Síndrome neuroléptica maligna

Introdução

A síndrome neuroléptica maligna (SNM) é uma emergência médica, potencialmente fatal, associada ao uso de agentes neurolépticos. Trata-se de uma síndrome clínica caracterizada por rigidez muscular, hipertermia, disautonomia e alterações do estado mental, não sendo específica de qualquer diagnóstico neuropsiquiátrico. A SNM é associada com mais frequência a antipsicóticos de primeira geração de alta potência. No entanto, antipsicóticos de primeira geração de baixa potência e os de segunda geração, em especial o aripiprazol, assim como substâncias antieméticas (i.e., metoclopramida, prometazina), antidepressivos e lítio também podem levar a quadros de SNM. Os sintomas costumam se desenvolver durante as duas primeiras semanas após o início ou o aumento da terapia com antipsicóticos.Embora os mecanismos fisiopatológicos precisos da SNM não sejam conhecidos, o bloqueio dos receptores dopaminérgicos D2, com depleção aguda de dopamina, provavelmente desempenha um papel crucial. A atividade noradrenérgica central também parece se relacionar à doença, já que sintomas de hiperatividade simpática estão presentes na fase ativa da SNM.

Epidemiologia

A incidência da SNM é de 0,02 a 2,44%. A taxa de mortalidade decorrente da SNM é estimada em 5,6%.1

Fatores de risco

  • Doses mais elevadas de antipsicóticos (embora a SNM não seja claramente uma patologia dose-dependente).
  • Aumento recente ou rápido das doses dos medicamentos.
  • Troca de agentes.
  • Sexo masculino.
  • Administração parenteral.2

Diagnóstico

Os critérios diagnósticos para SNM estão descritos na Tabela 1.

TABELA 1 | CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS PARA SÍNDROME NEUROLÉPTICA MALIGNA DO INTERNATIONAL CONSENSUS STUDY

CRITÉRIO DIAGNÓSTICO

PONTUAÇÃO*

Exposição a antagonista de dopamina ou retirada de agonista dopaminérgico nas últimas 72 h

20

Hipertermia (> 38°C em pelo menos duas medidas, por via oral)

18

Rigidez

17

Alteração do estado mental (rebaixamento do nível ou flutuações de consciência)

13

Elevação de CPK (ao menos 4 vezes o valor de referência)

10

Labilidade do sistema nervoso simpático, definida como pelo menos 2 dos seguintes:

  • Elevação da PA (sistólica ou diastólica ≥ 25% acima dos valores basais)
  • Flutuação da PA (variação ≥ 20 mmHg na pressão diastólica ou ≥ 25 mmHg na sistólica, no prazo de 24 h)
  • Diaforese
  • Incontinência urinária

10

Hipermetabolismo (aumento da FC ≥ 25% acima dos valores basais) e aumento da FR (≥ 50% acima dos valores basais)

5

Exclusão de causas infecciosas, tóxicas, metabólicas ou neurológicas

7

Total

100

*Cada item recebe uma pontuação por sua importância relativa ao diagnóstico.
CPK, creatinofosfocinase; FC, frequência cardíaca; FR, frequência respiratória; PA, pressão arterial.
Fonte: Gurrera e colaboradores.3

Prognóstico

Em geral, os pacientes com SNM recuperam-se em 7 a 11 dias. Constituem fatores de risco para um curso prolongado o uso de antipsicóticos de depósito e a presença de doença cerebral estrutural concomitante.3 A maioria dos pacientes recupera-se sem sequelas neurológicas, exceto nos casos em que há hipóxia grave ou hipertermia por período prolongado. A principal complicação é a rabdomiólise, presente em 30% dos pacientes, mas outras condições comuns são insuficiência respiratória aguda (16%) e lesão renal aguda (17,7%).

