Psiquiatria e cinema: a loucura de Van Gogh nos filmes
| Este artigo é um presente do Secad Artmed, sistema de educação continuada a distância. Para ter acesso a mais artigos como este e manter-se atualizado na sua área, assine o PROPSIQ, programa de atualização em psiquiatria que tem a chancela da Associação Basileira de Psiquiatria (ABP). Clique aqui para saber mais. |
Introdução
Vincent van Gogh é um dos mais famosos e influentes pintores da história da arte moderna. Não apenas por seus quadros, mas também por sua doença mental, o pintor continua despertando o interesse de um grande número de pessoas.
Com o objetivo de verificar como os filmes retratam a vida e o adoecimento de van Gogh, foi feita uma busca na plataforma IMDb1 por títulos nos quais o pintor aparecesse como um personagem interpretado por um ator. Foram considerados os filmes com áudio ou legendas em inglês ou português. Não houve qualquer restrição ao período em que o filme foi lançado. Dez obras foram selecionadas. No geral, os filmes foram fiéis aos principais eventos da vida do pintor, divergindo, no entanto, a respeito das circunstâncias de sua morte.
A partir de novos depoimentos incluídos em biografias do artista, a hipótese de suicídio tem sido questionada. Apesar da discordância sobre o suicídio, as 10 obras analisadas mostram que van Gogh apresentava sintomas compatíveis com o diagnóstico de transtorno bipolar (TB).
Sobre o transtorno bipolar
Apesar de terem sido levantadas muitas hipóteses sobre o seu diagnóstico psiquiátrico, atualmente há quase um consenso de que Vincent van Gogh sofria de TB.2 Por isso, a data do seu nascimento, 30 de março, foi escolhida como o dia mundial do TB. A vida e a doença mental de van Gogh foram retratadas em diversos filmes feitos para o cinema ou para a televisão.
| [definição] O TB é um transtorno mental grave, altamente prevalente e incapacitante, que se caracteriza pela ocorrência de episódios maníacos ou hipomaníacos e depressivos, que se alternam no curso da doença.3–5 |
As funções psíquicas mais alteradas no TB são as afetivo-volitivas, mas ocorrem ainda alterações cognitivas e muitas outras. Na fase depressiva, observam-se:
- Tristeza.
- Hipobulia ou abulia.
- Inibição do curso do pensamento.
Os principais sintomas da fase maníaca são:6
- Euforia ou irritabilidade.
- Fuga de ideias.
- Agitação psicomotora.6
Embora o TB seja classificado como um transtorno do humor, evidências indicam que o aumento da atividade motora e da sensação subjetiva de energia vital seriam mais importantes do que as alterações afetivas.7
Ainda que o TB provoque graves prejuízos, muitos autores sugerem que existem aspectos positivos na doença, entre eles, uma relação com a criatividade. Estudos biográficos de artistas e escritores eminentemente criativos mostram que, ao longo de suas vidas, muitos apresentaram episódios depressivos ou maníacos. Além disso, prevalência de TB é maior entre esses indivíduos do que na população geral. Pessoas que sofrem de TB apresentam mais realizações criativas e escolhem com maior frequência ocupações criativas do que aquelas que têm outro transtorno mental. Quando comparadas com pessoas saudáveis, pessoas com TB também apresentam melhor desempenho em testes de criatividade.3,8,9
| [definição] A criatividade pode ser definida como a habilidade de reunir talento, processo e ambiente para produzir algo que seja percebido como original e, ao mesmo tempo, útil dentro de um contexto.10 |
Por si só, o TB não torna os indivíduos mais criativos. Nem todas as pessoas criativas têm algum transtorno de humor, assim como nem todas as pessoas com transtornos de humor são criativas. Porém as alterações afetivas poderiam favorecer aqueles que já têm algum talento. Na depressão, há prostração e falta de energia para realizar as atividades. Durante a mania, ocorre aumento da energia, autoestima, autoconfiança e capacidade para associar ideias, mas faltam concentração para concluir as inúmeras atividades que são iniciadas e capacidade crítica para avaliar o que é produzido. É provavelmente na hipomania que uma pessoa com TB poderia se beneficiar dos seus sintomas de forma criativa.
A vida, a obra e a doença de van Gogh
Graças às diversas biografias escritas sobre o pintor11,12 e às muitas cartas que ele mesmo escreveu,13 sabe-se bastante sobre Vincent van Gogh (1853–1890). Ele se tornou um dos nomes mais famosos da história da arte. Ao longo de sua vida, produziu 862 pinturas a óleo e 1.030 desenhos. Começou a pintar somente aos 27 anos de idade. Os principais temas de suas obras foram paisagens, naturezas mortas, retratos e autorretratos.
Por 10 anos, Vincent dedicou-se exclusivamente à arte. As centenas de cartas que escreveu mostram que, para ele, não havia nada mais importante do que pintar. Embora tivesse intenso desejo de viver do seu trabalho, apenas um único quadro seu foi vendido em vida. Ainda que, antes de morrer, van Gogh tenha sido reconhecido por um importante crítico de arte em Paris e aclamado pela sua originalidade, foi apenas após sua morte que ele teve sua genialidade amplamente reconhecida. Muitas das suas obras foram vendidas por dezenas de milhões de dólares.11–13 Sua obra mais cara — “Retrato do Doutor Gachet”14 — rendeu em um leilão mais de 82 milhões de dólares.11–13
Nascido na Holanda, em 30 de março de 1853, Vincent van Gogh veio ao mundo exatamente 1 ano após o seu irmão natimorto, também chamado Vincent. O mais velho de seis filhos, Vincent era considerado “teimoso”, “briguento”, “estranho” e de “temperamento difícil”. Essas características fizeram dele o tormento da família, como todos se queixavam.12
Em suas cartas, Vincent lembrava com tristeza da sua infância. Desde menino, teve inúmeros acessos de raiva e conflitos interpessoais. Quando alguém discordava do seu ponto de vista, se exaltava com intensidade. Por exemplo, quando seu amigo Rappard, também pintor, criticou um de seus quadros, Vincent, já adulto, ficou extremamente ofendido, reagindo com palavras agressivas. Por muitos anos teve “o mesmíssimo tipo de problema”, como ele mesmo escreveu, com muitas pessoas, incluindo seus pais e toda a sua família. Era com o pai, Theodorus van Gogh, que Vincent tinha mais conflitos.13
Por toda a vida, com graus diferentes de intensidade, seu humor foi marcado pela inconstância, oscilando entre entusiasmo, fúria e melancolia. Vincent tinha dificuldade em estabelecer laços sociais e manter os que tinha. Sentindo-se rejeitado, fracassado e culpado, sua vida foi marcada pela solidão. Para lidar com seus demônios interiores, Vincent recorreu à religião, ao sexo, ao tabaco e ao álcool, mas foi na arte que encontrou maior alívio para o seu sofrimento.11–13
Aos 16 anos, quando começou a trabalhar com o tio, Vincent parecia ter um talento promissor para vendas. Esperava ganhar dinheiro suficiente para corresponder às expectativas da família e retribuir os gastos que tinham com ele. Em poucos anos, vivendo longe de casa e com dificuldades financeiras, Vincent passou a sentir cada vez mais raiva e a se queixar de depressão. Perambulava pelas ruas, passava muito tempo em cemitérios, andava com roupas desgastadas e acabou sendo considerado inadequado para a profissão de vendedor.11–13
Aos 24 anos, Vincent estava decidido se tornar pastor, a profissão do pai. Para isso, precisava estudar muito. Passava noites sem dormir ou dormindo pouco e mal, não se alimentava direito e afirmava que não precisava de comida nem de descanso. Após algumas semanas nesse ritmo, sentia-se abatido e dizia que os seus pensamentos estavam confusos. Consumia muito café para conseguir permanecer acordado e rezava fervorosamente para que Deus lhe desse o saber necessário.11–13
| [importante] Aos 24 anos, próximo do Natal de 1877, segundo o relato de um parente, Vincent teve um “colapso mental”. Ele escrevia cartas com conteúdos absurdos e incoerentes para a família e, pela primeira vez, registrou ideias suicidas. Tornou-se obcecado por coisas mórbidas e mantinha um livro de orações fúnebres no bolso. Nesse mesmo período, disse que estava “maluco com a religião”. Ao que parece, esse foi o primeiro episódio de sua doença, provavelmente uma depressão psicótica.12 |
Vincent fracassou no exame para se tornar pastor. Envergonhado, sem recursos e sem perspectiva de vida, decidiu ir para Borinage, região mineira na Bélgica, para ser um missionário da Igreja. Ao ver o sofrimento e miséria dos trabalhadores, decidiu que deveria viver nas mesmas condições: doou tudo o que tinha, mal se alimentava, vivia sujo e dormia no chão, sem cobertor, apesar do frio do inverno. Embora a caridade fosse esperada de um representante da Igreja, a abnegação de Vincent era considerada excessiva. Segundo relatos, ele teve uma “crise nervosa” e foi chamado de louco. O quadro clínico, dessa vez, sugere um quadro de mania psicótica. Foi assim que terminou sua tentativa profissional dentro da religião, tendo se decidido, então, dedicar-se à arte.11–13
Os anos seguintes foram marcados por rejeições amorosas e novos conflitos familiares e profissionais. O próprio Vincent não entendia como suas brigas pareciam surgir “do nada”. Dizia que sua passionalidade era agravada pelo seu temperamento e ele se tornava um fanático defendendo as suas ideias. Referia ainda que não era incomum ficar melancólico ou irritadiço. Eventualmente também acreditava que as pessoas riam às suas costas, tinham inveja dos seus desenhos e conspiravam contra o seu sucesso. 11–13
Um bom exemplo da passionalidade de Vincent é sua declaração de que não se dava bem com outros artistas porque os considerava representantes da burguesia, enquanto a sua arte estava mais próxima da natureza e do povo. Ainda segundo ele, por essa razão, o seu amor também deveria pertencer a uma mulher do povo.
Foi assim que Vincent defendeu, em cartas a seu irmão Theo, a sua ideia de se casar com a prostituta Sien, com quem já estava morando havia alguns meses. A relação escandalizava a comunidade local, o que aumentou os seus conflitos familiares. Sien não era uma prostituta qualquer. O próprio Vincent dizia que outras pessoas a achavam “repulsiva” e “insuportável”, todavia, para ele, ela era “um anjo”. Vincent queria mais dinheiro de Theo, que o sustentava financeiramente, já que sua mesada não era suficiente para manter, além dele, Sien e os filhos dela. Por meses a fio, o pintor travou uma batalha contra a sua família de origem para defender o seu relacionamento com Sien. No entanto, pressionado pelos van Gogh, após muita relutância, Vincent a abandonou.11–13
| [importante] Em 1884, aos 31 anos, van Gogh estava decidido a abandonar sua timidez e reclusão. Na companhia de Rappard, um de seus poucos amigos ao longo da vida, sentia seu ânimo renovado, “como se tivesse 20 anos”. Juntos, frequentavam bordéis e bares. Vincent passou um mês inteiro sem dormir ou comer direito. Queixava-se de fraqueza, “angústia” e “melancolia”. Bebia com mais frequência e tinha muitos ataques de raiva.11–13 |
Morando com a família, em 1885, aos 32 anos, Vincent estava cada vez mais agressivo, e o conflito que tinha com o pai se intensificou. Quando Theodorus morreu, Vincent foi acusado, pela irmã, de provocar a morte do pai. Para a família e a vizinhança, a presença de Vincent causava desconforto, então ele foi embora da Holanda.
