proposta por Bertillon foi realizada em 1900, cuja revisão é considerada a primeira CID (CID-1).5 Nesse encontro, ficou estabelecido que haveria revisões a cada 10 anos.4 Essa proposta nem sempre foi contemplada, como se pode verificar pela cronologia apresentada no Quadro 2.

QUADRO 2 | CRONOLOGIA DAS REVISÕES DA CLASSIFICAÇÃO INTERNACIONAL DE DOENÇAS

Versão

Ano

CID-1

1900

CID-2

1909

CID-3

1920

CID-4

1929

CID-5

1938

CID-6*

1948

CID-7

1955

CID-8

1965

CID-9

1975

CID-10

1989

CID-11

2018

* Primeira vez que a morbidade psiquiátrica foi incluída.1,3,4

CID: Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde.

Fonte:  Adaptado de Moriyama e colaboradores (2011).5

Em 1909, houve a segunda revisão da CID (CID-2), sem alterações significativas além da inclusão de doenças nas seções de doenças gerais, outras localizações anatômicas e novas categorias para as causas externas de mortalidade.5 A conferência para a terceira revisão (CID-3) foi realizada em 1920, e, desta vez, houve um detalhamento mais significativo da nomenclatura das doenças, e sua versão final foi adotada por 43 países.5 As reuniões para as revisões subsequentes ocorreram nos anos apresentados no Quadro 2.4,5

Os anos supracitados se referem à época de realização das reuniões e conferências com o objetivo de revisar a classificação anterior. Eles não correspondem necessariamente ao ano em que a revisão foi oficialmente adotada.

Seção de transtornos mentais

A CID-6 (cuja conferência para revisão foi realizada em 1948) trouxe uma novidade: um grupo de doenças classificadas como mentais, psiconeuróticas e transtornos de personalidade.5,6 Até então, a CID-5 (de 1938) incluía, entre os transtornos mentais, apenas as seguintes condições:7

  • deficiência mental;
  • esquizofrenia (demência precoce);
  • psicose maníaco-depressiva;
  • “outros transtornos mentais”.

No entanto, psiquiatras norte-americanos, segundo o livro The making of DSM-III: a diagnostic manual’s conquest of american psychiatry, de Hannah S. Decker, não consideraram aquela classificação útil. Assim, a American Psychiatric Association (APA) decidiu publicar uma classificação própria, o primeiro Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatísticode Transtornos Mentais ), o DSM-I, em 1952.8

Por influência da teoria psicanalítica, à época predominante na psiquiatria norte-americana, e de quadros psiquiátricos apresentados por soldados na Segunda Guerra Mundial, os transtornos mentais eram entendidos como reações: “os transtornos mentais representam as reações da pessoa a fatores psicológicos, biológicos e sociais”.8 O DSM-II, publicado em 1968, manteve a orientação psicanalítica e foi baseado na CID-8, porém, assim como o DSM-I, com definições mais adequadas ao contexto da psiquiatria norte-americana.8,9

CID-11

A CID-11 foi lançada em 18 de junho de 2018,3 e após a aprovação pelo comitê executivo e pela World Health Assembly (WHA), em 2019, seu uso será oficializado a partir de 1º de janeiro de 2022 pelos países-membros.4

[lembrar]
No momento da escrita deste capítulo, a versão traduzida para o português da CID-11 ainda não havia sido disponibilizada. Portanto, traduções dos diagnósticos e descrições da CID-11 original aqui presentes podem não refletir a versão oficial em português.

Transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento

A CID-11 define os transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento como10

síndromes caracterizadas por transtorno clinicamente significativo da cognição, regulação emocional ou comportamental, que reflete uma disfunção no processo psicológico, biológico ou de desenvolvimento subjacente ao funcionamento mental e comportamental. Tais transtornos estão geralmente associados a sofrimento ou prejuízo em questões individuais, familiares, sociais, educacionais, ocupacionais ou outras importantes áreas do funcionamento.11

Os processos de revisão da CID-10 e do DSM-IV ocorreram em períodos semelhantes. Houve, também, sobreposição de grupos de trabalho para diferentes categorias diagnósticas. Apesar da permissão para que os grupos de trabalho da CID-11 considerassem a aplicabilidade e a utilidade clínica do DSM-5, no intuito de “minimizar diferenças aleatórias e arbitrárias”, foram autorizadas mudanças conceituais que os pesquisadores julgassem necessárias.11 Algumas mudanças da CID-11:

  • exclusão da reação aguda ao estresse e do luto dos transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento (ambos, agora, pertencem ao grupo dos fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com serviços de saúde);
  • codificação em outros grupos os transtornos do sono–vigília (agora em um grupo específico), as disfunções sexuais e a incongruência de gênero (ambos classificados nas condições relacionadas à saúde sexual);
  • inclusão de novos diagnósticos e divisão de outros, os quais demonstraram valores preditivos diferenciados para desfechos clínicos específicos.

A seguir, serão discutidas as principais alterações na CID-11 referentes aos transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento (na CID-10, denominados apenas transtornos mentais e comportamentais).

Reação aguda ao estresse

De acordo com Maercker e colaboradores,12 a reação aguda ao estresse foi definida como uma reação transitória, de ocorrência imediata após a exposição a um fator estressor. Esse conceito foi influenciado pela psiquiatria militar. Portanto, a intenção não era descrever um transtorno mental, mas uma reação esperada que as pessoas, em geral, apresentam após um evento estressante, com resolução espontânea em poucos dias. Dessa forma, haveria duas condições, uma patológica e outra não, que compartilhariam um fator comum: a exposição a uma situação estressora.12

Segundo Maercker e colaboradores, a reação aguda ao estresse seria definida como uma reação normal que, apesar de manter sua importância como objeto de intervenção clínica, não seria mais considerada um transtorno.13 Ao encontro desse conceito, na CID-11, a reação aguda ao estresse foi excluída do capítulo de transtornos mentais e comportamentais e passou a fazer parte dos diagnósticos incluídos no capítulo dos fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com serviços de saúde.

A CID-11 descreve a reação aguda ao estresse como o10

desenvolvimento de sintomas transitórios emocionais, somáticos, cognitivos ou comportamentais como resultado da exposição a um evento ou situação (de curta ou longa duração) de natureza extremamente ameaçadora e apavorante (por exemplo, desastres naturais ou não, combate, acidente grave, violência sexual e agressão). Os sintomas podem incluir sinais autonômicos de ansiedade (por exemplo, taquicardia e sudorese), confusão, tristeza, ansiedade, raiva, desespero, hiperatividade, inatividade, isolamento social ou estupor. A resposta ao estressor deve ser considerada normal, dada a gravidade do estressor, e geralmente começa a desaparecer poucos dias após o evento ou após a retirada da situação ameaçadora.

Transtorno do estresse pós-traumático complexo

Na CID-11, o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) foi dividido em dois diagnósticos, um deles, considerado como de apresentação complexa (TEPT complexo), incluído pela primeira vez.10

[lembrar]
A apresentação complexa do TEPT inclui sintomas caracterizados como disturbances in self-organization, alterações que refletem o comprometimento psicológico significativo que pode ocorrer após o trauma.13

Em um estudo de revisão, Brewin e colaboradores avaliaram a validade de uma proposta diagnóstica que, por meio de análises de classes latentes, identificasse apresentações clínicas do TEPT associadas a desfechos distintos.14 Os autores encontraram que um conjunto específico de sintomas, cuja apresentação clínica denominaram como complexa, está presente em um grupo de pacientes que vivenciam mais frequentemente traumas múltiplos e sustentados. Além disso, esses pacientes apresentam um prejuízo funcional maior do que aqueles com os critérios usuais para o TEPT.14

A validade da classificação diagnóstica citada (TEPT e TEPT complexo) foi investigada por Hyland e colaboradores. Esses autores identificaram uma validade fatorial e discriminante dos dois diagnósticos, além de uma diferença na capacidade de predição de múltiplos desfechos psicológicos. Por exemplo, o TEPT complexo foi melhor preditor dos seguintes fatores:13

  • sintomas depressivos;
  • aspectos cognitivos negativos em relação a si mesmo e ao mundo;
  • maior intolerância ao estresse.

