Psicofármacos envolvidos
Diferentes psicofármacos interferem no metabolismo dos anticoagulantes orais e, consequentemente, no tempo de coagulação, aumentando o risco de sangramento. Entre eles, estão alguns antidepressivos tricíclicos (ADTs) (nortriptilina), os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs), o ácido valproico (AVP), o haloperidol e os fenotiazínicos.
Relatos de caso também apontam para aumento no tempo de protrombina com o uso de varfarina concomitante com trazodona.
A carbamazepina, além de diminuir os efeitos de anticoagulantes orais, por ativação das enzimas hepáticas, pode diminuir, embora raramente, o número de plaquetas, elevando o tempo de coagulação, o que pode provocar púrpuras, petéquias e até sangramentos.
O AVP pode provocar trombocitopenia reversível em cerca de 5% dos casos e disfunção plaquetária. Esses efeitos são dose-relacionados. O risco é maior em idosos, mulheres e na presença de níveis séricos > 80 microgramas/mL.1
Existem também os fármacos que, por serem hepatotóxicos, como o AVP e os antipsicóticos (APs) fenotiazínicos, podem alterar o tempo de protrombina, alterando, por extensão, o tempo de coagulação. Essa situação é especialmente relevante quando há hepatopatia prévia ao uso dos psicofármacos.
Os ISRSs podem aumentar em 2 vezes o risco de sangramento intestinal devido à disfunção plaquetária e à trombocitopenia, particularmente quando combinados com anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e anticoagulantes.
Existe relato de caso de um quadro de púrpura trombocitopênica trombótica induzida por bupropiona2 e de hemofilia adquirida com o uso de desvenlafaxina.
Manejo
- Em pacientes que estejam usando anticoagulantes e psicofármacos, deve-se ficar atento para as possíveis alterações nos tempos de protrombina, realizando exames de controle com mais frequência ou consultando o hematologista.
- No uso da carbamazepina e do AVP, deve-se ficar atento para a contagem de plaquetas no hemograma. Esses pacientes devem ter avaliação cuidadosa se forem submetidos à cirurgia.
- A diminuição das doses de AVP pode ser suficiente para a resolução do quadro.
Referências
Conteúdo originalmente publicado em: CORDIOLI, A. V.; GALLOIS, C. B.; ISOLAN, L. (Org.). Psicofármacos: consulta rápida. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.
- Vasudev K, Keown P, Gibb I, McAllister-Williams RH. Hematological effects of valproate in psychiatric patients: what are the risk factors? J Clin Psychopharmacol. 2010;30(3):282-5. PMID [20473063]
- Altintas ND, Izdes S, Yucel S, Suher M, Dilek I. A case of thrombotic thrombocytopenic purpura associated with bupropion. Int J Clin Pharmacol Ther. 2013;51(3):224-7. PMID [23391368]
Autores
Carolina Benedetto Gallois
Luciana Lopes Moreira
Lúcio Cardon
Mário Tregnago Barcellos
Pedro Lopes Ritter
Aristides Volpato Cordioli