Aos 33 anos, vivendo com Theo em Paris, em 1886, Vincent sentia enorme necessidade de fazer sexo com prostitutas, falava incessantemente sobre cores (o assunto sobre o qual estava obcecado na época), trabalhava muito depressa, brigava com todos os amigos de Theo e, principalmente, brigava com o próprio irmão. Noite adentro, Vincent se sentava ao lado da cama de Theo e não o deixava dormir, falando sem parar sobre arte. Nessa época, consumia com frequência absinto, a bebida da moda.11–13
Em 1887, Theo pediu Jo Borger em casamento pela primeira vez. Preocupado com a possibilidade de receber do irmão menos recursos, Vincent entrou em desespero, ficou novamente deprimido, voltou a falar em suicídio, tinha pesadelos e passou a beber ainda mais. Em fevereiro de 1888, quando deixou Paris e foi para Arles, no sul da França, Vincent disse que estava à beira de se tornar alcoólatra. Quando decidiu parar de fumar e de beber tanto, afirmou que voltou a pensar normalmente de novo. Então se dedicou intensamente ao trabalho.11–13
Vincent estava decidido a criar um ateliê onde muitos pintores seriam instruídos pelo mestre Paul Gauguin. Alugou uma casa maior, com uma cor bastante chamativa, local que ficou conhecido como a Casa Amarela. Lá, à espera de Gauguin, Vincent escrevia cartas a Theo relatando que estava se sentindo feliz, “muitíssimo bem”, “carregado de eletricidade”, “uma locomotiva de pintar”. Trabalhava muito, mas não ficava nem um pouco cansado: “eu faria mais um quadro nesta mesma noite e o terminaria”. “As ideias para o trabalho me vêm em abundância”, disse ele. A chegada de Gauguin, contrariando as expectativas de Vincent, não foi um período feliz por muito tempo. Em poucos dias, os dois já estavam discutindo calorosamente por tudo.11–13
Vincent passou a apresentar insônia, delírios e alucinações e a desconfiar de Gauguin. Desde que ele chegou, Vincent achava que sua relação com Theo estava diferente, já que Gauguin estava vendendo quadros e ele continuava a ser um estorvo para o irmão. Na véspera de Natal de 1888, após uma discussão com Gauguin, Vincent cortou o lóbulo da orelha esquerda e o entregou para uma prostituta. Após esse episódio, foi internado no hospital de Arles. Tinha 35 anos na época dessa sua primeira hospitalização.11–13
| [diagnóstico] No hospital de Arles, Vincent foi assistido pelo Dr. Félix Rey, que não era alienista (termo que corresponde ao que hoje chamamos de psiquiatra). O médico fez o seguinte diagnóstico: “uma espécie de epilepsia caracterizada por alucinações e por episódios de agitação confusa, cujas crises eram favorecidas por excessos de álcool”. Vincent ficava gritando coisas ininteligíveis, misturando francês e holandês. Não conseguia dormir e não se lembrava do que tinha acontecido. O diretor da instituição, o Dr. Ulpar, também não alienista, arriscou o diagnóstico de “mania aguda com delírio generalizado”.11–13 |
Em poucos dias, em 7 de janeiro de 1889, o pintor foi considerado “curado” e recebeu alta.
Entre janeiro e fevereiro de 1889, Vincent andava pelas ruas falando coisas incoerentes, seguia desconhecidos e invadia casas. Apresentava alucinações auditivas — “vozes” lhe faziam censuras — e delírios persecutórios — recusava-se a comer, acreditando que queriam envenená-lo. Confessou a Theo: “tenho momentos em que me contorço de entusiasmo, de loucura ou de profetização”. Em função disso, voltou para o hospital de Arles, mas melhorou rapidamente e logo saiu de alta. Quando retornou para a cidade, passou a ser tratado de forma mais hostil pela população, que já não o queriam por lá. Foi mantido “sob chave e cadeado” pela polícia, no Hôtel Dieu, de 25 de fevereiro a 23 de março. Quanto mais furioso ficava sentindo-se injustiçado, mais justificava a acusação de ser um “insano perigoso”.11–13
Em abril, Vincent estava prestes a recomeçar a vida e assinar um novo contrato de aluguel, mas disse não ter coragem para se manter sozinho e que seria infinitamente mais prudente e muito melhor para ele se passasse 2 ou 3 meses num asilo para doentes mentais. Contou ainda que tinha “angústias”, “sentimentos de vazio e de cansaço na cabeça”, bem como “remorsos atrozes”. Em 8 de maio, foi internado no asilo Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy.11–13
| [diagnóstico] O diagnóstico oficial que levou de Arles foi “mania aguda com delírio generalizado”. Vincent passou a ser assistido pelo Dr. Peyron, que tinha formação em oftalmologia, mas “se mantinha a par do que então se sabia sobre doenças mentais”. Ao passar o caso, Dr. Rey informou sua convicção de que Vincent sofria de “uma espécie de epilepsia”, não a tradicional, mas, sim, “uma epilepsia mental, um colapso do pensamento”. No dia seguinte à chegada de Vincent, Dr. Peyron atestou: “Eu creio, à luz de todos os fatos, que van Gogh é sujeito a alguns acessos epiléticos vez por outra, de tempos em tempos”.11–13 |
Durante o ano que passou no asilo, Vincent viveu momentos de “tranquilidade” e “paz de espírito”, agitação, raiva, delírios persecutórios, culpa, pesadelos e falta de apetite. Revisitando todo o seu passado, novamente se sentindo um fracassado, tentou o suicídio duas vezes, ingerindo tinta e querosene.
Passava longos períodos de inatividade, recolhido ao próprio quarto. No entanto, também tinha momentos em que se sentia muito bem. Contou ao irmão que tinha nada menos do que 12 telas em andamento ao mesmo tempo, o que é muito indicativo de uma virada para a hipomania. O pintor viveu momentos terríveis de depressão, mas sempre que se recuperava queria compensar todo o tempo parado: “Tenho mais ideias na cabeça do que jamais conseguiria realizar”, escreveu a Theo durante um desses momentos. Em 16 de maio de 1890, Dr. Peyron assinou a alta de Vincent: “curado”, registrou em sua ficha. 11–13
Entre maio e junho de 1890, van Gogh esteve em Auvers, também na França, onde, num curto espaço de tempo, apresentou amplas flutuações de humor, porém não foi internado. Primeiro, mostrou-se feliz e jovial nas cartas para o irmão e produziu, de forma impressionante, 70 telas em 70 dias. Depois, disse se sentir um “fracassado” e, logo em seguida, foi considerado “curado”, pela terceira vez, agora pelo Dr. Gachet, também não alienista.
Em 27 de julho de 1890, van Gogh saiu cedo para o campo para pintar, como sempre fazia, mas só retornou à noite e estava sangrando. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu naquela tarde. Especulou-se que ele havia disparado um tiro contra o próprio abdome. Morreu na madrugada do dia 29, aos 37 anos, nos braços de Theo. É o irmão quem ouve as suas últimas palavras: “Falhei mais uma vez... Não chore, fiz isso para o bem de todos... A tristeza duraria para sempre”. 11–13
Sugestões de diagnósticos posteriores à morte de van Gogh
No decorrer dos anos, as manifestações psicopatológicas apresentadas por van Gogh foram atribuídas a diversas condições clínicas, psiquiátricas e não psiquiátricas. Para Karl Jaspers,15 van Gogh tinha esquizofrenia. Porfiria intermitente aguda foi o diagnóstico formulado por Loftus e Arnold16,17 e apoiado por Correa.18 Gastaut,19 por sua vez, acreditava que van Gogh sofria de epilepsia parcial complexa. O diagnóstico de neurossífilis foi proposto por diversos autores, por exemplo, Yacubian.20 Lee21 levantou a hipótese de intoxicação por digitálicos. Weissman22 supôs que havia evidências convincentes de que van Gogh sofria as consequências da intoxicação por chumbo. Arenberg e colaboradores,23 por sua vez, sugeriram que a principal doença de Vincent fosse a síndrome de Ménière.
Van Gogh abusava de bebidas alcoólicas, especialmente absinto. Assim, alcoolismo é outro diagnóstico proposto para o artista. É difícil afastar essa hipótese, mas, por outro lado, o alcoolismo pode ser uma condição comórbida de outras, visto que o álcool pode causar ou desencadear crises epiléticas e é usado de forma nociva por indivíduos que sofrem de diversos transtornos mentais. Hemphill24 levantou a hipótese de que van Gogh era um maníaco-depressivo que teve o quadro agravado nos últimos 2 anos de vida por causa do absinto.
Jamison e Wyatt25 apresentaram argumentos consistentes para sustentar a hipótese de TB. Vincent van Gogh apresentava um padrão cíclico de episódios afetivos, retornava à normalidade entre as crises, tinha padrões alterados de sono e energia e não sofreu deterioração cognitiva. Segundo os autores, a história familiar seria consistente com esse diagnóstico. Sabe-se que ao menos três gerações da família de Vincent sofreram com transtornos de humor, “ataques epiléticos”, internações e suicídios.12 Para reforçar sua hipótese, Jamison e Wyatt25 também consideraram a relação entre a criatividade — tão marcante no pintor — e o TB.
Van Gogh no cinema e na televisão
Por meio dos filmes, o público tem a oportunidade de ver a representação de transtornos mentais e até sentir empatia pelas pessoas acometidas. Para citar um exemplo recente, o filme Coringa,26 dirigido por Todd Phillips, se tornou um fenômeno mundial e garantiu o Oscar de melhor ator a Joaquin Phoenix, que interpreta um indivíduo que sofre de um transtorno mental.
É verdade que o cinema pode contribuir para disseminar estereótipos e aumentar o estigma sobre os transtornos mentais. Entretanto, quando descritos e interpretados adequadamente, a apresentação de transtornos mentais em filmes pode ser uma excelente ferramenta de ensino da psicopatologia. Encontrar aquele paciente “de livro” para exemplificar um transtorno mental não é uma tarefa fácil. Mas, no cinema, os personagens estão à disposição, para o deleite, entretenimento e como um possível instrumento de trabalho para os profissionais da área.
| [importante] A fim de encontrar as referências de filmes sobre a vida e a doença de van Gogh, foi realizada, em abril de 2020, uma busca no site IMDb.1 Foi utilizado como termo de busca “van Gogh”. De acordo com os critérios de seleção escolhidos, os filmes poderiam ter sido feitos para o cinema ou para a televisão, e o pintor deveria aparecer como um personagem interpretado por um ator. Foram considerados apenas os filmes com áudio ou legendas em inglês ou português. Não houve qualquer restrição ao período em que o filme foi lançado. Na busca inicial, apareceram mais de 200 títulos, envolvendo dramas, documentários e episódios de séries de televisão. Para assistir às obras, foram utilizadas as plataformas Netflix,27 Prime Video,28 Vimeo29 e YouTube.30 Entre os filmes que estavam disponíveis, 10 preencheram os critérios de seleção e são aqui discutidos. |
Sede de viver
Título original — Lust for life31
Gênero — Drama/Biografia
Direção — Vincente Minelli
Intérpretes — Kirk Douglas, Anthony Quinn, James Donald, Pamela Brown, Everett Sloane e outros
Ano — 1957
Estúdio — Warner
No filme Sede de viver, Vincent, de início muito bem apresentável, candidata-se para ser um missionário da Igreja no vilarejo de mineiros em Borinage, na Bélgica. Ele é caridoso e atencioso. Em pouco tempo, doa as próprias coisas aos trabalhadores e passa a viver como eles. Anda maltrapilho, sujo, trabalha incansavelmente e dorme no chão, sobre a palha, como um bicho. Sua postura é considerada inadequada e, por isso, é repreendido pelos seus superiores. Irritado, Vincent se descontrola e grita com eles. Na sequência, Theo o encontra muito triste, sentindo-se sozinho e assustado porque quer muito trabalhar e não consegue. Vincent diz ao irmão que está “preso em uma jaula de insegurança e fracasso”.