O TEPT complexo é descrito na CID-11 como10

um transtorno que pode se desenvolver após a exposição a um evento ou a uma série de eventos de natureza extremamente ameaçadora e apavorante, em geral eventos prolongados e repetitivos dos quais evadir-se é difícil ou impossível (por exemplo, tortura, escravidão, ambientes de genocídio, violência doméstica prolongada, abuso sexual ou físico repetitivo na infância). Todas as exigências diagnósticas para o TEPT devem ser satisfeitas. Além disso, o TEPT complexo é caracterizado por graves e persistentes: 1) problemas na regulação do afeto; 2) crenças sobre si mesmo(a) diminuídas, de fracasso ou desvalia, acompanhadas por sentimentos de vergonha, culpa ou falha relacionada ao evento traumático; e 3) dificuldades em manter relacionamentos e em se sentir próximo(a) aos outros. Esses sintomas causam prejuízo significativo pessoal, familiar, educacional, ocupacional ou em outras importantes áreas do funcionamento.

Luto

Na CID-11, o luto não complicado passou a ser classificado na seção de fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com serviços de saúde, assim como a reação aguda ao estresse. Por outro lado, o transtorno por luto prolongado entrou na classificação como um diagnóstico oficial da subseção de transtornos especificamente associados ao estresse.10 Apesar da preocupação em não se tratar como patológica uma reação natural e esperada, pesquisadores argumentaram que foram tomados os cuidados pertinentes às questões culturais e contextuais referentes ao luto.12

[lembrar]
O luto prolongado se aplica a apenas cerca de 10% das pessoas enlutadas que apresentam prejuízo persistente. Apesar de algumas pessoas manterem uma resposta dolorosa por um tempo mais prolongado, nem todas apresentarão prejuízo funcional persistente.12

Prigerson e colaboradores investigaram a validade de critérios para o transtorno por luto prolongado, com o objetivo de detectar precocemente indivíduos em alto risco para estresse e disfunção persistente após a perda de uma pessoa próxima. Foram entrevistadas 291 pessoas em três momentos até dois anos após o falecimento do ente querido. Os pesquisadores encontraram um conjunto de sintomas que, presentes em uma intensidade considerável e por pelo menos seis meses após o falecimento da pessoa próxima, estiveram associados a prejuízo funcional significativo.15

Em favor do diagnóstico de transtorno por luto prolongado, Bryant apresenta evidências que mostram um risco maior das seguintes condições em pessoas com critérios para tal transtorno:16

  • depressão;
  • comportamento suicida;
  • uso de substâncias;
  • hipertensão arterial;
  • problemas cardiovasculares.

O transtorno por luto prolongado é descrito na CID-11 como10

um transtorno no qual, após o falecimento de um(a) parceiro(a), familiar, filho(a) ou outra pessoa próxima, há uma resposta do luto de forma persistente e difusa, caracterizada por anseio pela pessoa falecida ou preocupação excessiva com o falecimento, acompanhada por intensa dor emocional (por exemplo, tristeza, culpa, raiva, negação, vergonha, dificuldade em aceitar a morte, sentindo como se tivesse perdido uma parte de si mesmo(a), incapacidade de experienciar humor positivo, sensação de “dormência” emocional, dificuldade em interagir em atividades sociais ou outras). A resposta do luto persiste por um período atipicamente prolongado após a perda (mais de seis meses, no mínimo) e claramente excede as expectativas sociais e culturais e normas religiosas para a cultura e o contexto do indivíduo. Reações de luto que são persistentes por longos períodos, porém correspondentes a um período de tempo normal a partir do contexto cultural e religioso da pessoa, são consideradas respostas normais ao luto e não serão classificadas como um diagnóstico. O sofrimento associado causa prejuízo significativo pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional ou em outras áreas importantes do funcionamento.

