Introdução
Emergência psiquiátrica (EP) é qualquer distúrbio agudo de pensamento, humor, comportamento ou relacionamento social, referido pelo paciente, família ou comunidade, e que requer intervenção imediata1 (p. ex., agitação psicomotora grave, risco de homicídio, risco de suicídio ou autolesão, estupor depressivo, psicose ou mania agudas e graves, mudanças comportamentais e cognitivas agudas, juízo crítico comprometido e autonegligência grave). As condutas na EP visam proteger o paciente e outras pessoas de um risco iminente e muitas vezes devem ser implementadas em minutos ou horas.1
Epidemiologia
Aproximadamente 4% de todos os atendimentos médicos gerais de emergência ocorrem por uma condição de saúde mental ou comportamental.2 Dos atendimentos de EP, um terço ocorre para avaliação de risco de suicídio.2 Cerca de 58,1% apresentam história prévia de transtorno mental e mais de 58% dos pacientes são encaminhados para internação.2 Embora a maioria dos pacientes que chegam para avaliação em EPs não apresente comportamento violento, e a ocorrência de tentativas de suicídio em ambientes supervisionados seja rara, estima-se que 1 a cada 5 pacientes admitidos em unidades psiquiátricas agudas pode cometer um ato violento.3
Prioridades na avaliação
Muitas diretrizes de tratamento e consensos de especialistas recomendam que a avaliação do paciente em EP ocorra em ambiente com acesso à avaliação médica geral (p. ex., hospital geral), a fim de identificar potenciais condições médicas que possam estar influenciando os sintomas psiquiátricos.4,5 As três prioridades da avaliação do paciente em EP são:
- Garantir a segurança do paciente, do médico, da equipe e dos demais pacientes na área.
- Realizar a avaliação efetiva do paciente, incluindo suporte básico à vida, anamnese, exame físico, exame neurológico, exame do estado mental, diagnóstico diferencial e exames complementares, se necessário.
- Facilitar a intervenção adequada.
Segurança
Recomenda-se a elaboração de protocolos de segurança para todos os serviços de saúde que recebam EPs, contemplando aspectos de organização do espaço físico e treinamento da equipe de atendimento para situações de risco.6 A Tabela 1 descreve aspectos importantes para garantir a segurança no atendimento das EPs, incluindo identificação de comportamento agitado ou violento durante a triagem, bem como sinais de alerta que auxiliam no reconhecimento dessas situações. Entretanto, tais eventos podem acontecer de forma imprevisível. Assim, profissionais e ambiente devem estar sempre preparados para lidar com eles, mesmo quando há baixa probabilidade de ocorrerem. Em determinadas situações de agitação psicomotora e agressividade, condutas podem ser implementadas para estabilidade do quadro antes da coleta da história clínica, mediante técnicas de manejo verbal e indicação de contenção física e/ou química, com uso de medicação parenteral.
TABELA 1 | Considerações práticas de segurança nas emergências psiquiátricas |
Reconhecer precocemente sinais de comportamento agressivo ou violento
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Instituir medidas ambientais de segurança
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Fonte: Elaborada com base em Occupational Safety and Health Act,6 Garriga e colaboradores7 e Mantovani e colaboradores.8 |
Suporte básico à vida
Todo paciente que chega à emergência com queixas psíquicas ou alterações de comportamento deve ser avaliado quanto ao suporte básico à vida (circulação, vias aéreas e respiração) mediante verificação de sinais vitais, oximetria de pulso e glicemia.4,5,9 Isso possibilita a identificação de condições médicas gerais que podem causar ou exacerbar alterações comportamentais agudas. Pacientes que chegam ao atendimento por razões psiquiátricas também têm risco maior de apresentar lesões traumáticas (p. ex., lesões por auto e heteroagressão, agressão por terceiros) ou exibir condições com risco à vida (p. ex., parada cardiorrespiratória por overdose de medicação ou substâncias psicoativas).9
Anamnese
Após descartar ou resolver situações mais urgentes, procede-se a uma anamnese detalhada. A avaliação começa pelo estabelecimento de vínculo – sentindo-se acolhido e respeitado, o paciente poderá confiar e fornecer as informações necessárias.8 Inicia-se com a apresentação, dizendo seu nome, função e objetivo da avaliação de maneira acolhedora e respeitosa – essa abordagem inicial, além de elucidar o diagnóstico, serve também como processo terapêutico.4 A Tabela 2 mostra dicas para facilitar a aproximação do paciente ao examinador.