Tendo falhado na carreira religiosa, Vincent volta a morar com a família. Seu pai, Theodorus van Gogh, um respeitável pastor, não tolera a rebeldia do filho. Com ele, Vincent tem acaloradas e frequentes discussões. Nesse período, fica obcecado por sua prima Kee. Impulsivamente, ele a agarra, diz que a ama e pede sua mão em casamento. É rejeitado, mas não desiste. Contrariando toda a família, Vincent insiste em conquistá-la. Durante uma discussão com o tio, coloca a mão na chama de uma vela para tentar convencê-lo a autorizar visitas regulares a Kee. É duramente repreendido por isso.
Depois da decepção amorosa, Vincent convida uma prostituta para morar com ele. A convivência entre os dois resulta em inúmeras discussões, principalmente por falta de dinheiro. Vincent está decidido a aprender a desenhar e a pintar, recusa-se a encontrar um trabalho que o sustente enquanto não consegue viver da arte. O primo Mauve, que tenta ajudá-lo nesse objetivo, também não escapa do péssimo humor de Vincent. Em um rompante de agressividade, ele destrói todos os moldes de gesso que o primo havia dado para que ele treinasse desenho. Após receber um bilhete informando que seu pai está doente, Vincent decide voltar para casa da família. Na estação de trem, Sien diz que não vai estar em casa quando ele retornar. Embora relutante, Vincent concorda com a separação e embarca no trem.
Ao chegar em casa, descobre que o pai está morto e lamenta pela péssima relação que tiveram. Theo o convida para morar com ele em Paris, mas Vincent prefere ficar na Holanda, pintando camponeses. A vizinhança e sua família se incomodam com o seu jeito de ser e seu modo de vestir. Então o pintor decide aceitar o convite de Theo. Todavia, vivendo com o irmão, ele também passa a ser um incômodo, agindo de forma insuportável. Empolgado com o impressionismo, passa a madrugada pintando. Não deixa Theo dormir, pois tem muito o que conversar sobre arte em plena madrugada. Theo queixa-se de que não dorme há 6 meses, além de estar insatisfeito porque Vincent insulta todos os seus hóspedes. O artista se irrita e discute com ele. Theo descreve seu irmão como “rude, brigão, desequilibrado, com a mente atormentada”.
Vincent muda-se para Arles e, logo nas primeiras semanas, arruma briga com o senhorio. Quando se muda para a Casa Amarela, fica eufórico com a possibilidade de transformar o lugar em um ateliê para muitos pintores, liderados por Gauguin, por quem sente enorme admiração. Vira noites pintando muitos quadros em pouco tempo. Nesse período, bebe com frequência, até cair. Quando Gauguin chega, o novo hóspede se aborrece com a bagunça da casa. Embora os dois tenham momentos alegres, discutem com frequência e de forma cada vez mais agressiva. Vincent chega a dizer que tem muita violência dentro de si e que tem medo disso.
Na última discussão entre os dois, em casa, Vincent atira um copo em Gauguin. Antes que a situação piore, o amigo decide ir embora. Vincent fica desolado, demonstra intenso sofrimento e corta a própria orelha. O episódio atrai a atenção de toda a cidade. Os vizinhos, aglomerados sob a janela do seu quarto, gritam zombarias. Sofrendo, van Gogh grita para que o deixem em paz.
No hospital de Arles, Vincent diz a Theo que é um perigo para si e para os outros e pede para ser internado em um asilo. Em St. Rémy, o Dr. Peyron diz que Vincent se encontra em um “estado de inércia crônica acompanhado de sintomas de extremo terror”. Aparentemente deprimido, permanece isolado, cabisbaixo em um canto do quarto, sem nenhum interesse em olhar a linda paisagem apontada pela freira que o atende. Vincent volta a pintar, sente-se bem com isso, mas fala em morte. O médico diz que a pintura parece melhorar o estado de saúde de Vincent, porém “os excessos de trabalho e emoção que induziram a primeira crise devem ser evitados”. Mas Vincent continua pintando e sofrendo ataques repentinos durante a sua estadia no asilo. Apesar disso, o Dr. Peyron concorda em atender seu pedido para deixar a instituição.
Em Auvers, Vincent encontra o Dr. Gachet e questiona sobre a possibilidade de ter novos ataques. O médico lhe diz para não se preocupar com isso, pois a pintura é o único remédio de que um artista precisa. Van Gogh produz muitas telas nesse período. Um dia, durante uma festa na cidade, sente-se profundamente perturbado com o barulho e corre do local. Aparece pintando o quadro “Campo de Trigo com Corvos”,32 mas se sente angustiado, escreve um bilhete de despedida e atira em si próprio. Morre na hospedaria, com Theo ao seu lado.
Sonhos/vinheta: “Corvos”
Título original — Dreams: “Crows”33
Gênero — Drama/Fantasia
Direção e roteiro — Akira Kurosawa
Intérpretes — Akira Kurosawa e Martin Scorsese
Ano — 1990
Estúdio — Warner
Sonhos é um filme formado por oito vinhetas baseadas nos sonhos recorrentes do diretor Akira Kurosawa. A quinta vinheta, intitulada “Corvos”, mostra o próprio diretor como um estudante de arte em uma galeria, contemplando as telas de van Gogh. O estudante aparece, então, dentro de uma das telas e pergunta para as lavadeiras que estão no local onde ele pode encontrar Vincent van Gogh. Uma delas o orienta, mas também alerta para que ele tome cuidado com o louco que acabou de sair do manicômio. Todas riem. Considerado estranho, o pintor com frequência era alvo do escárnio da vizinhança.
Interpretado por Martin Scorsese, Vincent está, como de costume, sozinho no campo. Com a orelha enfaixada, o vemos pintando. Fascinado, Kurosawa escuta Vincent falando sobre o seu entusiasmo em pintar a natureza: “Eu consumo esse ambiente natural, eu o devoro total e plenamente! E quando estou satisfeito, a imagem aparece à minha frente. Mas é difícil guardá-la lá dentro. […] Eu trabalho como um escravo, o que me conduz como uma locomotiva”.
Quando questionado sobre o ferimento, van Gogh responde que estava pintando, mas não conseguia fazer a orelha direito, então a cortou e jogou fora. Sem tempo a perder, pois o sol está se pondo, o pintor vira as costas e vai embora.
Van Gogh — vida e obra de um gênio
Título original — Vincent & Theo34
Gênero — Drama biográfico
Direção — Robert Altman
Roteiro — Julian Mitchell
Produção — Ludi Boeken
Intérpretes — Tim Roth, Paul Rhys e outros
Ano — 1990
Estúdio — Belbo Films
O filme Van Gogh — Vida e Obra de um Gênio, começa contrapondo uma cena em que uma das pinturas de van Gogh é vendida por 54 milhões de dólares com a imagem do autor da obra: sujo, com dentes podres, deitado sobre a palha no chão de um quarto miserável. Os irmãos Vincent (Tim Roth) e Theo (Paul Rhys), embora sejam muito amigos, têm uma relação conflituosa quando o assunto é dinheiro. Vincent está decidido a se dedicar exclusivamente à pintura. Theo trabalha em uma galeria de arte. Embora não ganhe muito, decide investir na carreira do irmão. Os dois fazem um acordo. No entanto Vincent se recusa a seguir a maioria dos conselhos de Theo, pois deseja se expressar de forma única, fiel aos seus sentimentos. No entanto, tanto na maneira de pintar quanto de se comportar, Vincent não era um artista vendável.
A característica mais marcante de Vincent nesse filme é a irritabilidade. Quando Theo encontra Vincent no meio da sujeira, questiona por que o irmão precisa sempre ir aos extremos para defender os seus princípios. Comprovando que Theo está certo, aos gritos, Vincent rasga seu próprio desenho após ser criticado e defende ferozmente a sua predileção por um artista que não é do agrado de Theo.
O conflito com os demais membros da família também fica evidente. No período que trabalha com o tio em uma galeria de arte, Vincent não gosta dos quadros e ofende os clientes que têm interesse em comprá-los. Sentindo-se desprezado pela família, decide ir morar no campo e convida Sien, uma prostituta, para morar com ele. Não se importa quando ela diz que tem um gênio terrível, porque ele é do mesmo modo. No entanto, Vincent se mostra gentil com ela e seus filhos. Em um passeio, quando ela é ofendida por outro pintor, Vincent se irrita e destrói o quadro que o homem estava pintando. Cansada de viver sem dinheiro, a mulher decide ir embora para voltar a trabalhar como prostituta. Aparentemente deprimido, Vincent pinta uma caveira no próprio rosto.
Aceitando a sugestão de Theo, Vincent muda-se para Paris, a fim de estudar em uma escola de arte. Ele aparece limpo, arrumado e tranquilo. Todavia, isso não dura muito tempo. Vincent não socializa com os artistas locais e se revolta porque o irmão não consegue vender seus quadros. Os dois gritam, atirando objetos um no outro. Fica claro que a convivência dos irmãos no apartamento em Paris é permeada de aborrecimentos, entre poucos períodos de paz. Pagando para se livrar do irmão, Theo convence Gauguin a morar com Vincent em Arles.
Enquanto aguarda a chegada de Gauguin na Casa Amarela, Vincent ora está tranquilo, ora furioso. Em uma das cenas, ele sai para pintar girassóis, se irrita com o resultado e quebra o quadro inteiro. Também nesse período, passa a beber com mais frequência e vai mais a prostíbulos. Ao chegar na casa, Gauguin faz uma série de críticas, o que deixa Vincent ainda mais irritado. Este, por sua vez, durante uma discussão, grita que não é louco e que foi Gauguin que o deixou assim.
Após uma violenta discussão, na manhã seguinte, já tranquilo, Vincent pergunta o que aconteceu, pois não se lembra do que fizera. Ao ouvir Gauguin dizer que vai embora, Vincent impulsivamente avança sobre ele segurando uma faca e lhe dá um beijo na boca. Sozinho, bebe tinta, grita por Theo e dá um soco no espelho. Por fim, com uma navalha, corta a própria orelha e lambe o sangue que escorre. Na internação em St. Rémy, o médico sugere que ele descanse. Já em Auvers-sur-Oise, Vincent está calmo. O Dr. Gachet afirma que ele ficara completamente curado em poucos dias.
Embora se sinta humilhado por depender financeiramente do irmão, Vincent ainda acredita que poderia, um dia, retribuir com a venda dos seus quadros. Após passar uma vida inteira sentindo-se rejeitado, o pintor chega a acreditar que Theo se envergonha do seu trabalho e, por isso, não vende nada. Quando Theo se casa e tem um filho, Vincent fica ainda mais amargurado por não conseguir viver do seu trabalho. Após sair, como de costume, para pintar nos campos de trigo, Vincent não consegue pintar coisa alguma. Sentindo-se um fardo na vida do irmão, atira no próprio abdome e volta para a cidade, cambaleando. Morre com Theo ao seu lado.
Van Gogh
Gênero — Drama35
Direção e roteiro — Maurice Pialat
Intérpretes — Jacques Dutronc, Alexandra London, Bernard Le Coq, Gérard Séty e outros
Ano — 1991
Estúdio — Erato Films
Na história contada pelo diretor Maurice Pialat, em Van Gogh, Vincent (Jacques Dutronc) é um pintor carismático, sociável e desejado por mulheres. O roteiro é baseado nos seus últimos 2 meses de vida. Após sair do manicômio de St. Rémy, Vincent vai para Auvers-sur-Oise para ser cuidado pelo Dr. Gachet. Ao chegar, queixa-se de fortes dores de cabeça e teme voltar a ter ataques de loucura. Ao se reportar a Theo sobre o encontro, o médico diz que não acredita que Vincent tenha tido ataques epiléticos, mas, sim, estafa pelo excesso de trabalho e de absinto e má alimentação. Conclui dizendo que, por ser uma pessoa muito sensível, Vincent está sujeito a “ataques de histeria” por qualquer excitação.