Disfunções sexuais

Carvalho e colaboradores testaram modelos conceituais alternativos para a resposta sexual masculina, por meio de modelagem por equações estruturais. Os autores constataram que a função erétil e o desejo sexual são estruturalmente independentes. Da mesma forma, o controle ejaculatório é conceitualmente diferente dos transtornos em relação ao orgasmo da CID-10, o que vai ao encontro da nova classificação das disfunções sexuais.17

Antes presentes como um diagnóstico da seção referente aos transtornos mentais e comportamentais, as disfunções sexuais, que incluem as condições listadas a seguir, estão agora incluídas na seção de condições relacionadas à saúde sexual:10

  • disfunção do desejo sexual hipoativo;
  • disfunção na excitação sexual;
  • disfunção em relação ao orgasmo;
  • disfunções ejaculatórias;
  • outras disfunções sexuais específicas;
  • disfunções sexuais não especificadas.

A CID-11 caracteriza as disfunções sexuais como10

síndromes que compreendem diversas maneiras como pessoas adultas podem apresentar dificuldades em experimentar satisfação pessoal em atividades sexuais não coercitivas. A resposta sexual é uma interação complexa de processos psicológicos, interpessoais, sociais, culturais e fisiológicos, e um ou mais desses fatores podem afetar qualquer estágio da resposta sexual. Para ser considerada uma disfunção sexual, a disfunção deve: 1) ocorrer frequentemente, embora possa estar ausente em algumas ocasiões; 2) ter estado presente por, pelo menos, vários meses; e 3) estar associada a sofrimento clinicamente significativo.

Incongruência de gênero

O diagnóstico de incongruência de gênero foi incluído na CID pela primeira vez. Além de sua inclusão no capítulo de condições relacionadas à saúde sexual, o transtorno da identidade de gênero (que incluía os diagnósticos de transexualismo e travestismo bivalente) foi retirado do capítulo referente aos transtornos mentais e comportamentais.2

Robles e colaboradores entrevistaram 250 pessoas transgênero para investigar se o sofrimento e o prejuízo funcional, critérios exigidos para considerar o diagnóstico de transtorno mental, poderiam ser explicados não pelas características da identidade de gênero em si, mas pelas experiências de rejeição social e violência. Dessa amostra, a maioria havia sido atribuída ao sexo masculino (81%) e tinha utilizado intervenções para mudanças no corpo (73%), principalmente hormônios. A idade média em que os participantes sentiram pela primeira vez uma identidade transgênero foi aos 6 anos, de acordo com os resultados.18

No estudo de Robles e colaboradores, uma análise de regressão logística múltipla indicou que todos os tipos de prejuízo e o sofrimento estiveram estatisticamente associados à experiência de rejeição social e violência. Isso sugere que as razões para o prejuízo funcional não justificam considerar a identidade transgênero como um transtorno mental.18

Com relação a questões de gênero, a CID-11 inclui a incongruência de gênero na infância (que deve persistir por, pelo menos, dois anos, de acordo com um dos critérios). Sobre essa questão, Drescher e colaboradores argumentam a favor da classificação como uma condição relacionada à saúde, para que se assegurem os seguintes fatores:19

  • acesso a cuidados clínicos apropriados;
  • oportunidades para a educação;
  • elaboração de diretrizes que auxiliem profissionais de saúde e familiares em contato com essa população.

[lembrar]
A CID-11 caracteriza a incongruência de gênero como uma “marcada e persistente incongruência entre o gênero com que o indivíduo se identifica e aquele que lhe é atribuído. Apenas um comportamento variante de gênero e preferências não justificam a classificação diagnóstica nesse grupo”.10

Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade

Arnold e colaboradores investigaram desfechos de longo prazo em crianças com o diagnóstico de transtorno hipercinético de acordo com a CID-10. Mais precisamente, os autores testaram se esse diagnóstico segundo os critérios da CID-10 seria um subgrupo do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) conforme os critérios do DSM-IV, associados a mais sintomas e prejuízo funcional na idade adulta.20

Os resultados mostraram que, apesar da maior gravidade do quadro clínico inicial, aqueles com os critérios de transtorno hipercinético de acordo com a CID-10 não apresentavam pior prognóstico na idade adulta quando comparados àqueles sem tais características clínicas. Isso coloca em questão a utilidade clínica desse diagnóstico.20 O TDAH, assim, substituiu os transtornos hipercinéticos da CID-10.

