Síndrome de burnout

Algoritmo


FIGURA 1 | Algoritmo para tratameneto da síndrome de burnout. // Acesse a Escala CBI para auxílio diagnóstico.
* Atentar para avaliação dimensional da personalidade.
** A avaliação da indicação sempre depende também da disponibilidade da
intervenção e da motivação/escolha do paciente, sendo que as indicações não são excludentes.
**** Intervenções institucionais devem ser consideradas com cautela e bem
discutidas com o paciente, pois implicam potencialmente em algum grau de
exposição.

Introdução

A síndrome de burnout (SB) é uma condição emergente em todo o mundo que pode se desenvolver em resposta a estressores constantes e prolongados no ambiente de trabalho, gerando exaustão física, emocional e mental, além de redução no desempenho. Apesar de não se tratar de uma doença, em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a SB como um fenômeno ocupacional, incluindo-a na 11a Classificação Internacional de Doenças (CID-11).1

De acordo com Maslach e colaboradores,2 a SB é compreendida como um fenômeno que engloba três dimensões:

  1. Exaustão: sentimentos de falta de energia, esgotamento e fadiga crônica resultantes de demanda excessiva de trabalho e do estresse.
  2. Despersonalização: sentimentos de negativismo, sarcasmo e cinismo (descaso) relacionados ao trabalho e distanciamento mental do trabalho. Atitude apática ou desapegada em relação aos colegas e às atividades relacionadas ao trabalho.
  3. Redução da realização profissional: sentimentos de inadequação e baixa autoestima, decorrentes da crença de que os objetivos profissionais não foram alcançados, levando à perda de interesse e perda do significado do trabalho.  

É importante destacar que fatores ambientais, suporte social, ocorrência de transtornos psiquiátricos e características de personalidade interferem na resposta a eventos estressantes de forma adaptativa ou não; logo, podem ser fatores protetivos ou representar riscos para o desenvolvimento da SB.

Epidemiologia

Não há estimativas precisas sobre a prevalência da SB na população geral. Estudos de larga escala são escassos, sendo que um dos poucos disponíveis foi realizado no norte da Suécia e verificou que 12,9% dos trabalhadores ativos apresentavam indícios de SB. Já na Alemanha, a prevalência de SB na vida foi verificada em 4,2% da população. A maioria das demais investigações foi realizada com categorias profissionais específicas, recrutadas em áreas geográficas bem delimitadas e com instrumentos heterogêneos, o que dificulta a realização de comparações, mesmo por meio de metanálises.3

Estima-se que em profissões nas quais há contato interpessoal contínuo e envolvimento emocional intenso, como profissionais da saúde, da segurança e da educação, as taxas de SB possam ser especialmente elevadas. Em revisões sistemáticas realizadas recentemente, 11,23% dos enfermeiros3 e 0 a 80% dos médicos apresentavam indicativos de SB.3  No que se refere a dados nacionais, dentre médicos-residentes de psiquiatria de Porto Alegre, RS, 47% foram positivos para o domínio de esgotamento emocional, 62,1%, para despersonalização e 69,7%, para realização pessoal, de acordo com o Maslach Burnout Inventory (MBI). A natureza da relação com os preceptores, com a instituição e com os colegas foi correlacionada com esgotamento emocional e despersonalização. Estudos internacionais mostram prevalência de SB de 25 a 75% entre médicos-residentes.4

Em profissionais da segurança, as estimativas da SB também são heterogêneas, acometendo de 11 a 32% dos policiais e até 75% dos agentes penitenciários. Em uma amostra de professores do ensino médio, 28,1% apresentou exaustão emocional grave, 37,9% altos níveis de despersonalização e 40,3% baixos níveis de realização pessoal, conforme o MBI.5

Fatores de risco

Frente à complexidade da sintomatologia da SB, Burisch propôs uma divisão dos sintomas descritos na literatura em sete clusters:

  1. Sintomas de alerta na fase inicial (aumento da carga de trabalho e exaustão).
  2. Redução do comprometimento.
  3. Reações emocionais disfóricas.
  4. Redução da performance e da motivação.
  5. Prejuízo nas esferas intelectual, emocional e social (desconexão).
  6. Reações psicossomáticas.
  7. Desespero.6

Já Freudenberger tentou descrever o desenvolvimento cronológico da SB em um modelo de 12 estágios, sendo o primeiro a ambição excessiva e o último a exaustão física, que pode ser fatal.7

Fatores internos/traços de personalidade:8

  • Altas expectativas (idealistas) de si, alta ambição, perfeccionismo.
  • Forte necessidade de reconhecimento.
  • Necessidade de agradar as outras pessoas, suprimindo as próprias necessidades.
  • Dificuldade em delegar tarefas.
  • Sobrecarga de trabalho e negligência das próprias necessidades.
  • Trabalho como a única atividade significativa, trabalho como substituto da vida social.
  • Altos índices de neuroticismo (instabilidade emocional) e baixos níveis de abertura à experiência (inflexibilidade).
  • Presença de doenças crônicas.
  • Presença de transtornos psiquiátricos.
  • Sexo feminino.
  • Uso de medicação.
  • Insatisfação com a carreira.