Gachet demonstra grande interesse pelo trabalho artístico de Vincent e permite que ele frequente a sua casa. Durante as semanas de convivência, o artista se envolve com Marguerite, a filha de Gachet. Os dois fazem sexo em diferentes ocasiões. Vincent não dá tanta importância, mas Marguerite se apaixona e chega a ir atrás dele em um prostíbulo. Quando Gachet descobre o relacionamento, adverte a filha sobre os perigos de se relacionar com um insano. O médico cai em contradição, já que dissera várias vezes que Vincent tinha boa saúde e era normal.
Esse filme exibe cenas aparentemente desconexas, que transmitem uma ideia de desfragmentação da mente de Vincent. Por exemplo, em uma das cenas, o pintor está tranquilo em um piquenique com Theo e sua esposa — Johanna — e a família de Gachet e, de repente, muito alegre, se atira no lago de roupa e tudo. Em outra cena, após Marguerite deixar o seu quarto, ele fica soturno e aponta uma arma para a própria cabeça. Com o passar do tempo, Vincent passa a se isolar e a se sentir cada vez mais irritado. Quando visita Theo em Paris, os dois brigam. O irmão diz que Vincent arruma briga com todo o mundo. Em resposta, o pintor diz que sua vida é muito triste, que é um fracasso e que suas pinturas não prestam. Entretanto, diz ainda que está bem de saúde, não vai ter mais crises e vai trabalhar para ser independente de Theo.
No dia seguinte, muito animado, Vincent brinca com a cunhada de forma inadequada. Diz que vai embora vender todos os seus quadros por um preço muito baixo ou mesmo jogá-los fora. Culpa o irmão pelos quadros encalhados e o agride. Em seguida, também agride a cunhada e joga longe toda a refeição que estava posta na mesa. Mostrando rápida oscilação de humor, poucas horas depois, aparece dançando em um prostíbulo. Após fazer sexo, fica novamente melancólico e calado. Em seguida aparece tranquilo fazendo a barba e saindo para pintar no campo. Aparece baleado no abdome e consegue retornar para a hospedaria. A vizinhança comenta que ele tentou se matar. Vincent recusa ajuda médica e morre sozinho em seu quarto.
The eyes of van Gogh
Gênero — Drama/Biografia36
Direção e roteiro — Alexander Barnett
Intérpretes — Alexander Barnett, Lee Godart, Roy Thinnes, Gordon Joseph Weiss e outros
Ano — 2005
Estúdio — Van Gogh Productions
O filme The eyes of van Gogh se propõe a expressar o sofrimento do pintor durante o período em que esteve internado voluntariamente no manicômio de St. Rémy.
Após discutir com Gauguin e cortar a própria orelha, Vincent aceita ir para a instituição, com a condição de poder continuar pintando enquanto estiver lá. O artista diz ter muito medo de ter “novos ataques” e pergunta ao médico qual é a causa deles. O médico diz que seu modo de vida certamente contribuiu: má alimentação, muito café e muito álcool. Além disso, “como muitos dos seus familiares tiveram epilepsia, talvez você tenha o mesmo”, diz o Dr. Peyron. Para prevenir novos ataques, o médico recomenda hidroterapia, descanso e redução dos estímulos mentais. Enquanto conversa com o médico, Vincent ouve seus pais lhe chamando. Ao dormir, sonha com os pais lhe acusando de tomar o lugar do irmão natimorto e dizendo que ele deveria aprender a se odiar por isso.
Dr. Peyron escreve uma carta a Theo informando que permitirá que Vincent use a pintura para combater a depressão. Desde que o pintor chegou, progrediu e parece estar em paz, “embora ainda tenha recorrentes pesadelos e alucinações”. O médico informa ainda que acredita que esses sintomas vão passar logo e “com algumas precauções, é improvável que haja recaídas”.
O filme não segue os eventos em ordem cronológica. As cenas, às vezes muito confusas, levam o espectador a enxergar pelos olhos de van Gogh, criando dúvidas sobre o que é real e o que não é. Ao concluir um quadro, gosta do resultado, mas não compreende por que não consegue vender. Ouve a voz de Theo e questiona sobre o que precisa fazer para melhorar. O irmão diz que ele precisa melhorar os quadros e a sua aparência e ser mais sociável. Vincent se sente incompreendido e, aborrecido, começa a brigar com Theo. Mas, na verdade, vê-se que ele está brigando com outro paciente de St. Rémy. Quando esse mesmo paciente foge, Vincent se sente abandonado pelo irmão. Logo em seguida tem uma epifania: pintar retratos é o que fará dele um artista reconhecido por muitos séculos.
Relembrando suas rejeições, Vincent também vê sua prima Kee, a quem tentou conquistar. Com muito medo de voltar a ter ataques, o pintor questiona Dr. Peyron sobre seus “pesadelos” e “alucinações”. Sentindo-se apreensivo, Vincent se vê em Borinage, fazendo um discurso inflamado para os mineiros, dizendo que eles merecem ser recompensados por Deus com uma vida melhor. É surpreendido pelo reverendo, que o acusa de incitar uma greve, diz que seu comportamento é insano e o demite. Van Gogh grita que não pode ser demitido, pois ele tem o dever de doar seu salário aos mineiros. Os demais pacientes de St. Rémy o observam perplexos. Vincent também se vê usurpando o dinheiro de Theo e, com isso, drenando a sua vida. Esse foi mais um dos pesadelos que o atormentaram.
Nem só de sofrimento vive o pintor em St. Rémy. Vincent passa a se sentir radiante com a natureza ao seu redor, se torna muito produtivo e lembra-se de como se sentiu com a chegada de Gauguin em Arles. “Eu tenho muitos planos na minha cabeça. Ideias estão vindo em enxames. Eu não sei se vou começar cinco telas ou dez. É maravilhoso!”, diz o pintor. Com um discurso apaixonado, van Gogh se vê dizendo a Gauguin que eles poderiam mudar o mundo e educar as pessoas com obras para a eternidade. Vincent também se vê discutindo com o amigo e se sente atormentado. Em profundo desespero, pega uma navalha, corta a própria orelha e cai no chão. Vê-se rodeado de pessoas zombando do seu sofrimento. Dr. Peyron escreve a Theo para informar que seu irmão sofreu seu primeiro ataque em St. Rémy.
Após receber a notícia do nascimento do sobrinho, filho de Theo, Vincent volta a se sentir mal por não vender nenhum quadro. Agitado, ele diz a Theo que vai pagar tudo o que deve. Ouve seu pai lhe dizer que Theo o apoia apenas por caridade e pena. Dr. Peyron volta a escrever a Theo, informando que Vincent sofreu um novo ataque.
Pouco depois, enquanto pintava o autorretrato com a orelha enfaixada, o pintor parece ouvir sons muito altos, o que lhe causa dor e angústia. Posteriormente ao terceiro ataque, o pintor se vê dentro de um caixão e diz que não tem vivido. Deitado no chão, no escuro, Vincent, se sentindo um fracasso, diz a Theo que seus quadros são imundos. Lamenta ter arruinado a vida do irmão e diz que todo o seu trabalho foi uma perda de tempo e que ninguém jamais verá seus quadros. Desesperado, tenta se matar ingerindo suas tintas. O Dr. Peyron o proíbe de pintar e o mantém amarrado em sua cama, isolado. Nesse estado, Vincent sonha que está pintando no campo, fica apreensivo, corta o próprio punho e espalha o sangue sobre a tela.
Após semanas proibido de trabalhar, Vincent implora ao Dr. Peyron que lhe dê permissão para voltar a pintar, pois, sem trabalho, não pode melhorar. O médico diz que doenças mentais não têm cura e o máximo que pode fazer é manter os pacientes quietos e inativos tanto quanto for possível. A ideia de ter que ficar inativo para não ter novos ataques deixa Vincent inconformado. Ao pensar na possibilidade de ter ataques recorrentes, chora. Na última cena, ele se vê sendo zombado por Gauguin e por seu pai. O motivo da chacota é que Vincent vendera um único quadro. O público é informado de que, nos 3 meses após sua saída de St. Rémy, van Gogh pintou 60 telas em 2 meses. Todavia, é incapaz de continuar suportando tanto sofrimento e atira em si próprio. Morre nos braços de Theo 2 dias depois.
The yellow house
Gênero — Drama/Biografia37
Diretor e produtor — Chris Durlacher
Intérpretes — John Simm, John Lynch, Scott Handy e outros
Roteiro — Simon Bent
Ano — 2007
Estúdio — Talkback Thames
O filme The yellow house mostra a turbulenta amizade entre Paul Gauguin (John Lynch) e Vincent van Gogh (John Simm) durante as nove semanas em que moraram juntos em Arles. A Casa Amarela foi idealizada por Vincent para ser um ateliê de pintura de referência para muitos artistas. Nesse lugar, Gauguin seria o mestre de todos. A vinda do líder foi ansiosamente aguardada. Ao chegar ao local, Gauguin se surpreende com o que encontra. Vincent o recebe sujo e malvestido, a sua aparência é um contraste com a de Gauguin. Sua casa é suja e bagunçada. A casa não tem comida alguma além de pão. Vincent diz que ama café (no dia anterior tomara 23 xícaras) e que, apesar do caos aparente, a sua mente é arrumada. Também refere que dorme bem tarde e às vezes nem dorme.
Uma das primeiras ações de Gauguin é colocar ordem na casa e tentar moldar Vincent à sua maneira. Todos os hábitos de van Gogh são criticados, principalmente sua técnica de pintura, que Gauguin considera infantil. Enquanto ele planeja cuidadosamente cada pincelada, com tranquilidade, Vincent despeja grossas camadas de tinta sobre a tela, com velocidade e paixão. Gauguin também critica a necessidade que Vincent tem de olhar para aquilo que está sendo retratado na tela. Segundo ele, um bom artista deveria pintar de memória. A convivência entre os dois leva a irritabilidade de Vincent ao extremo. Os pintores se envolvem em inúmeras discussões. Entretanto, van Gogh muda sua técnica para tentar agradar Gauguin, que escreve a Theo para dizer que seu irmão fizera enorme progresso.
Tentando pintar como Gauguin, Vincent se torna triste, perde o apetite, passa bastante tempo quieto, com o olhar perdido. Enfim, se irrita porque o amigo fica o tempo todo lhe dizendo o que fazer. Van Gogh quebra uma cadeira e acusa Gauguin de provocá-lo. Na manhã seguinte, acorda calmo, diz que tem “uma vaga memória de tê-lo ofendido” e pede desculpas, caso tenha ocorrido. Ele vai à mercearia, tem uma conversa ininteligível sobre vegetais e, de repente, esquece o que ia dizer e não completa a frase. A vendedora olha para ele com perplexidade. Os pintores fazem as pazes, organizam a casa e compartilham uma refeição.
Ao longo das semanas, Vincent passa a abusar no consumo de absinto e as discussões se tornam mais frequentes e violentas. Ao descobrir que Theo conseguiu vender um quadro de Gauguin, van Gogh fica furioso e desconta sua raiva quebrando objetos da casa. Vai para o bar e, após muita insistência, consegue convencer o vendedor a trocar uma garrafa de absinto por um quadro. “Ninguém quer olhar para isso”, diz o homem. Humilhado e se sentindo um fracasso, Vincent fica completamente bêbado e é resgatado por Gauguin.