De acordo com Reed e colaboradores, o diagnóstico de TDAH foi incluído nos transtornos do neurodesenvolvimento pelas seguintes razões:11

  • início precoce;
  • alterações características em funções motoras e sociais;
  • comorbidade com outros transtornos do neurodesenvolvimento.

[lembrar]
Reed e colaboradores argumentam sobre o distanciamento entre os conceitos de TDAH e transtorno disruptivo, uma vez que indivíduos com TDAH não necessariamente apresentam comportamentos disruptivos.11

A CID-11 caracteriza o TDAH como10

um padrão persistente (por, pelo menos, seis meses) de desatenção e/ou hiperatividade–impulsividade com início durante o período de desenvolvimento, tipicamente na infância. O grau de desatenção e hiperatividade–impulsividade ultrapassa os limites da variação normal esperada para a idade e do nível intelectual de funcionamento e interfere significativamente no funcionamento acadêmico, ocupacional ou social. Desatenção se refere a dificuldade significativa em manter a atenção em tarefas que não proporcionam um alto nível de estímulo ou recompensa frequente, distratibilidade e problemas com organização. Hiperatividade se refere a atividade motora excessiva e dificuldade em se manter na mesma situação, mais evidente em situações estruturadas que requerem autocontrole comportamental. Impulsividade é a tendência de agir em resposta imediata a um estímulo, sem deliberação ou consideração dos riscos e das consequências. O relativo equilíbrio e as manifestações específicas das características de desatenção e hiperatividade–impulsividade variam entre as pessoas e podem mudar durante o curso do desenvolvimento. Para o diagnóstico do transtorno, o padrão de comportamento deve ser claramente observável em mais de um contexto.

Transtorno de jogos

O uso mundial da internet cresceu de 6,5 a 43% entre 2000 e 2015.21 Sobre esse tema, a literatura traz os seguintes dados:22

  • em 2017, 70% dos jovens entre 15 e 24 anos de idade em todo o mundo estavam usando a internet;
  • nos países desenvolvidos, 94% desses jovens estavam conectados; nos países em desenvolvimento, 67%; nos países subdesenvolvidos, 30%;
  • estima-se que, em 2017, cerca de 50% da população mundial usava a internet regularmente.

[lembrar]
O aumento substancial, em um curto intervalo de tempo, do acesso à internet, principalmente entre os jovens, traz preocupações em relação aos potenciais prejuízos decorrentes de seu uso excessivo.

Em uma revisão sistemática da literatura, Mihara e Higuchi avaliaram estudos transversais e longitudinais sobre aspectos epidemiológicos do transtorno do jogo pela internet de acordo com os critérios do DSM-5.23,24 Os autores observaram que a presença do transtorno esteve associada a pior desempenho acadêmico e laboral, maior impulsividade e neuroticismo. Estudos longitudinais mostraram maior risco de agressividade, sintomas depressivos e ansiosos.23 Esses resultados vão ao encontro da inclusão desse diagnóstico também na CID-11.

[alerta]
Aarseth e colaboradores argumentam que o diagnóstico de transtorno de jogos pode ter vários impactos negativos, como a tendência a uma abordagem mais confirmatória do que exploratória da pesquisa na área, diagnósticos prematuros e o tratamento inadvertido de vários casos falso–positivos.25

A CID-11 caracteriza o transtorno de jogos como10

um padrão de comportamento de jogos (jogos digitais ou videogame) persistente ou recorrente, os quais podem ser on-line (ou seja, pela internet) ou off-line, manifestado por: 1) prejuízo no controle em relação aos jogos (por exemplo, início, frequência, intensidade, duração, término e contexto); 2) crescente prioridade direcionada aos jogos, na medida em que eles têm precedência sobre outros interesses e atividades diárias; 3) continuidade dos jogos, apesar da ocorrência de consequências negativas. O padrão de comportamento é de gravidade suficiente para resultar em prejuízo significativo pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional ou em outras áreas importantes do funcionamento. O padrão de comportamento de jogos pode ser contínuo ou episódico e recorrente. O comportamento de jogos e outras características são normalmente evidenciados por um período de, pelo menos, 12 meses para se fazer o diagnóstico, embora possam exigir uma duração menor, caso todos os critérios diagnósticos sejam satisfeitos e os sintomas sejam graves.