Fatores externos8

  • Fatores institucionais.
  • Alta demanda no trabalho.
  • Problemas de liderança e colaboração.
  • Instruções contraditórias.
  • Pressão do tempo.
  • Má atmosfera no trabalho, assédio moral.
  • Falta de liberdade para tomar decisões.
  • Falta de influência na organização do trabalho.
  • Poucas oportunidades para participar.
  • Baixa autonomia / direito de contribuir com opiniões.
  • Problemas de hierarquia.
  • Má comunicação interna (empregadores, funcionários).
  • Restrições administrativas.
  • Pressão de superiores por aumento de responsabilidade.
  • Má organização do trabalho.
  • Falta de recursos (pessoal, financeiro).
  • Regras e estruturas institucionais problemáticas.
  • Falta de oportunidades percebidas de promoção.
  • Falta de clareza sobre papéis.
  • Falta de feedback positivo.
  • Mau trabalho em equipe.
  • Ausência de apoio social.

Em medicos-residentes:

  • Ausência de supervisão clínica.

Diagnóstico

Não há, até o momento, critérios bem definidos para o diagnóstico da SB. O padrão mais utilizado é o desenvolvido por Christina Maslach na Universidade de São Francisco na década de 1970, avaliado pelo MBI. Como já descrito, o MBI engloba três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e realização pessoal. Ressalta-se que a exaustão/fadiga tem sido enfatizada como a característica central da síndrome.

De fato, a definição e a etiologia da SB têm sido alvo de importante discussão na literatura. Um dos elementos discutidos, e sobre o qual não há consenso, diz respeito à similaridade dos sintomas com transtornos depressivos e ansiosos. Diante da sobreposição SB-depressão, alguns autores questionam a distinção nosológica da SB, sugerindo que se trata de uma forma de depressão, e não um tipo diferenciado de patologia. Em contrapartida, outros sustentam que, apesar da associação frequente entre SB, depressão e ansiedade, tratam-se de constructos distintos. Por outro lado, alguns autores – entre os quais se incluem os autores deste guideline – sugerem que a SB esteja associada a um continuum relacionado ao estresse, representando uma resposta patológica a estressores do ambiente de trabalho que pode progredir para depressão e até mesmo suicídio.

Outro aspecto em discussão consiste na dimensão da produtividade no trabalho, que tem se mostrado independente das dimensões de exaustão/esgotamento e distanciamento emocional/despersonalização, sendo compreendida mais como uma consequência da SB. Nesse sentido, o instrumento Copenhagen Burnout Inventory (CBI) foi desenvolvido diferenciando três domínios da vida em que a exaustão emocional pode aparecer: pessoal, relacionado ao trabalho e relacionado ao cliente/paciente.9

Entre as vantagens do CBI em relação ao MBI estão o acesso (instrumento de domínio público), a avaliação de um mesmo constructo global (exaustão e distanciamento emocional) em diferentes contextos e a possibilidade de avaliar a SB em qualquer tipo de trabalho/ocupação, não ficando restrita a setores de serviços humanos como o MBI.

Prognóstico

O desequilíbrio entre o esforço para cumprir demandas e a recompensa pela performance no trabalho tem sido associado a impacto negativo na saúde: maior risco de depressão, alterações no metabolismo da glicose e eventos coronarianos.

Dentre outros desfechos relacionados à SB, podem-se citar:

  • Redução na qualidade do trabalho realizado e consequentemente da satisfação dos clientes
  • Maiores taxas de condutas equivocadas e negligência
  • Maior rotatividade de profissionais
  • Abuso e dependência de álcool e drogas, suicídio

Entre a categoria médica, a SB está associada a um risco aumentado de erros médicos (o dobro em relação a médicos sem SB), baixa qualidade do cuidado, baixa satisfação do paciente, absenteísmo, baixa produtividade e mais custos ao sistema de saúde.10

Diagnóstico diferencial

  • Transtornos depressivos e bipolares.
  • Transtornos de ansiedade.
  • Transtorno de adaptação.
  • Características de personalidade: por exemplo, altos níveis de neuroticismo (instabilidade emocional) e baixos níveis de abertura à experiência (inflexibilidade).
  • Condições médicas associadas a sintomas de fadiga e cansaço.