TABELA 2 | Dicas para facilitar a aproximação do paciente ao examinador |
Identifique o afeto predominante do paciente Identificar sentimentos como raiva, medo e vergonha, e motivar o paciente a falar sobre eles. |
Observe a identificação com os sentimentos do paciente Pacientes irritados ou assustados facilmente transferem estes sentimentos ao avaliador (por frases como “Se eu for internado, vou te processar”, “Já falei tudo para outro médico; vocês não se comunicam?”; ou por posturas ameaçadoras, de vitimização ou fragilidade). É necessário estar atento aos sentimentos provocados pelo paciente – como medo, raiva, pena – para não agir em resposta a eles. |
Esteja atento à crítica sobre motivo e voluntariedade (ou não) do atendimento A involuntariedade e o juízo crítico prejudicado comprometem a avaliação. Pode-se iniciar a entrevista por temas genéricos e interessantes ao paciente, ou escutar seu relato sem interrompê-lo. Procurar conectar-se com quaisquer informações disponíveis (palavras ou expressões utilizadas, aparência, sentimentos do examinador). Também é essencial evitar o uso da lógica para convencer o paciente de que ele está errado, por mais ilógico que seja seu relato ou argumento. |
Mostre-se interessado e escute atentamente o relato e o contexto do paciente Os pacientes costumam estar mais preocupados com os acontecimentos que os trouxeram até o estado atual do que com o conjunto dos seus sintomas. Uma avaliação sumária de estressores psicossociais mostra ao paciente que o examinador está interessado nele e pode trazer informações importantes para o manejo do caso. |
Fonte: Elaborada com base em Mantovani e colaboradores8 e Sadock e colaboradores.10 |
A entrevista deve se concentrar na queixa apresentada, nas razões pelas quais o paciente veio à emergência ou no motivo pelo qual o médico foi chamado para atendê-lo. Quando houver dúvidas acerca da capacidade mental do paciente ou quando este se encontra incapaz de fornecer quaisquer informações ou informações coerentes, uma história suplementar deve ser obtida com os acompanhantes, familiares ou amigos (às vezes, um telefonema é suficiente). É fundamental verificar prontuário e registros clínicos prévios, além de contatar profissionais que estejam atendendo o paciente.9-11 A limitação do tempo exige que o examinador estruture a entrevista e leve em consideração que a revisão de sintomas clínicos também é importante, conforme sugerido no Tabela 3.
TABELA 3 | Dados importantes para serem obtidos da anamnese na emergência psiquiátrica |
Identificação ■ Nome, idade, sexo, etnia, naturalidade e procedência, situação conjugal ■ Informantes, contatos, proveniência do encaminhamento ■ Com quem mora e como está a qualidade da relação (qual o suporte social) |
Queixa principal ■ Ideia clara do motivo pelo qual o paciente buscou atendimento e por que neste momento |
História da doença atual
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História psiquiátrica pregressa
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História médica
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História familiar
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Perfil psicossocial
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Revisão de sintomas clínicos e psiquiátricos |
AVC, acidente vascular cerebral; HAS, hipertensão arterial sistêmica; HIV, vírus da imunodeficiência humana; ISTs, infecções sexualmente transmissíveis; TCE, traumatismo craniencefálico. |
Exame físico
O exame físico também tem o papel de identificar condições orgânicas que possam estar causando ou exacerbando a alteração psiquiátrica. É conduzido conforme as queixas e comorbidades clínicas já conhecidas do paciente. De acordo com a apresentação atual, pacientes com estado mental alterado, por estarem agitados ou possivelmente intoxicados, devem ser submetidos a exame físico completo. Deve-se verificar peso, sobretudo em pacientes emagrecidos – não negligenciar pacientes desnutridos, mesmo com índice de massa corporal limítrofe, pois podem ter transtorno alimentar não diagnosticado.5
Exame neurológico
Ao realizar o exame neurológico, deve-se atentar para alterações focais, que podem indicar comprometimento neurológico agudo, como acidente vascular cerebral.14 A Tabela 4 descreve aspectos do exame neurológico abordados na EP. O transtorno conversivo é uma condição neuropsiquiátrica bastante prevalente e não mais propriamente um diagnóstico de exclusão – há sinais semiológicos sugestivos que podem ser observados no exame à beira do leito.14
TABELA 4 | EXAME NEUROLÓGICO BÁSICO |
PACIENTE SENTADO |
Estado mental e funções corticais superiores
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Pares cranianos
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Motricidade
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Reflexos
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Coordenação
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PACIENTE DEITADO |
Motricidade Força (manobras deficitárias: Mingazzini – em posição de decúbito dorsal, sustentar membros inferiores em flexão de 90o da coxa em relação à perna e da perna em relação à coxa; Barré – em posição ventral, sustentar perna fletida em relação à coxa) |
Reflexos
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Coordenação
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Sensibilidade
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PACIENTE EM PÉ |
Marcha
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Equilíbrio estático
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Fonte: Anderson e colaboradores.14 |
Conforme o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, 5ª edição (DSM-5),15 não é mais necessário haver estressor psicológico proximal para esse diagnóstico. Também foi removida a necessidade de, explicitamente, excluir simulação ou fingimento – o transtorno conversivo em geral não é comórbido ao transtorno factício ou à falsificação intencional de sintomas para ganho secundário óbvio. Nas Tabelas 5 e 6, encontram-se dados para diferenciar quadros orgânicos de quadros funcionais.