Van Gogh volta a ter dias de tranquilidade, pintando com Gauguin. Todavia, a paz entre os dois dura pouco. Após uma discussão, van Gogh volta a destruir coisas e faz uma inscrição na parede, em tinta vermelha: “Eu sou o Espírito Santo e sou são de espírito”. Em seguida, encosta-se na parede, como se estivesse sendo crucificado. Durante um jantar, Vincent insulta Gauguin e sua acompanhante, manda o amigo embora e joga toda a comida no chão. Gauguin decide ir embora, Vincent se arrepende e vai atrás, mas já é tarde. Com um beijo no rosto, Gauguin se despede de Vincent e parte.
Ao retornar para casa, enquanto amola uma navalha, Vincent diz que Judas traiu o filho do Homem com um beijo e corta a sua orelha para se curar do mal. Gauguin encontra Theo, em Paris, para contar o que aconteceu. Lamenta e se questiona se poderia ter feito algo para impedir. Ele retorna para Arles, encontra Vincent dormindo e se despede. Van Gogh e Gauguin nunca mais voltaram a se encontrar. Dezoito meses depois, Vincent comete suicídio. Gauguin viveu mais 15 anos, a maior parte deles, em exílio voluntário, no Pacífico.
Van Gogh: painted with words
Gênero — Documentário/Drama38
Apresentação e produção — Alan Yentob
Direção — Andrew Hutton
Intérpretes — Benedict Cumberbatch e Jamie Parker
Ano — 2010
Estúdio — BBC
No docudrama Van Gogh: painted with words, cada palavra dita pelos atores foi retirada das cartas que Vincent van Gogh (Benedict Cumberbatch) escreveu ao seu irmão Theo (Jamie Parker). Nada foi imaginado, é tudo verdadeiro, informa o narrador. Ao longo das correspondências, pode-se acompanhar a sensibilidade do pintor para a arte, a dificuldade com as relações familiares, os problemas sociais e financeiros e suas oscilações de humor.
A história começa a ser contada a partir da noite de 23 de dezembro de 1888, quando, após discutir com Gauguin, Vincent tem um surto psicótico, corta a própria orelha e a entrega para uma prostituta. A polícia o encontra deitado no seu quarto sobre uma poça de sangue e o leva para o hospital de Arles, onde ele é colocado em uma cela isolada. Lá, Vincent se queixa de fraqueza, alucinações, insônia e ansiedade. Mais tarde, conta ao irmão que a vizinhança fizera uma petição contra ele, por considerá-lo inadequado para viver em liberdade. Seus vizinhos dizem que ele sofre de alguma doença mental, perturba as pessoas da cidade e é uma ameaça à segurança pública.
O narrador conta que Vincent havia crescido na pequena cidade de Zundert, era filho do reverendo Theodorus van Gogh, que o mandara para o internato até completar 16 anos. Foi nessa escola que Vincent aprendeu fundamentos sobre desenho e se tornou grande conhecedor de línguas estrangeiras. Trabalhando como vendedor, Vincent mora em Londres e Paris. Quando os irmãos Vincent e Theo começam a trocar cartas, têm, respectivamente, 19 e 15 anos de idade. À medida que Vincent descobre seu entusiasmo em visitar museus, divide suas experiências com o irmão e se mostra cada vez mais interessado por arte e literatura. Vindo de uma família religiosa, ele também se dedica ao estudo bíblico. Durante esse período, suas cartas para o irmão são preenchidas com fanatismo religioso.
Ao retornar para a Holanda, Vincent convence o seu pai a apoiar sua tentativa de ser pastor, mas tem dificuldades com os estudos e desiste após menos de 1 ano. Sua última tentativa de seguir uma vida religiosa é como missionário em Borinage. Sentindo necessidade de fazer justiça aos trabalhadores das minas, Vincent se dedica intensamente a eles e doa todos os seus pertences para tentar amenizar seu sofrimento. As suas atitudes fazem seu pai cogitar interná-lo em um hospital psiquiátrico. Durante esse período, Vincent escreve ao irmão: “Você sabe que muitas vezes negligenciei minha aparência, admito, e admito que é chocante. Mas veja, problemas financeiros e pobreza têm algo a ver com isso, e, então, um profundo desânimo também tem algo a ver com isso.”
Ao ver os desenhos feitos pelo irmão em Borinage, Theo o encoraja a aprimorar seu talento artístico.
De volta à casa dos pais, Vincent se apaixona perdidamente por sua prima Kee e é rejeitado. Ele vai até sua casa, põe a mão na chama de uma lamparina e pede para vê-la pelo tempo que conseguir manter a mão no fogo. Mas os pais de Kee não permitem o encontro. Após discutir impetuosamente com seu pai, Vincent é expulso de casa. Em seguida, escreve a Theo dizendo que nunca sentiu tanta raiva na vida.
Ele pede a Theo auxílio financeiro para que continue seu trabalho com a pintura. Vincent passa a frequentar prostíbulos, contrai sífilis e passa semanas se tratando em um hospital. Pouco depois, conhece Sien e a leva para morar com ele. Essa relação causa ainda mais desgosto para a família do que a situação relativa a Kee. Sem o apoio de Theo e pressionado pela família, o pintor abandona Sien e vai morar no campo.
A vida isolada em um local ermo deixa Vincent “deprimido”. Então ele volta para a casa dos pais e se sente como um “cachorro incômodo”. Seu pai diz que “não há como mudar o fato de que Vincent é excêntrico”. Solitário, Vincent alivia todo o seu sofrimento trabalhando. Investe bastante tempo e esforço pintando o quadro “Os Comedores de Batatas”, mas não agrada. Theo faz críticas sutis. Mas Vincent também pede a opinião de seu amigo Rappard, que fica indignado com a audácia de Vincent por pintar algo de tão baixa qualidade e enviar para ele. Na mesma época, o pastor Theodorus morre. Embora as cartas de Vincent nessa época pouco mencionassem o fato, o artista fica abalado.
Vincent vai morar em Paris, onde o impressionismo, que já dominava o meio artístico havia uma década, está em transição. Está decidido a fazer parte desse movimento. Três meses depois, o pintor fica frustrado e entediado na escola de arte e vai embora, para voltar a pintar à sua própria maneira.
Nesse período, busca inspiração na pintura de Rembrandt. O narrador chama a atenção para o fato de que Vincent começa uma série de autorretratos que passam por uma progressiva paleta de cores, das mais escuras para as mais iluminadas, sob influência do movimento artístico da época e a partir da mudança da percepção de Vincent sobre si mesmo. Em seguida, o pintor começa uma série de gravuras japonesas. Passa a consumir absinto com frequência e sua saúde se fragiliza ainda mais. A relação com o irmão se torna conflituosa. Theo considera insuportável a convivência com Vincent. Cansado de Paris e das brigas com o irmão, Vincent se muda para Arles.
Ao chegar à Casa Amarela, o pintor sente-se revigorado por deixar Paris e ir morar no campo. Acredita que ali produzirá o seu legado e lamenta não ter encontrado essa cidade antes. Entretanto, após passar dias trabalhando sozinho, se sente “deprimido”. A cena mostra Vincent no café, dizendo: “Assim, muitos dias se passam sem que eu diga uma palavra a ninguém, exceto para pedir ceia ou um café. E tem sido assim desde o início. Sozinho”.
Para mudar essa situação, o pintor idealiza transformar sua casa em um local que possa ser frequentado por muitos artistas. Ele imagina que se sentiria melhor se Gauguin estivesse com ele nesse empreendimento e escreve uma carta para convidá-lo. Animado, se dedica a decorar a casa. Nesse período, van Gogh envia para Theo o quadro “Noite Estrelada sobre o Ródano”.39 O irmão aprecia o resultado. Todavia, enquanto bebe, Vincent lamenta seu fracasso nas vendas.
Com a chegada de Gauguin, van Gogh se anima, porém o contraste entre os dois é marcante, a começar pelas técnicas de pintura. Vincent pintava o que vê e sente, enquanto Gauguin, em regra, pinta de memória. Sob a influência do amigo, Vincent passa a pintar de memória e usar com mais frequência a cor amarela nos seus quadros. Entretanto, sente dificuldades em trabalhar sem um modelo visual e volta a pintar utilizando a sua técnica anterior. De Paris chegam notícias de que os quadros de Gauguin estão vendendo bem. Todavia, Vincent continua sem vender nada. Ele volta a consumir álcool com frequência, seu comportamento fica cada vez mais estranho e isso deixa Gauguin exasperado. “Vincent e eu não podemos viver lado a lado sem problemas”, conclui Gauguin.
Em dezembro de 1888, ele pinta o quadro de van Gogh pintando girassóis. Ao ver o retrato, Vincent diz: “Sou eu, né? Mas sou eu enlouquecido”.
Alguns dias depois, os dois têm uma violenta discussão. Sobre essa noite, Gauguin escreve que tinha saído da casa para tomar ar fresco. “Foi quando ouvi atrás de mim um pequeno passo bem conhecido, rápido e irregular. Virei-me no exato momento em que Vincent se precipitava sobre mim com uma navalha aberta na mão”, relata Gauguin.
Vincent volta à Casa Amarela e, com a mesma navalha que usou para ameaçar Gauguin, mutila a própria orelha esquerda. No hospital em Arles, o pintor é isolado em um quarto acolchoado. Van Gogh pinta o “Autorretrato com a Orelha Cortada”40 e se sente aliviado, porque, no hospital, todos ao seu redor também estão doentes como ele. Assim, não se sente sozinho.
Apesar de sua instabilidade mental, encontra algum conforto em suas pinturas e, após 5 meses internado, consciente da precariedade do seu estado mental, tem medo de voltar a morar sozinho. Com o apoio de Theo, decide se internar no asilo de St. Rémy. Vincent passa dias ou até mesmo semanas incapaz de trabalhar, mas, em outros períodos, é extremamente produtivo e criativo, enviando dúzias de quadros a Theo. O pintor se sente maravilhado com a vizinhança: “Que terra linda, que céu azul, que sol! Meu pincel flui como o arco de um violino...”.
De St. Rémy, Vincent envia para Theo um dos seus quadros mais famosos: “Noite Estrelada”.39 Nesse período, recebe sua primeira e única resenha feita por um crítico de arte. Elogios não foram poupados. Com medo de ficar rotulado como o pintor louco, van Gogh pede a ajuda de Theo.
Dr. Peyron relata a Theo que Vincent, durante o ano em que esteve em St. Rémy, teve vários ataques e tentou se envenenar com tinta e parafina. Todavia, entre os ataques, tinha extrema clareza e lucidez. Vincent pede para deixar o asilo e se muda para Auvers, a fim de encontrar o Dr. Gachet. Acordando todos os dias às 5h, van Gogh se impõe uma rotina rígida de trabalho e chega a produzir um quadro por dia. Após pintar o retrato de Gachet, Vincent duvida da capacidade do médico para ajudá-lo.
Em julho de 1890, o pintor faz uma rápida visita a Theo em Paris. Após ver as dificuldades do irmão para sustentar a família, Vincent diz que representa um perigo para Theo, um fardo que pesa nas despesas. Sente-se sozinho, fracassado e sem esperança. Na última carta endereçada ao irmão, em 23 de julho de 1890, não fez qualquer menção de despedida, não havendo indício algum do que estava prestes a acontecer. Apenas 4 dias depois, vai para o campo de trigo e atira em si mesmo no abdome. Apesar do ferimento, consegue voltar para a hospedaria, mas morre 2 dias depois, com Theo ao seu lado.
O narrador conclui o documentário dizendo que, em vida, van Gogh vendeu apenas uma pintura, mas hoje seus quadros valem uma fortuna, o que, ironicamente, Vincent parecia saber que aconteceria.