Diagnóstico diferencial

Os diagnósticos diferenciais da SNM incluem:4

  • Causas infecciosas:
    • Tétano.
    • Meningites ou encefalites.
    • Síndrome encefalomielítica pós-infecciosa.
    • Abscesso cerebral.
    • Sepse.
    • Neurossífilis.
  • Causas neuropsiquiátricas:
    • Vasculite do sistema nervoso central.
    • Síndrome de Shy-Drager.
    • Catatonia maligna idiopática.
    • Delirium.
    • Efeitos benignos extrapiramidais.
    • Status epilepticus não convulsivo.
    • Lesões estruturais, particularmente envolvendo o mesencéfalo.
    • Porfiria aguda.
    • Hidrocefalia aguda.
    • Encefalopatia hepática.
  • Causas tóxicas ou farmacológicas:
    • Síndrome anticolinérgica.
    • Envenenamento por salicilato.
    • Hipertermia maligna.
    • Síndrome serotoninérgica.
    • Substâncias de abuso (anfetaminas, alucinógenos).
    • Retirada de agonistas de dopamina, baclofeno, sedativo-hipnóticos e álcool.
  • Causas endócrinas:
    • Tireotoxicose.
    • Feocromocitoma.
  • Causas ambientais:
    • Choque térmico.
    • Envenenamento por estricnina.

Tratamento

  • O tratamento envolve a descontinuação do fármaco causador da síndrome.
  • Medidas de suporte são indicadas conforme a necessidade de reposição de líquidos e eletrólitos, redução da febre e suporte das funções cardíaca, respiratória e renal.
  • Se a CPK estiver muito elevada, a administração vigorosa de fluidos intravenosos e a alcalinização da urina são necessárias para prevenir a insuficiência renal causada pela rabdomiólise.
  • Benzodiazepínicos, administrados por via oral ou parenteral, podem amenizar os sintomas e acelerar a recuperação, particularmente em quadros mais leves de SNM. São indicados também para o tratamento da agitação psicomotora nesses pacientes.
  • O uso da amantadina é iniciado com doses de 200 a 400 mg/dia, divididos em 2 tomadas.
  • Para a bromocriptina, emprega-se a dose inicial de 2,5 mg, por via oral, 2 ou 3 vezes ao dia, chegando-se a um máximo de 45 mg/dia, se necessário.
  • Nos casos de elevações extremas da temperatura corporal, rigidez e hipermetabolismo, o dantrolene parece ser a opção mais indicada, em doses que variam de 1 a 2,5 mg/kg, administradas inicialmente, e seguidas por doses de 1 mg/kg a cada 6 horas.
  • Cabe ressaltar que o emprego de quaisquer medicamentos na SNM ainda carece de mais evidências acerca de sua eficácia.
  • Para casos resistentes, a eletroconvulsoterapia pode ser utilizada com segurança, em um regime que inclui de 6 a 10 sessões.
  • O tratamento farmacológico deve ser mantido por pelo menos 14 dias ou até que todos os sintomas residuais tenham diminuído (sobremaneira os sintomas extrapiramidais).
  • Havendo necessidade de reintrodução do antipsicótico, a preferência é dada a agentes de menor potência, devendo a dose inicial ser a mais baixa possível, permitindo ao clínico aumentá-la de modo gradual por titulação, a fim de estabelecer o menor nível terapêutico possível que controle clinicamente o quadro psiquiátrico de base.5

Referências

Conteúdo originalmente publicado em: QUEVEDO, J. (Org.). Emergências psiquiátricas. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2020. 326 p.

  1. Boyer EW, Shannon M. The serotonin syndrome. N Engl J Med. 2005;352(11):111220.
  2. Morgan JC, Sethi KD. Drug-induced tremors. Lancet Neurol. 2005;4(12):866-76.
  3. Gurrera RJ, Caroff SN, Cohen A, Carroll BT, DeRoos F, Francis A, et al. An international consensus study of neuroleptic malignant syndrome diagnostic criteria using the Delphi method. J Clin Psychiatry. 2011;72(9):1222-8.
  4. Strawn JR, Keck PE, Caroff SN. Neuroleptic malignant syndrome. Am J Psychiatry.
    2007;164(6):870-6.
  5. Ables AZ, Nagubilli R. Prevention, recognition, and management of serotonin syndrome. Am Fam Physician. 2010;81(9):1139-42.

Autores

Debora Marques de Miranda
António Alvim Soares
Alexandre Guimarães de Almeida Barros
Marco A. Romano-Silva