TABELA 5 | DADOS DA HISTÓRIA SUGESTIVOS DE TRANSTORNO CONVERSIVO (TRANSTORNO DE SINTOMAS NEUROLÓGICOS FUNCIONAIS) |
Curso temporal dos sintomas
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Sintomas que costumam acompanhar
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Comorbidades clínicas ou psiquiátricas
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Fonte: Anderson e colaboradores.14 |
TABELA 6 | DADOS DO EXAME SUGESTIVO DE TRANSTORNO CONVERSIVO (TRANSTORNO DE SINTOMAS NEUROLÓGICOS FUNCIONAIS) | |
Sinais de fraqueza funcional | |
Sinal de Hoover | Baseia-se no princípio da contração sinérgica: ocorre extensão involuntária do membro quando se flete a perna contralateral contra resistência. Com o paciente deitado, a mão do examinador é colocada sob o calcanhar não paralisado. Pede-se que o paciente eleve a perna paralisada. Repete-se o teste pedindo que o paciente eleve a perna não paralisada, com o examinador colocando a mão sob o calcanhar paralisado. Nas paralisias orgânicas, o examinador sente a pressão exercida para baixo do calcanhar da perna não paralisada; nas não orgânicas, nenhuma pressão é percebida. Sensibilidade de 85,8-97,3% e especificidade de 95,7-99,9%. |
Fraqueza do colapso ou do soltar | Após observação de força aparentemente normal, o membro examinado não se sustenta contra resistência do examinador durante teste de confrontação muscular. Pode ocorrer também na fadiga e na dor. Sensibilidade de 53,9-71,5% e especificidade de 89,4-99,1%. |
Inconsistência | O desempenho motor de um grupo muscular varia entre 2 testes ou entre teste objetivo e observação. Sensibilidade de 2,3-41,6% e especificidade de 85,3-99,9%. |
Superatividade hemifacial | Confundido com fraqueza facial. É quando o músculo orbicular do olho ou da boca se contrai unilateralmente e é acompanhado pela contração do platisma e desvio da mandíbula para o mesmo lado. |
Sinais de alteração de sensibilidade funcional | |
Divisão da linha média | Perda sensorial de todo um hemicorpo nitidamente demarcada na linha média, em particular no tronco ou na face. Pode ocorrer também em lesões talâmicas. |
Divisão vibratória | Perda sensorial vibratória nitidamente demarcada na linha média do osso frontal ou do esterno. |
Perda sensorial não anatômica | Perda sensorial não condizente com dermátomos. |
Inconsistência | Sintomas sensoriais flutuam em exames seriados. |
Sinais de alteração de movimento funcional | |
Tremor variável | Variação na frequência, ritmicidade e padrão de movimentos; presença de melhoras, pausas no tremor e resolução com distratores. |
Transmissão de tremor | Tremor unilateral adota a ritmicidade do membro não afetado durante orientação de realização de movimento rítmico voluntário neste. |
Dobrar joelhos | Os joelhos dobram enquanto o paciente fica de pé ou deambula, raramente levando a quedas. |
Astasia-abasia | Padrão de marcha em que o paciente parece alternar entre uma base alargada ou estreitada, com contorções do tronco e dos membros que têm a aparência de uma queda iminente, mas com coordenação preservada. |
Marcha monoplégica de arrastar | Paciente com fraqueza unilateral arrasta o membro como se fosse um objeto inanimado, muitas vezes com pé rotacionado interna ou externamente. |
Convulsão não epiléptica psicogênica | |
Duração | Longa (> 2 min). Pode ocorrer também no estado epiléptico. |
Curso | Flutuante, com pausas ou com aumentos e diminuições na frequência. |
Movimentos ictais | Dessincronizados, de lado a lado, com choro, “empurrão pélvico” (imitando movimento sexual; pode ocorrer em epilepsia do lobo frontal), fechamento ocular (contra resistência do examinador). |
Resposta a estímulos externos | Espectadores interferem aliviando ou intensificando o evento ictal. |
Características pós-ictais | Ausência de confusão pós-ictal, capacidade de lembrar informações apresentadas no evento ictal. |
Fonte: Anderson e colaboradores.14 | |
Exame do estado mental