Transtorno de acumulação

Em uma revisão da literatura, Fontenelle e Grant apresentaram uma série de dados que sugerem que o transtorno de acumulação tenha um quadro clínico distinto de outros sintomas obsessivo-compulsivos.26 Por exemplo, no transtorno de acumulação os pensamentos são menos intrusivos e há menor insight. Além disso, as compulsões estão mais frequentemente associadas ao prazer e à recompensa. Do ponto de vista neurobiológico, há diferenças em relação a medidas genéticas, cognitivas e achados de neuroimagem entre pessoas com e sem o diagnóstico de transtorno de acumulação.26

Os resultados de um estudo com amostras de diferentes países (Reino Unido, Espanha, Japão e Brasil) mostraram que a gravidade, as características clínicas centrais e cognitivas e os comportamentos geralmente associados ao transtorno de acumulação, de acordo com os critérios do DSM-5, são estáveis entre as diferentes culturas.27

A CID-11 caracteriza o transtorno de acumulação como

acúmulo de posses devido a aquisição excessiva ou dificuldade em se desfazer das posses, independentemente de seu atual valor. A aquisição excessiva é caracterizada por comportamentos ou urgência repetitiva relacionada ao acúmulo ou à compra de itens. A dificuldade em se desfazer das posses é caracterizada pela percepção da necessidade de guardar itens e pelo sofrimento associado à possibilidade de descartá-los. A acumulação de posses resulta em espaços onde o indivíduo habita cada vez mais desordenado, a ponto de comprometer a própria segurança. Os sintomas resultam em sofrimento ou prejuízo significativo pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional ou em outras áreas importantes do funcionamento.

Transtorno do comportamento sexual compulsivo

Por meio do instrumento The Multidimensional Sexual Questionnaire–PL, Kowalewska e colaboradores compararam características sexuais de 72 homens que buscaram tratamento por transtorno do comportamento sexual compulsivo com as de homens da população geral. Os resultados mostraram que os homens com queixa de comportamento sexual compulsivo apresentaram mais sintomas ansiosos em relação à atividade sexual e uma associação entre gravidade da compulsão e pior satisfação sexual.28

Além das diferenças em relação às características sexuais, estudos mostram algumas particularidades neurobiológicas associadas ao transtorno do comportamento sexual compulsivo. De acordo com Potenza, homens com esse tipo de comportamento apresentam maior ativação da amígdala, do estriado ventral e do cíngulo anterior a mensagens sexuais explícitas, com a conectividade entre essas regiões associada a maior desejo sexual.29

A CID-11 caracteriza o transtorno do comportamento sexual compulsivo como um10

“padrão persistente de falha no controle de impulsos ou desejos sexuais intensos e repetitivos resultando em comportamento sexual repetitivo. Os sintomas podem incluir atividades sexuais repetitivas se tornando o foco central da vida da pessoa, ao ponto de negligenciar a própria saúde, cuidados pessoais, outros interesses, atividades e responsabilidades; numerosos esforços malsucedidos para reduzir significativamente o comportamento sexual repetitivo; e contínuo comportamento sexual repetitivo apesar das consequências adversas ou de pouca ou nenhuma satisfação. O padrão de insucesso no controle de impulsos ou desejos sexuais intensos e o resultante comportamento sexual repetitivo é manifestado por um período de tempo igual ou maior que 6 meses e causa marcado sofrimento ou prejuízo significativo pessoal, familiar, educacional, ocupacional ou em outras importantes áreas do funcionamento. Sofrimento que é inteiramente relacionado ao julgamento moral ou desaprovação sobre os desejos, impulsos ou comportamentos sexuais não é suficiente para atender aos critérios exigidos.”