É importante mencionar que alguns dos sintomas da SB parecem se assemelhar aos da depressão (como anedonia, perda de interesse ou prazer, humor deprimido, fadiga ou perda de energia, concentração prejudicada e sentimentos de inutilidade, apetite diminuído ou aumentado, problemas de sono e ideação suicida) e da ansiedade (componentes cognitivos, somáticos, emocionais e comportamentais desencadeados pela ameaça percebida). Um estudo realizado na população geral da Alemanha verificou que 70,9% das pessoas que apresentaram SB no último ano possuíam outro diagnóstico psiquiátrico comórbido, principalmente relacionado a ansiedade e humor, além de sintomas somáticos. Um fator fundamental para o diagnóstico diferencial e/ou de comorbidade é a associação do início dos sintomas a estressores no trabalho e a relação desses sintomas, ao menos inicialmente, à atividade laboral.

Comorbidades

  • Transtorno depressivo maior
  • Transtornos de ansiedade
  • Transtorno por uso de substâncias
  • Transtorno de personalidade/características de personalidade, como altos níveis de neuroticismo (instabilidade emocional) e baixos níveis de abertura à experiência (inflexibilidade)

Tratamento

O tratamento para a SB costuma ter como objetivo permitir que as pessoas retornem às atividades laborais e tenham sucesso no trabalho. Apesar das evidências sobre o papel central dos fatores organizacionais, a ênfase tem sido nas estratégias individuais, já que as intervenções situacionais – além de serem normalmente mais complexas – podem expor moralmente o paciente.2 Em geral, as intervenções são adaptadas de outros modelos de tratamento voltados ao estresse e à saúde mental e envolvem o seguinte:

  • Tratamento de transtornos mentais concomitantes.
  • Psicoterapia (reestruturação cognitiva, resolução de conflitos, gerenciamento de tempo, desenvolvimento de habilidades de enfrentamento, reorientação profissional).
  • Intervenções focadas no bem-estar e na resiliência (técnicas de relaxamento, mindfulness, desenvolvimento de redes de apoio social, exercício físico).
  • Intervenções institucionais.

Referências

  1. World Health Organization. International Classification of Diseases (ICD-11). 11th ed. Geneva: WHO; 2019 [capturado em 20 ago 2020]. Disponível em: https://icd.who.int/en.
  2. Maslach C, Leiter MP. Understanding the burnout experience: recent research and its implications for psychiatry. World Psychiatry. 2016; 15(2):103-11.
  3. Rotenstein LS, Torre M, Ramos MA, Rosales RC, Guille C, Sen S, et al. Prevalence of burnout among physicians: a systematic review. JAMA. 2018; 320(11):1131-50.
  4. Carneiro-Monteiro GM, Passos IC, Baeza FLC, Hauck S. Burnout in psychiatry residents: the role of relations with peers, preceptors, and the institution. Braz. J. Psychiatry. 2020; 42(2):227-8.
  5. García-Carmona M, Marín MD, Aguayo R. Burnout syndrome in secondary school teachers: a systematic review and meta-analysis. Soc. Psychol. Educ. 2018; 22(1): 189-208.
  6. Burisch M. Das Burnout-Syndrom - Theorie der inneren Erschöpfung. 4 ed. Berlin: Springer; 2010.
  7. Freudenberger HJ. Counseling and dynamics: treating the endstage person. In: Jones JW, editor. The burnout syndrome. London: House Press; 1982.
  8. Kaschka WP, Korczak D, Broich K. Burnout: a fashionable diagnosis. Dtsch Arztebl Int. 2011;108(46):781-7.
  9. Kristensen TS, Borritz M, Villadsen E, Christensen KB. The Copenhagen burnout inventory: a new tool for the assessment of burnout. Work Stress. 2007; 19(3):192–207
  10. Maske UE, Riedel-Heller SG, Seiffert I, Jacobi F, Hapke U. Häufigkeit und psychiatrische Komorbiditäten von selbstberichtetem diagnostiziertem Burnout-Syndrom [Prevalence and Comorbidity of Self-Reported Diagnosis of Burnout Syndrome in the General Population - Results of the German Health Interview and Examination Survey for Adults (DEGS1)]. Psychiatr Prax. 2016;43(1):e1.
  11. Mihailescu M, Neiterman E. A scoping review of the literature on the current mental health status of physicians and physicians-in-training in North America. BMC. 2019; 19(1):1363.

Autores

Carolina Meira Moser
Felipe Ornell
Gabriela Massaro Carneiro Monteiro
Simone Hauck