O exame do estado mental (EEM) é parte essencial da avaliação psiquiátrica de emergência. Sintetiza observações e impressões do examinador sobre o paciente no momento da entrevista. No contexto de EP, o examinador deve se preocupar com nível de consciência e alterações agudas de atenção, orientação e memória.16 Havendo suspeita de organicidade, realiza-se avaliação rápida com miniexame do estado mental (acesse em Escalas e calculadoras).
A primeira parte do EEM tenta avaliar o funcionamento cerebral orgânico, e a segunda enfatiza a presença de transtornos funcionais. Antes da avaliação das funções mentais, deve-se atentar para a descrição da aparência do paciente: grau de autocuidado ou negligência e impressão física geral transmitida ao entrevistador, refletida por postura, vestuário e arrumação geral, expressão facial e contato visual do paciente. Na EP, a aparência do paciente oferece indicadores cruciais sobre capacidade de cuidar de si mesmo e juízo crítico. As Tabelas 7 e 8 apresentam as funções mentais, suas principais alterações e métodos de avaliação.
TABELA 7 | FUNÇÕES MENTAIS RELACIONADAS A TRANSTORNOS ORGÂNICOS |
Consciência
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Atenção
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Sensopercepção
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Orientação
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Memória
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Inteligência e abstração
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Fonte: Finney e colaboradores.16 |
TABELA 8 | FUNÇÕES MENTAIS RELACIONADAS A TRANSTORNOS FUNCIONAIS |
Afeto e humor
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Pensamento
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Juízo crítico
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Conduta e controle de impulsos
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Linguagem
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Fonte: Finney e colaboradores.16 |
Diagnóstico diferencial
- Após história clínica, exame físico e EEM, é essencial proceder ao diagnóstico diferencial com condições médicas gerais, o que possibilita a identificação precoce de comorbidades clínicas reversíveis e estabelece investigações e tratamentos específicos no plano terapêutico.
- Identificar comorbidades clínicas pode afetar as decisões terapêuticas (p. ex., escolha de medicamento para gestantes, definição da instituição para onde encaminhar paciente que necessite de cuidados clínicos).4,5
- Aspectos da anamnese e do exame físico, listados na Tabela 9, sugerem uma organicidade como causa mais provável dos sintomas.
- O examinador da EP deve estar atento a condições clínicas comuns que podem cursar com sintomas psiquiátricos agudos, conforme a Tabela 10.
TABELA 9 | CARACTERÍSTICAS QUE INDICAM SUSPEITA DE ORGANICIDADE |
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Fonte: Elaborada com base em Wilson e colaboradores,4 American College of Emergency Physicians Clinical Policies Subcommittee e colaboradores,5 Tucci e colaboradores9 e Wheat e colaboradores.13 |
TABELA 10 | DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE ALTERAÇÕES DE COMPORTAMENTO |
Condições com risco de vida
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Condições comuns
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Outras condições
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AVC, acidente vascular cerebral; DPOC, doença pulmonar obstrutiva crônica; ITU, infecção do trato urinário; TCE, traumatismo craniencefálico. |
- Outro aspecto relevante da avaliação na EP é a identificação de sintomas psicóticos, principalmente para grupos etários de risco como idosos. Muitas vezes, esses sintomas podem parecer um transtorno psiquiátrico quando, na verdade, constituem quadro de delirium, estado de confusão mental aguda de etiologia multifatorial, mas sempre relacionado a uma alteração fisiológica.9 Assim, é fundamental diferenciar psicoses funcionais de psicoses orgânicas (estas em geral associadas a quadros de delirium), conforme mostra a Tabela 11.