Burn-out

A CID-11 apresenta um conceito mais detalhado do burn-out, além de classificá-lo como um fenômeno mais ocupacional.2 Na CID-10, o burn-out está entre os diagnósticos da subdivisão de pessoas em contato com os serviços de saúde em outras circunstâncias;30 na CID-11, encontra-se na subdivisão de problemas associados a emprego ou desemprego.10

Apesar de ser classificado mais como um problema ocupacional do que como uma condição médica,2 o burn-out é caracterizado pela CID-11 como uma síndrome, que inclui os sintomas descritos a seguir.

A CID-11 conceitua o burn-out como uma síndrome10

resultante do estresse crônico no ambiente de trabalho que não tem sido gerenciado com sucesso. É caracterizado por três dimensões: 1) sentimentos de exaustão ou depleção da energia; 2) crescente distanciamento mental do trabalho ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho; e 3) redução da eficácia profissional. O burn-out se refere especificamente ao fenômeno ocorrido no contexto ocupacional e não deve ser utilizado para descrever as experiências em outras áreas da vida.11

Resumo

As informações apresentadas estão resumidas no Quadro 3.

QUADRO 3 | TRANSTORNOS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO

Diagnóstico

Capítulo na

CID-10

Capítulo na

CID-11

Principais características/alterações

Reação aguda ao estresse

Transtornos mentais e comportamentais

Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com serviços de saúde

  • Deixou de ser considerada um transtorno mental.

TEPT complexo

Transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento

  • Diferencia-se do TEPT por ser um diagnóstico associado a mais desfechos negativos.
  • Trata-se de um diagnóstico incluído na CID pela primeira vez.

Transtorno por luto prolongado

Transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento

  • Diferencia-se do luto considerado normal por estar mais associado a sintomas depressivos, comportamento suicida e uso de substâncias.
  • Trata-se de um diagnóstico incluído na CID pela primeira vez.

Disfunções sexuais

Transtornos mentais e comportamentais

Condições relacionadas à saúde sexual

  • Não são mais consideradas transtornos mentais.

Incongruência de gênero

Transtornos mentais e comportamentais (transtorno de identidade de gênero)

Condições relacionadas à saúde sexual

  • O transtorno da identidade de gênero (que incluía os diagnósticos de transexualismo e travestismo bivalente) foi retirado do capítulo referente aos transtornos mentais
  • A incongruência de gênero foi incluída, mas não é considerada um transtorno mental, e sim uma condição relacionada à saúde sexual.

TDAH

Transtornos mentais e comportamentais (transtornos hipercinéticos)

Transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento


  • Antes era classificado como um transtorno da atividade e da atenção, com a hiperatividade como especificador.

Transtorno de jogos

Transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento

  • Trata-se de um diagnóstico incluído na CID pela primeira vez.

Transtorno de acumulação

Transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento

  • Trata-se de um diagnóstico incluído na CID pela primeira vez.

Transtorno do comportamento sexual compulsivo

Transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento

  • Trata-se de um diagnóstico incluído na CID pela primeira vez.

Burn-out

Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com serviços de saúde

Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com serviços de saúde

  • A CID-11 apresenta um conceito mais detalhado deste fenômeno, além de classificá-lo mais como ocupacional.

CID: Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde; TEPT: transtorno do estresse pós-traumático; TDAH: transtorno de déficit de atenção/hiperatividade.

Fonte:  Adaptado de World Health Organization (2019);3 Rud (2018).31.

Outras mudanças

Outras alterações da CID-11 em relação à CID-10 incluem os diagnósticos apresentados no Quadro 4.

QUADRO 4 | OUTRAS ALTERAÇÕES DA CID-11 EM RELAÇÃO À CID-10 REFERENTES AOS TRANSTORNOS MENTAIS, COMPORTAMENTAIS E DO NEURODESENVOLVIMENTO

Catatonia

  • Antes classificada como um subtipo da esquizofrenia, nesta classificação está hierarquicamente semelhante aos transtornos de humor.

TB tipo II

  • Foi incluído.

