Psicoterapia nos transtornos depressivos – Terapia psicodinâmica: Exemplo clínico
D., 35 anos, foi encaminhada para avaliação psiquiátrica por seu pneumologista, que a acompanhava em virtude de uma doença autoimune descoberta há cerca de 1 ano.
No encaminhamento, o médico assistente solicitou a avaliação por suspeita de um quadro depressivo associado ao diagnóstico recente da doença autoimune.
Nas primeiras avaliações, ficou claro que a paciente estava com sintomas depressivos moderados, como choro fácil, desânimo, fadiga e anedonia. Iniciou-se o uso de antidepressivos, porém sem resposta.
Ao longo das primeiras consultas, a paciente passou a falar de como via sua doença atual como um castigo, uma punição pelos males que havia feito ao longo da vida. Quando questionada a respeito dessa crença, revelou que, desde pequena, tinha a fantasia de ter estragado a vida de sua mãe quando nasceu, pois seus familiares sempre contaram que a mãe ficou impossibilitada de caminhar após seu parto, e isso acarretou consequências financeiras devastadoras para a família.
Apesar de sua mãe já ter falecido há 20 anos, a paciente seguia tendo sonhos e lembranças frequentes com ela e apresentava um discurso de culpa pela morte da mãe, por não ter conseguido estar com ela no dia em que faleceu no hospital.
A paciente também apresentava histórico de relações conjugais abusivas, com dois casamentos “fracassados”, segundo descrevia.
Ao longo da terapia, foi possível identificar como D. se relacionava com o terapeuta, sempre se desvalorizando, colocando-se em uma posição submissa, com dificuldade de fazer pedidos – por exemplo, quando estava passando mal em razão do problema pulmonar e estava proibida por seu pneumologista de caminhar, mesmo assim ia às consultas psiquiátricas (tinha de caminhar 20 minutos) para não desapontar o terapeuta.
Durante 2 anos de tratamento, foi abordado o tema da autodesvalorização, que estava associado a uma culpa generalizada por tudo de ruim que acontecia à sua volta.
D. começou a apresentar melhora ao reconhecer esse comportamento e suas motivações, diminuindo a sensação de culpa e o comportamento submisso em relação aos outros, podendo, por exemplo, cobrar dívidas de pessoas que deviam a ela e não pagavam e pedir ao terapeuta para trocar o medicamento antidepressivo por causa de efeitos colaterais.
Além disso, passou a não se ver mais como “merecedora” da doença pulmonar e começou a aderir melhor ao tratamento proposto por seu pneumologista.
Referência
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
Autores
Guilherme Kirsten Barbisan
Cinthia D. A. Vasconcelos Rebouças
Marcelo Pio de Almeida Fleck
Neusa Sica da Rocha