TABELA 11 | DIFERENÇA ENTRE PSICOSE ORGÂNICA E PSICOSE FUNCIONAL | |
PSICOSE ORGÂNICA | PSICOSE FUNCIONAL |
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| – |
| – |
Fonte: Elaborada com base em Tucci e colaboradores9 e American Psychiatric Association.15 | |
- Durante a avaliação de uma EP, os clínicos comumente se deparam com alterações agudas de comportamento associadas a psicofármacos. A Tabela 12 descreve características de efeitos colaterais agudos e potenciais toxicidades que podem configurar uma EP para pacientes em tratamento psicofarmacológico.
TABELA 12 | EMERGÊNCIAS PSIQUIÁTRICAS ASSOCIADAS AO USO DE PSICOFÁRMACOS |
Síndrome neuroléptica maligna
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Síndrome serotoninérgica
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Reação à tiramina / crise hipertensiva
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Distonia aguda
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Intoxicação por lítio
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Intoxicação por ácido valproico
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Intoxicação por carbamazepina
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Intoxicação por antidepressivos tricíclicos
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AVC, acidente vascular cerebral; CPK, creatinofosfocinase; IMAOs, inibidores da monoaminoxidase; ISRSs, inibidores seletivos da recaptação de serotonina; MEEM, miniexame do estado mental. Fonte: Lahijani.19 |
Exames complementares
A literatura científica atual indica que a solicitação de rotina de exames complementares no contexto de EP possui pouca utilidade e raramente modifica as condutas.4,5,20
Uma diretriz recente do American College of Emergency Physicians (ACEP)5 recomenda que exames laboratoriais não sejam rotineiramente solicitados para pacientes com sintomas psiquiátricos agudos e que estejam alertas, cooperativos e assintomáticos do ponto de vista clínico geral.5 Também recomenda que a solicitação de exames de imagem em pacientes com psicose de início agudo e sem sinais focais de déficit neurológico seja guiada por fatores de risco individuais e que não seja estabelecida como rotina.5 Ambas as recomendações foram classificadas como grau C (i.e., baseado em evidências científicas limitadas), apontando para a necessidade de estudos científicos com maior nível de evidência. Tampouco se recomenda a solicitação rotineira de exame toxicológico de urina, sobretudo em pacientes alertas e cooperativos.4
Até o momento, não há protocolos validados para guiar a solicitação de exames complementares no contexto da EP, mas é provável que determinados grupos de pacientes com maiores índices de doenças (p. ex., idosos, imunossuprimidos, pacientes com psicose de início agudo ou abuso de substâncias) possam se beneficiar de testes laboratoriais.5 A Tabela 13 traz um guia para solicitação desses exames conforme suspeita clínica e fatores de risco.
TABELA 13 | SOLICITAÇÃO DE EXAMES LABORATORIAIS CONFORME SUSPEITA CLÍNICA | |
Pacientes com alterações de estado mental sugestivas de delirium (incluindo psicose de início agudo) | Hemograma, plaquetas, provas de estrutura e função renal, hepática e tireoidiana, eletrólitos (incluindo cálcio iônico), glicemia de jejum, vitamina B12, sorologias (VDRL, HIV, hepatite B e C), exame qualitativo de urina e urocultura; considerar outros conforme demais suspeitas clínicas (nível sérico de medicações, exame toxicológico de urina, exame de imagem cerebral, eletrocardiograma) |
Pacientes com abuso ou dependência de substâncias psicoativas | Sorologias (VDRL, HIV, hepatite B e C) e teste de gravidez nas mulheres em idade fértil |
Pacientes desnutridos | Hemograma, plaquetas, provas de estrutura e função renal, hepática e tireoidiana, eletrólitos, glicemia de jejum, ferro, ferritina, vitamina B12, sorologias (VDRL, HIV, hepatite B e C), eletrocardiograma em repouso |
HIV, vírus da imunodeficiência humana; VDRL, venereal disease research laboratory. | |
O processo de avaliação inicial do paciente na EP, considerando o diagnóstico diferencial com condições médicas gerais, está descrito na Figura 1.