“Estamos vivendo aqui em um mundo da pintura ocupado por pessoas que valorizam o dinheiro. Não pense que estou imaginando isso. As pessoas pagam muito pelo trabalho quando o próprio pintor está morto”, escreveu Vincent.
Doctor Who — Vincent e o doutor
Título original — Doctor Who: “Vincent and the Doctor”41
Gênero — Série de ficção científica
Roteiro — Richard Curtis
Direção — Jonny Campbell
Produção — Patrick Schweitzer e Tracie Simpson
Intérpretes — Matt Smith, Karen Gillan e Tony Curran
Ano — 2010
Neste episódio da série de ficção científica, Doutor Who (Patrick Schweitzer), um detetive capaz de viajar no tempo, e sua ajudante Amy estão visitando o Museu de Orsay, quando percebem uma figura estranha em um dos quadros de van Gogh. Os dois decidem viajar ao passado, ao encontro de Vincent (Tony Curran), a fim de solucionar o mistério na pintura.
Ao pedir informações na cidade, as pessoas dizem que van Gogh é um bêbado, um louco e que nunca paga suas contas. Assim que o encontram, o pintor briga com o Doutor e questiona se ele é mais um dos médicos que seu irmão Theo insiste em enviar para examiná-lo. Uma pessoa da vila é assassinada de forma misteriosa. Embora Vincent estivesse em outro local no momento em que o ataque ocorreu, por ser louco ele é acusado.
Vincent concorda em abrigar o Doutor e sua ajudante em sua casa, suja e bagunçada. Lá, Vincent faz um discurso inflamado sobre a sua capacidade de ouvir as cores. Do lado de fora da casa, Amy é atacada e grita. Ao chegar ao local, Vincent se assusta com algo que só ele é capaz de ver e se torna agressivo. Após conseguir espantar a criatura, invisível aos olhos do Doutor, Vincent faz um desenho do monstro.
No dia seguinte, o Doutor encontra Vincent chorando na cama, sentindo-se sem esperança, porque, quando o Doutor e sua ajudante se forem, ele voltará a ficar sozinho: “Serei deixado, mais uma vez, com o coração vazio e sem esperança”.
Vincent fica irritado, expulsa o Doutor da sua casa e volta a chorar. Em seguida, tranquilo, diz que está pronto para ajudar a capturar a criatura. Ele diz a Amy: “Às vezes essas mudanças de humor me torturam por semanas, meses, mas agora estou bem”.
Com o mistério solucionado, o Doutor, Amy e Vincent deitam-se no chão para admirar o céu. O pintor fala sobre a vida e a natureza com fascinação. Percebendo a angústia de Vincent por se considerar um pintor fracassado e miserável, o Doutor o convida para visitar o Museu de Orsay do presente e ver “as maiores pinturas da história”. Surpreso, van Gogh se emociona ao ver tantas pessoas admirando os seus quadros. O Doutor pede para que o professor de arte no local diga sua opinião sobre Vincent:41
| Van Gogh é o melhor pintor de todos. Certamente o melhor pintor, o mais popular de todos os tempos. O mais amado! Seu comando das cores, o mais magnífico. Ele transformou a dor de sua vida atormentada em beleza estática. É fácil retratar a dor, mas usar sua paixão para retratar a dor, a alegria e a magnificência de nosso mundo, ninguém além dele tinha feito isso. Talvez ninguém nunca mais faça. Para mim, esse homem estranho e selvagem que rugia pelos campos de Provence não era apenas o melhor artista do mundo, mas, também, um dos maiores homens que já existiu. |
Com amor, van Gogh
Título original — Loving, Vincent42
Gênero — Animação/Drama
Roteiro e direção — Dorota Kobiela
Codireção, corroteirista e produtor — Hugh Welchman
Intérpretes — Douglas Booth, Robert Gulaczyk, Eleanor Tomlinson, Jerome Flynn e outros
Ano — 2017
Estúdio — BreakThru Films e Trademark Films
Com amor, van Gogh é a primeira animação completamente pintada à mão. A história foi baseada nas cartas de Vincent ao seu irmão Theo. O filme se inicia informando que o pintor atirou em si mesmo. Um ano após sua morte, o carteiro que sempre entregava suas correspondências encarrega o filho, Armand, de entregar a última carta que van Gogh endereçou a Theo. À medida que tenta cumprir sua missão, o rapaz fica intrigado com as circunstâncias da morte do artista e tenta solucionar o mistério, visitando os locais por onde van Gogh passou, conversando com as pessoas que o conheceram e imaginando como ele se sentiu.
Em Arles, Armand descobre que Vincent sofria com a hostilidade da vizinhança. As crianças o atormentavam e seus vizinhos chegaram a fazer uma petição para expulsá-lo da cidade. Ele não tinha nenhum amigo, exceto por Gauguin. Mas a relação entre os dois ficou complicada, Vincent se tornou agressivo e, após uma briga, cortou a própria orelha e a entregou para uma prostituta. Em seguida, voltou para casa e ficou chorando sozinho no quarto, sentindo-se abandonado. Após tal episódio de insanidade, se internou no asilo St. Rémy e se curou.
Armand descobre que Theo também morreu, 6 meses após seu irmão. Entretanto, o rapaz estava decidido a entregar a carta para a pessoa mais próxima a Vincent. Então, decide ir para Auvers-sur-Oise, em busca do Dr. Gachet. O médico, que foi amigo íntimo de Vincent, diz que a infelicidade do pintor vinha desde a infância, pois se sentia inadequado na família e, mais tarde, um fracassado na vida profissional. Seis semanas antes de morrer, escreveu uma carta em que dizia estar totalmente calmo, em estado normal. “Como é possível que uma pessoa passe de absolutamente calmo a suicida em 6 semanas?”, questiona Armand.
Seu humor era instável; ele era imprevisível. Naquela manhã, ele saiu para o campo, com o seu cavalete. Não deixou nenhum bilhete de despedida, mas atirou em si mesmo.
Quanto mais Armand investiga, menos a morte de Vincent faz algum sentido. Segundo o Dr. Gachet, ele estava curado. A proprietária da hospedaria diz que Vincent estava feliz, era um homem quieto e pacífico. Ela conta ainda que van Gogh estava sempre pintando, fizesse chuva ou sol. Pintava o dia todo, escrevia longas cartas, lia livros enormes e pouco dormia. Seguindo os conselhos da jovem, Armand conversa com o barqueiro, a governanta e a filha do Dr. Gachet. No entanto, não faz grande progresso na investigação e retorna para a hospedaria. A proprietária diz que, no dia anterior à sua morte, Vincent escrevera uma carta ao irmão pedindo dinheiro para comprar material de pintura e que algo muito repentino deve ter acontecido para tê-lo deixado desequilibrado.
Armand escreve ao pai para informar que cada pessoa na cidade tem uma versão diferente sobre a morte de Vincent e o que lhe disseram não faz sentido. Então, ele decide ir ao campo de trigo, refazendo o caminho do pintor. “Imagino que, se ele queria se matar, por que não pegou a arma e finalizou o serviço? Ele mudou de ideia? Queria viver, afinal de contas?”, escreve o rapaz.
Armand descobre que a arma que matou van Gogh pertencia a um garoto que o atormentava. O objeto jamais foi encontrado, assim como o material de pintura que Vincent levou para o campo. Após conversar com muitas pessoas, cada vez mais convencido de que Vincent não cometera suicídio, Armand tenta encontrar respostas com o Dr. Gachet. Ele questiona como alguém pode passar de um estado de calma a um estado suicida em tão pouco tempo. O médico explica para o rapaz sobre a “melancolia”: “Os doentes mudam de repente, acham que a vida é uma alegria imensa e, 6 horas depois, estão em um poço de profundo desespero. Imagine as mudanças possíveis em 6 semanas”.
Gachet diz ainda que talvez Vincent aparentasse estar bem e realmente estivesse inicialmente bem, quando saiu do asilo esperançoso e com ânimo para trabalhar sem parar. Apesar disso, Vincent temia pelo seu futuro e o do irmão, contou o médico. O pintor se sentiu culpado por ter gastado tanto dinheiro de Theo, que agora nada tinha para dar segurança à sua família. Tudo o que o irmão de Vincent tinha era “um quarto cheio de pinturas que ninguém queria comprar”, afirma Gachet.
Todavia, Armand ainda não acredita que a preocupação com o dinheiro fosse motivo suficiente para van Gogh cometer suicídio. Gachet diz que, embora tentar se matar com um tiro no abdome seja fora do normal, nada o impediria de fazer algo improvável, afinal, o homem cortara a própria orelha e a entregara para uma prostituta, o que também não seria normal. O médico diz ainda que esteve com Vincent naquela noite e que o pintor lhe disse que atirara em si mesmo, tendo pedido que ninguém fosse culpado. “Ele queria morrer”, completa o médico.
Armand suspeita que Vincent estivesse tentando acobertar alguém. O Dr. Gachet se sente culpado porque discutira com o pintor, tendo perdido a cabeça e dito o que, como médico, não deveria: que Theo estava gravemente doente, poderia morrer a qualquer momento e Vincent era responsável pelo desgaste da saúde do irmão. O médico relata ainda as últimas palavras de Vincent, à beira da morte: “Talvez seja melhor para todos”.
No portal da eternidade
Título original — At Eternity’s Gate43
Gênero — Biografia/Drama
Direção — Julian Schnabel
Roteiro — Jean-Claude Carrière, Julian Schnabel e Louise Kugelberg
Intérpretes — Willem Dafoe, Rupert Friend, Oscar Isaac e outros
Ano — 2018
Estúdio — Diamond Films
Logo no início de No Portal da Eternidade, pode-se ver o pintor, sem nenhuma habilidade social, tentando convencer uma camponesa a posar para ele. Em Paris, Vincent encontra seu irmão Theo, seu maior incentivador, amigo e patrocinador. Na mesma cidade, o pintor, muito bem-vestido, encontra Gauguin pela primeira vez e se encanta pelo seu jeito de ser.
Ao se mudar para o interior, Vincent sente-se revigorado. Ele se deita no campo, sente a terra no rosto, abre os braços para o sol e ri. Ainda que esteja produzindo intensamente, seu sorriso é triste. Sua vida é solitária, os vizinhos o agridem, as crianças o perturbam. O seu isolamento é interrompido com a chegada de Gauguin. Este encontra um Vincent bem diferente daquele que conhecera em Paris. Está sujo, maltrapilho, é o avesso do amigo recém-chegado. Quando saem juntos para pintar, fica claro que as diferenças vão muito além das aparências. Gauguin critica a velocidade de Vincent e diz que suas pinturas mais parecem esculturas, de tanta tinta que ele usa. “Pinturas têm que ser feitas rápido! Eu não quero me acalmar, quanto mais rápido eu pinto, melhor eu me sinto!”, diz Vincent.
As diferenças entre os dois logo se tornam insuportáveis. Quando Gauguin decide ir embora, Vincent fica desesperado e implora que ele não vá.