Transtorno dismórfico corporal

  • Foi incluído no grupo dos TOCs e relacionados.

Transtorno de referência olfatória

  • Foi incluído.

Transtorno de escoriação

  • Foi incluído.

Transtorno da compulsão alimentar

  • Foi incluído.

Transtorno de ingesta alimentar evitativa/restritiva

  • Foi incluído.
  • Pode ser considerado uma expansão da categoria de transtornos alimentares na infância e na adolescência da CID-10.

Integridade corporal disfórica

  • Foi incluída.

Transtorno explosivo intermitente

  • Foi incluído entre os transtornos do controle dos impulsos.

Transtornos do neurodesenvolvimento

  • Incluem os transtornos do desenvolvimento intelectual, psicológico e o TDAH.

Esquizofrenia e outros transtornos psicóticos primários

  • Substituem o termo “esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes”.

Transtornos relacionados à ansiedade e ao medo

  • Substituem os transtornos fóbico-ansiosos e outros transtornos ansiosos.

TOCs e relacionados (obsessive-compulsive and related disorders)

  • Revisam conceitos.
  • Incluem novos diagnósticos.

Transtornos especificamente associados ao estresse

  • Atualizam conceitos.
  • Incluem o TEPT complexo.

Transtornos dissociativos

  • Foram reorganizados e simplificados.
  • O termo “conversão” foi excluído do título do grupo diagnóstico.

Transtornos alimentares (feeding and eating disorders)

  • Atualizam os conceitos de anorexia nervosa e bulimia nervosa.

Transtornos de eliminação

  • O termo “não orgânico” foi excluído.

Transtornos do desconforto corporal e da experiência corporal

  • Substituem os transtornos somatoformes.

Transtornos devidos ao uso de substância e comportamentos de adição

  • A lista de substâncias foi expandida.

Transtornos do controle dos impulsos

  • Incluem o transtorno explosivo intermitente e o transtorno do comportamento sexual compulsivo.

Comportamento disruptivo e transtornos antissociais

  • Substituem os transtornos de conduta.

Transtornos de personalidade

  • Foram conceitualizados em termos dimensionais e de gravidade.

Transtornos parafílicos

  • Substituem o grupo de transtornos da preferência sexual.
  • Incluem novas categorias diagnósticas.

Transtornos factícios

  • Incluem um novo grupo de transtornos.

Transtornos neurocognitivos

  • Consideram os componentes emocionais e comportamentais, assim como as potenciais causas subjacentes.

TB: transtorno bipolar; TOCs: transtornos obsessivos-compulsivos; CID: Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde; TDAH: transtorno de déficit de atenção/hiperatividade; TEPT: transtorno do estresse pós-traumático.

Fonte:  Adaptado de Reed e colaboradores (2019);12 Reed (2018).31

Atividades

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Conclusão

A CID é uma publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS), resultado da cooperação entre grupos de trabalho de diversos países. Foi criada com o objetivo de ser uma ferramenta útil para clínicos, pesquisadores e gestores em saúde, por meio da padronização da classificação diagnóstica das doenças e das causas de mortalidade. Ela proporciona, também, a possibilidade de monitoramento da incidência e da prevalência das doenças.

A CID-11 apresenta algumas alterações mais significativas em relação à CID-10, como a inclusão de novos diagnósticos, mas também mudanças conceituais ou de seção para algumas das doenças. Há, ainda, convergências com o DSM-5, possivelmente influenciadas pelo período semelhante de revisão e pelas sobreposições de grupos de trabalho.

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Como citar a versão impressa deste documento

Diaz AP, Kanegusuku CYO. CID-11: o que realmente mudou? In: Associação Brasileira de Psiquiatria; Nardi AE, Silva AG, Quevedo JL, organizadores. PROPSIQ Programa de Atualização em Psiquiatria: Ciclo 9. Porto Alegre: Artmed Panamericana; 2020. p. 49–74. (Sistema de Educação Continuada a Distância, v. 3).

Autores

Alexandre Paim Diaz
Caroline Yaciko de Oliveira Kanegusuku