FIGURA 1 | Avaliação inicial do paciente na emergência psiquiátrica. // EEM, exame do estado mental; MEEM, miniexame do estado mental.
Intervenção
- Após estabilizar quadro agudo e excluir condições médicas gerais, o objetivo da avaliação na EP é verificar a presença de riscos psiquiátricos e fazer o encaminhamento para a intervenção mais adequada.
- O paciente poderá ser encaminhado para investigação clínica, internação psiquiátrica, atendimento em hospital-dia ou Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou ter alta da EP com orientação de procurar atendimento ambulatorial.1,21
- É fundamental que o profissional que atende EPs conheça os recursos e os diversos níveis dos serviços de saúde mental locais, para fazer um encaminhamento mais assertivo.22
- Em algumas situações, o paciente poderá ser mantido sob observação (24-72 h) até a conclusão da avaliação ou estabelecerem-se definições de vulnerabilidades sociais.1
- Não existem critérios validados com adequado nível de evidência científica para guiar a decisão de alta de uma EP.23
- O principal fator norteador da escolha do ambiente de tratamento para o paciente após avaliação na EP é a segurança.21 Assim, é importante que o examinador faça uma adequada avaliação de riscos psiquiátricos e vulnerabilidades, reunindo informações individualizadas que auxiliem na indicação de internação ou encaminhamento ambulatorial.
- Os principais riscos psiquiátricos incluem suicídio, heteroagressão, homicídio e autonegligência grave (p. ex., déficit de autocuidado, desnutrição).
- Nas situações de risco, deve-se sempre considerar encaminhamento para internação psiquiátrica. Alguns fatores clínicos e sociais podem auxiliar a decisão de indicar hospitalização:21
- Suporte familiar ou social insuficiente (para acompanhar na realização de atividades básicas de vida diária e garantir a adesão ao plano de segurança, aos encaminhamentos e aos medicamentos prescritos, etc.).
- Presença de agitação e impulsividade.
- Aliança terapêutica prejudicada.
- Dificuldade para discutir um plano de segurança e tratamento.
- Juízo crítico prejudicado.
- Intenção suicida intensa e planos de suicídio persistentes.
- Tentativa de suicídio altamente letal.
- Presença de transtornos mentais de alto risco (p. ex., psicose com alucinações com vozes de comando, episódio de mania grave ou estado misto, uso pesado de substância).
- Homem com mais de 45 anos e início recente de transtorno mental.
- Mudança de estado mental influenciada por aspectos clínicos (p. ex., metabólicos, infecciosos, tóxicos).
- Quando há suporte social adequado e segurança suficiente, pode-se considerar encaminhamento a um serviço de saúde mental da Rede de Atenção Psicossocial extra-hospitalar, como o CAPS.
- Conforme determinações da Portaria MS/GM nº 336/02,24 o CAPS realiza atendimentos intensivo (diário, para situações de crise ou dificuldades intensas nos convívios social e familiar, precisando de atenção contínua), semi-intensivo (até 12 dias no mês, quando os sintomas diminuíram, mas ainda é necessário auxílio para recuperação de autonomia) e não intensivo (até 3 dias no mês, quando não é necessário suporte contínuo para viver em seu território e realizar suas atividades na família e/ou no trabalho). Uma metanálise da Cochrane de 2011,25 comparando tratamento em hospital-dia e em internação hospitalar, não encontrou diferença de eficácia entre os grupos, mas sugere que os dados de custo-efetividade ainda são escassos.
- Outras situações, como risco de exposição moral e risco ao patrimônio, também podem caracterizar indicações de internação, mas devem ser avaliadas cuidadosamente, pois envolvem questões éticas e legais.
- Situações como troca de esquema terapêutico que exija cuidados ou coloque o paciente em risco (piora dos sintomas ou efeitos adversos) e refratariedade ou patologia de difícil controle em nível extra-hospitalar podem ser indicações de internação.21 Os principais passos da avaliação de risco e indicação de internação psiquiátrica estão resumidos na Figura 2.
FIGURA 2 | Avaliação de riscos e processo de encaminhamento na emergência psiquiátrica. // CAPS, Centro de Atenção Psicossocial.
Referências
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Autores
Guilherme Luís Menegon
Jader Piccin
Marco Antonio Caldieraro
Marcelo Pio de Almeida Fleck