No hospital, sem saber o que tinha acontecido, Vincent diz ao médico que há algo errado consigo:43
| Às vezes não sei o que fiz ou disse. Gauguin e eu brigamos. Não sei se o machuquei. Mas eu sei que peguei uma navalha e cortei uma das minhas orelhas. Eu queria dar para Gauguin como desculpas. Por quê? Só Deus sabe. E eu pensei que Gabi (uma prostituta) saberia onde Gauguin estava. Por isso, dei a ela. Eu acho que ela pensou que eu ia matá-la. Então ela chamou a polícia e me colocaram aqui. [...] Tem algo dentro de mim, não sei o que é. O que eu vejo mais ninguém vê, e isso me assusta. Eu acho que estou enlouquecendo. Acho que tem um espírito ameaçador ao meu redor, eu tentei cortá-lo fora de mim. |
Quando Theo vai visitá-lo, ele continua expressando sua perplexidade:43
| De vez em quando eu perco a cabeça, minha mente escapa de mim. Eles dizem que eu grito, choro, pinto o rosto com tinta para assustar as crianças. Mas eu não lembro de nada. Eu só vejo escuridão e ansiedade. Então me mandaram para cá. [...] Quando estou assim, não sei do que sou capaz. Eu poderia matar ou me jogar de um penhasco. |
Van Gogh chora e decide se internar voluntariamente no asilo St. Rémy. Apesar disso, é colocado em uma camisa de força e isolado. Seu humor é instável. Ele sente muita raiva e tristeza, e também se sente em paz. Pintar o deixa em paz.
Após passar quase 1 ano internado, Dr. Rey diz que não há nada mais que possa ser feito por Vincent ali. Então ele vai embora e procura o Dr. Gachet, para que ele o ajude a evitar novos ataques. Esse médico, por sua vez, diz que Vincent não é louco, é um artista, tem a hipersensibilidade de um artista, tudo o que precisa é pintar.
Poucas semanas depois, enquanto pinta no campo, 2 crianças brincando, sem querer atiram nele, enterram seu material de pintura e jogam a arma no rio. Com medo, elas pedem para Vincent não contar para os seus pais. Ele já estava mesmo cansado da vida. Parece que foi conveniente. Quando questionado sobre o que aconteceu, van Gogh respondeu: “Talvez eu tenha atirado em mim. Não lembro. Não culpe ninguém”.
Discussão
No geral, os filmes foram fiéis aos principais eventos da biografia do pintor, divergindo em detalhes que serão discutidos a seguir.
Aparência
Os primeiros aspectos que foram avaliados se referem à aparência dos atores escolhidos para interpretar Vincent e suas relações interpessoais. Em Sede de viver31 e Van Gogh: painted with words 38, a escolha de Kirk Douglas e Benedict Cumberbatch, respectivamente, sugere uma idealização do pintor, já que, na realidade, ele não tinha o corpo robusto, nem era atraente.
Em Vincent e o Doutor41, Tony Curran também representa um homem bonito que desperta o interesse romântico de Amy. Na interpretação feita por Jacques Dutronc, o pintor não é apenas atraente como também carismático, sedutor e faz sucesso com as mulheres. Um dos principais elementos desse filme é o tórrido romance entre Vincent e Marguerite, filha do Dr. Gachet. No entanto, na realidade, esse romance nunca aconteceu. Vincent era introspectivo e carecia de habilidades sociais, principalmente com mulheres. Até para lidar com modelos e prostitutas, mesmo pagando por isso, tinha dificuldades.
[importante] Uma das maiores mágoas do pintor foi a rejeição por parte de sua prima Kee, por quem ficou perdidamente apaixonado, como foi possível ver em Sede de viver31 e Van Gogh: painted with words”.38 Kee disse que jamais se casaria com alguém como ele. A insistência em conquistá-la causou tanto desconforto entre os familiares que Vincent foi expulso de casa. Theo também insistia com ele para que se vestisse e se portasse melhor, a fim de fazer contatos no meio artístico em Paris, mas ele nunca conseguiu fazer isso por muito tempo. Quanto à aparência e aos relacionamentos, os filmes Van Gogh — vida e obra de um gênio,34 The eyes of van Gogh,36 The yellow house37 e No portal da eternidade43 foram os que mais se aproximaram da realidade. Desde criança, van Gogh era considerado estranho e assim foi até o fim da vida. |
Excentricidade
Vincent não era chamado de “excêntrico” apenas por causa da aparência. A irritabilidade era uma característica notória desde muito jovem, o que o levou a ter inúmeros conflitos interpessoais. Sede de viver31 e Van Gogh — vida e obra de um gênio34 apresentam bem o homem temperamental de quem todos se queixavam: em vários momentos dos filmes, ele tem rompantes de raiva, quebra objetos, grita com as pessoas e mostra por que era tão difícil conviver com ele. Não foi à toa que viveu uma vida solitária. Esses dois filmes contam sua história a partir do período em que viveu em Borinage, onde, como visto em sua biografia, ele teve um episódio de mania com sintomas psicóticos. Contudo, a psicose durante esse evento não fica explícita em nenhum dos dois filmes.
Na obra Van Gogh: painted with words,38 é dito que o pai de Vincent cogitou interná-lo em um hospital psiquiátrico por causa da forma como estava agindo. Em The eyes of van Gogh,36 pode-se ver o quanto Vincent tinha se tornado um fanático religioso. Após falhar na sua tentativa de seguir a profissão do pai, ele se sentia destinado a cumprir uma missão divina em Borinage. Ao ser demitido por seu “comportamento insano”, ele fica furioso. Embora os filmes levem o público a pensar que o início da doença de Vincent foi em Borinage, no ano anterior ele já tinha apresentado um episódio de depressão com sintomas psicóticos, que não foi mostrado em nenhuma das obras analisadas.
Vida amorosa
Expulso de casa, fracassado na vida profissional e rejeitado pela prima, Vincent passou a se dedicar à vida artística e a frequentar prostíbulos. Nesse período, conheceu Sien e a levou, junto com seus filhos, para morar com ele, como mostrado em Sede de viver,31 Van Gogh — vida e obra de um gênio34 e Van Gogh: painted with words.38 A mulher tinha um temperamento tão terrível quanto o dele e só ele tinha algum interesse por ela. Morando com uma prostituta, à custa de Theo, o pintor desagradou sua família ainda mais. Pressionado, ele abandona a mulher. Contrariando a biografia, em Van Gogh — vida e obra de um gênio, o pintor é que sofre uma rejeição.
Theo e van Gogh
Como é exibido em Sede de viver,31 Van Gogh — vida e obra de um gênio34 e Van Gogh: painted with words,38 Vincent aceita o convite de Theo e vai morar com o irmão em Paris. No entanto, acaba atormentando a vida do irmão. Além de não seguir seus conselhos para lidar bem com os artistas locais, Vincent insulta todos os amigos de Theo. Aderindo à moda local, o pintor passa a consumir absinto em excesso, o que contribui para aumentar as brigas em casa.
Mais uma vez fracassando em conviver com alguém, Vincent vai morar em Arles. Estava prestes a completar 35 anos.
Gauguin e van Gogh
Em pouco tempo em Arles, van Gogh se sente sozinho e pede ajuda a Theo, que convence Gauguin a ir morar com Vincent. Em Van Gogh: painted with words,38 o narrador afirma que van Gogh estava deprimido nesse período e que suas cartas deixavam claro que “ele estava sofrendo de TB”. Quando Gauguin aceitou morar com ele, o humor de Vincent mudou completamente.
| [importante] Como fica claro em Sede de viver,31 Van Gogh — vida e obra de um gênio,34 The eyes of van Gogh,36 The yellow house,37 Van Gogh: painted with words38 e No portal da eternidade, a expectativa pela chegada de Gauguin deixa Vincent hipomaníaco. Ele se torna ainda mais criativo e produtivo, dorme cada vez menos, abusa de absinto, tabaco e café e fica cada vez mais irritado. Em 9 semanas, fica completamente maníaco, corta a própria orelha e é internado. Esse período é tão significativo na biografia de Vincent que um filme inteiro (The yellow house) foi produzido para contar o que aconteceu. |
Produção artística e agravamento da doença
Segue a forma como cada um dos filmes retrata a produção artística de Vincent e o agravamento de sua doença.
Sede de viver,31 mostra que van Gogh vira noites pintando muitos quadros em pouco tempo. Nesse período, bebe com frequência até cair. Van Gogh — Vida e Obra de um Gênio,34 mostra Vincent aguardando a chegada de Gauguin na Casa Amarela. Ora tranquilo, ora furioso, em uma das cenas, ele sai para pintar girassóis, irrita-se com o resultado e quebra o quadro inteiro. Também nesse período passa a beber com mais frequência em prostíbulos. Em The eyes of van Gogh,36 o pintor lembra como se sentiu com a chegada de Gauguin em Arles: “Eu tenho muitos planos na minha cabeça. Ideias estão vindo em enxames. Eu não sei se vou começar cinco telas ou dez. É maravilhoso!”
Com um discurso apaixonado, van Gogh se vê dizendo a Gauguin que eles poderiam mudar o mundo e educar as pessoas com obras para a eternidade.
Van Gogh: painted with words38 mostra que, com a chegada de Gauguin, van Gogh se anima, porém o contraste entre os dois é marcante, a começar pelas técnicas de pintura. Vincent pinta o que vê e sente, enquanto Gauguin, via de regra, pinta de memória. Sob influência do amigo, Vincent passa a pintar de memória e usar com mais frequência a cor amarela nos seus quadros. Entretanto, sente dificuldades em trabalhar sem um modelo visual e volta a pintar com a sua técnica anterior. Em No portal da eternidade,43 Gauguin critica a velocidade de Vincent e diz que ele usa tanta tinta que suas pinturas mais parecem esculturas. “Pinturas tem que ser feitas rápido! Eu não quero me acalmar, quanto mais rápido eu pinto, melhor eu me sinto!”, diz Vincent.
A maneira de pintar era apenas um dos inúmeros motivos de discórdia entre os dois pintores e logo a convivência ficou insuportável. Quando van Gogh descobre que os quadros de Gauguin estão vendendo bem, ele passa a beber com mais frequência.
Em The yellow house,37o estilo de vida precário de Vincent e seu consumo excessivo de absinto foram bem explorados. Em Sede de viver,31 aparece uma cena em que os pintores discutem violentamente e Vincent atira um copo em Gauguin. Isso de fato aconteceu, não na Casa Amarela, mas, sim, no café que os dois frequentavam.13 Na manhã seguinte, Gauguin acorda com Vincent lhe observando, como exibido em Van Gogh — vida e obra de um gênio.34 Muito tranquilo e com amnésia, Vincent diz: “Meu caro Gauguin, tenho uma vaga lembrança de que ontem à noite o ofendi”.
O filme The yellow house37 mostra que, após essa conversa, Vincent sai para comprar vegetais, diz algo ininteligível para a vendedora e esquece o que queria dizer. Em casa, ele escreve na parede: “Eu sou o Espírito Santo e sou são de espírito”. Quando Gauguin diz que vai embora, no auge do surto psicótico, Vincent corta a própria orelha. O filme que melhor retrata tamanha loucura é Van Gogh — vida e obra de um gênio.34
[importante] As discussões com o amigo o levaram a voltar a beber com mais frequência. No entanto, de acordo com o relato de Gauguin sobre o colapso de Vincent,13 na noite anterior, este tinha tomado apenas “um absinto leve”. Todavia, já estava apresentando sinais de agitação dias antes de cortar a orelha. “Nos últimos tempos de minha estada, Vincent tornou-se excessivamente brusco e barulhento, depois taciturno”, escreveu Gauguin. Ao que tudo indica, na noite de 23 de dezembro de 1888, quando cortou a própria orelha, van Gogh não estava bêbado, mas, sim, maníaco. |
Internações
Os filmes Sede de Viver e Van Gogh — vida e obra de um gênio31,34 contam de forma superficial que, após cortar a orelha, Vincent foi internado no hospital de Arles, depois passou cerca de 1 ano no asilo em St. Rémy e foi considerado curado. O filme Van Gogh: painted with words38 mostra o pintor no hospital de Arles, em um quarto acolchoado, sentindo-se aliviado porque todos ao seu redor também estão doentes, então ele não se sente sozinho. Em No portal da eternidade,43 ele recebe a visita de Theo e tenta explicar como foi parar ali: “De vez em quando perco a cabeça, minha mente escapa de mim. Eles dizem que grito, choro, pinto o rosto com tinta para assustar as crianças. Mas não me lembro de nada. Só vejo escuridão e ansiedade. Então me mandaram para cá”.
Inseguro sobre o seu estado mental, ele prefere se internar em St. Rémy. The eyes of van Gogh36 foi o filme que melhor representou esse momento da biografia do pintor. Alexander Barnett foi ousado quando decidiu escrever, interpretar e dirigir esse filme. Inteiramente baseado no período em que Vincent esteve no asilo, a loucura de Vincent é mostrada de forma fiel. Com a intenção de levar o público a ver o mundo com “os olhos de van Gogh”, Alexander Barnett deu atenção especial à trilha sonora: nos momentos que Vincent sente medo e ansiedade, o público ouve um som que denota apreensão. Durante os episódios psicóticos, é reproduzido um som profundamente angustiante. Esse filme se propõe a mostrar os elementos que mais atormentaram a vida do pintor:
- Rejeição desde a infância.
- Frustrações amorosas.
- Dependência financeira.
- Fracasso profissional.
Apesar de tudo o que sofreu durante a internação, inclusive as tentativas de suicídio, van Gogh teve momentos de intensa criatividade. Como é contado em Van Gogh: painted with words, foi da janela do seu quarto em St. Rémy que o pintor fez uma das suas telas mais famosas: “Noite Estrelada”.
Após sair de St. Rémy, Vincent vai para Auvers-sur-Oise em busca da ajuda do Dr. Gachet. Como pode ser visto em “Sonhos: Corvos”33 e “Vincent e o Doutor”,41 o pintor mudou de cidade mais uma vez, mas continuou sendo ridicularizado pela vizinhança.
O filme “Van Gogh”35 exibe os últimos 2 meses de vida do pintor. Como já foi discutido anteriormente, o relacionamento de Vincent com as mulheres nessa obra foi ficção. No entanto, o filme acerta ao mostrar o Dr. Gachet como um médico que não fazia ideia do estado de saúde de Vincent. Ele chega a chamar o pintor de hipocondríaco e, ao longo do filme, apresenta diferentes possíveis explicações para os ataques de Vincent.
O pintor parecia se sentir bem e pintava um quadro por dia. Mas voltou a ficar instável. Antes tranquilo e sociável, Vincent ficou impaciente, irritado, depois se tornou excessivamente animado, aumentou sua atividade sexual, brincou com a cunhada de forma inadequada, brigou com o irmão, quebrou objetos e, por fim, ficou melancólico. Sabe-se que o que vem a seguir é a morte do pintor, contudo, é sobre esse acontecimento que os filmes mais recentes divergem dos seus antecessores.
Morte de van Gogh
O filme Sede de viver31 foi baseado na primeira biografia de van Gogh, Lust for life,11 publicada em 1934. Foi assim que a história do suicídio se popularizou. Entretanto, Vincent nunca escreveu um bilhete de despedida. De acordo com a biografia mais completa e atual,12 ninguém sabe o que realmente aconteceu e as circunstâncias da morte não estão devidamente esclarecidas. A hipótese de suicídio é, portanto, questionável. De maneiras diferentes, Van Gogh — vida e obra de um gênio, Van Gogh, The eyes of van Gogh, The yellow house e Van Gogh: painted with words afirmam que o pintor se suicidou.34,36–38
O filme Com amor, van Gogh42 muda o rumo da biografia do pintor no cinema. Vincent não é o personagem principal do filme, mas, sim, Armand Roulin (Douglas Booth), filho do carteiro com quem o pintor tinha amizade. Armand percorre os locais por onde van Gogh passou, a fim de desvendar o que aconteceu nos seus últimos dias de vida. Pela primeira vez, um filme apresenta a hipótese de que o pintor pode, na verdade, ter sido baleado por um dos meninos que costumava pregar peças nele. No filme, Armand investiga as divergências e não consegue chegar a uma conclusão. O Dr. Gachet tenta encerrar o mistério dizendo que Vincent tinha o desejo de morrer e não queria que ninguém fosse culpado pelo seu fim.
Já o filme No Portal da Eternidade43 nega que van Gogh tenha cometido suicídio. Enquanto brincavam, 2 garotos disparam uma arma por acidente. Quando veem Vincent ferido, eles escondem seu material de pintura, se livram da arma e pedem para que ele não conte a verdade. Conformado com a morte conveniente, Vincent diz que talvez tenha atirado em si próprio, mas não se lembra e pede para que ninguém seja culpado.
Considerações finais
Os filmes aqui analisados realçam diferentes momentos da biografia de van Gogh. Embora estejam contando a mesma história, eles complementam as lacunas uns dos outros.
Como foi visto, a partir da publicação de uma biografia mais completa, o desfecho da história mudou, despertando dúvidas sobre um suicídio que parecia um caso encerrado. Apesar das divergências sobre as circunstâncias da morte, as 10 obras analisadas mostram que van Gogh sofria com sintomas compatíveis com o TB.
Referências
- IMDb [base de dados]. Seatlle: Amazon; c1990–2021. Disponível em: https://www.imdb.com/.
- Cheniaux E. Transtorno bipolar: psicopatologia, curso clínico e subtipos. In: Associação Brasileira de Psiquiatria; Nardi AE, Silva AG, Quevedo JL, organizadores. PROPSIQ Programa de Atualização em Psiquiatria: Ciclo 8. Porto Alegre: Artmed Panamericana; 2018. p. 93–120. (Sistema de Educação Continuada a Distância, v. 2).
- Goodwin FK, Jamison KR. Doença maníaco-depressiva: transtorno bipolar e depressão recorrente. ed. Porto Alegre: Artmed; 2010.
- Bobo WV. The diagnosis and management of bipolar I and II disorders: clinical practice update. Mayo Clin Proc. 2017 Oct;92(10):1532–51. https://doi.org/10.1016/j.mayocp.2017.06.022
- Cheniaux E. A mania ansiosa ou depressiva de Kraepelin: relato de um caso. Braz J Psychiatry. 2011 Jun;33(2):213–5. https://doi.org/10.1590/S1516-44462011000200021
- Cheniaux E. Manual de psicopatologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2015.
- Cheniaux E, Filgueiras A, Silva RA, Silveira LA, Nunes AL, Landeira-Fernandez J. Increased energy/activity, not mood changes, is the core feature of mania. J Affect Disord. 2014 Jan;152–4:256–61. https://doi.org/10.1016/j.jad.2013.09.021
- Jamison KR. Touched with fire: manic-depressive illness and the artistic temperament. New York: Free Press; 1993.
- Santosa CM, Strong CM, Nowakowska C, Wang PW, Rennicke CM, Ketter TA. Enhanced creativity in bipolar disorder patients: a controlled study. J Affect Disord. 2007 Jun;100(1-3):31–9. https://doi.org/10.1016/j.jad.2006.10.013
- Plucker JA, Beghetto RA, Dow GT. Why isn't creativity more important to educational psychologists? Potentials, pitfalls, and future directions in creativity research. Educ Psychol. 2004 Jun;39(2):83–96. https://doi.org/10.1207/s15326985ep3902_1
- Stone I. Lust for life: the classic, bestselling biographical novel of Vincent Van Gogh. New York: Plume; 1934.
- Naifeh S, Smith GW. Van Gogh: a vida. São Paulo: Companhia das Letras; 2012.
- van Gogh V. Cartas a Theo. 2. ed. Porto Alegre: L&PM Pocket; 2002.
- van Gogh V. Retrato do doutor Gachet [pintura]. 1890. 1 tela, tinta a óleo, 67 x 56 cm.
- Jaspers K. Strindberg and van Gogh: an attempt at a pathographic analysis with reference to parallel cases of Swedenborg and hölderlin. Tucson: University of Arizona; 1977.
- Loftus LS, Arnold WN. Vincent van Gogh's illness: acute intermittent porphyria? BMJ. 1991 Dec;303(6817):1589–91. https://doi.org/10.1136/bmj.303.6817.1589
- Arnold WN. The illness of Vincent van Gogh. J Hist Neurosci. 2004 Mar;13(1):22–43. https://doi.org/10.1080/09647040490885475
- Correa R. Vincent van Gogh: a pathographic analysis. Med Hypotheses. 2014;82(2):141–4. https://doi.org/10.1016/j.mehy.2013.11.022
- Gastaut H. Vincent van Gogh's disease seen in the light of new concepts of psychomotor epilepsy. Ann Med Psychol (Paris). 1956 Feb;114(2):196–238.
- Yacubian EMT. A doença e a arte de Vincent van Gogh. 2. ed. São Paulo: Leitura Médica; 2010.
- Lee TC. Van Gogh’s vision: digitalis intoxication? 1981 Feb;245(7):727–9. https://doi.org/10.1001/jama.1981.03310320049025
- Weissman E. Vincent van Gogh (1853-90): the plumbic artist. J Med Biogr. 2008 May;16(2):109–17. https://doi.org/10.1258/jmb.2007.007023
- Arenberg IK, Countryman LL, Bernstein LH, Shambaugh GE Jr. Vincent's violent vertigo. An analysis of the original diagnosis of epilepsy vs. the current diagnosis of Meniére's disease. Acta Otolaryngol Suppl. 1991;485:84–103. https://doi.org/10.3109/00016489109128048
- Hemphill RE. The illness of Vincent Van Gogh. Proc R Soc Med. 1961 Dec;54(12):1083–8.
- Jamison KR, Wyatt RJ. Vincent van Gogh's illness. BMJ. 1992 Feb 29;304(6826):577. https://doi.org/10.1136/bmj.304.6826.577-c
- Coringa [filme]. Direção: Todd Phillips. Los Angeles: Warner; 2019.
- Netflix [plataforma]. Los Gatos; c1997–2021. Disponível em: https://www.netflix.com/.
- Prime vídeo [plataforma]. Seatlle: Amazon; c1996–2021. Disponível em: https://www.primevideo.com/.
- Vimeo [plataforma]. New York; c2021. Disponível em: https://vimeo.com/.
- YouTube BR [plataforma]. San Bruno; c2021. Disponível em: https://www.youtube.com/.
- Lust for life [filme]. Direção: Vincente Minelli. Los Angeles: Warner; 1957.
- van Gogh V. Campo de trigo com corvos [pintura]. 1890. 1 tela, tinta a óleo, 50,5 x 103 cm.
- Dreams [filme]. Direção: Akira Kurosawa. Los Angeles: Warner; 1990.
- Vincent & Theo [filme]. Direção: Robert Altman. London: Belbo; 1990.
- van Gogh [filme]. Direção: Maurice Pialat. Ranchi: Erato; 1991.
- The eyes of van Gogh [filme]. Direção: Alexander Barnett. New York: Van Gogh; 2005.
- The yellow house [filme]. Direção: Chris Durlacher. London: Talkback Thames; 2007.
- van Gogh: painted with words [filme]. Direção: Andrew Hutton. London: BBC; 2010.
- van Gogh V. Noite estrelada sobre o Ródano [pintura]. 1888. 1 tela, tinta a óleo, 72 cm x 92 cm.
- van Gogh V. Autorretrato com a orelha cortada [pintura]. 1889. 1 tela, tinta a óleo, 60 x 49 cm.
- Doctor Who: Vincent and the doctor [filme]. Direção: Jonny Campbell. London: BBC; 2010.
- Loving, Vincent [filme]. Direção: Dorota Kobiela. London: Trademark Films; 2017.
- At eternity’s gate [filme]. Direção: Julian Schnabel. Locarno: Diamond; 2018.
Autores
Thiara Cruz
Elie Cheniaux