Catatonia

Algoritmo

FIGURA 1 | Algoritmo para tratamento de catatonia – Passos 1 e 2. // No passo 2 – Catatonia secundária a esquizofrenia: considerar imediatamente os próximos passos (Fig. 2) além dos benzodiazepínicos. Se possível, dar preferência a tratamento com ECT.


FIGURA 1 | Algoritmo para tratamento de catatonia – Passos 3 a 5.
No passo 3 – Catatonia associada a delirium: considerar antagonistas de receptor de NMDA como Passo 1 (Fig. 1) no tratamento. Entretanto, não há contraindicação ao uso de benzodiazepínicos.
No passo 4 – Catatonia excitatória secundária a episódio maníaco: considerar antiepilépticos mais cedo no tratamento, especialmente o ácido valproico.
No passo 5 – Catatonia associada a psicose: considerar o uso de antipsicóticos como Passo 3, em associação a benzodiazepínicos. Se a catatonia for causada pela retirada de clozapina, considerar clozapina como Passo 1 (Fig. 1).

Introdução

Catatonia é uma síndrome clínica de desregulação motora inicialmente descrita por Karl Kahlbaum, em 1874, como um conjunto de alterações que podem ser agrupadas em quatro categorias: sinais motores isolados, distúrbios da volição, incapacidade de inibir atividades motoras complexas e instabilidade autonômica.1 Foi posteriormente descrita por Emil Kraepelin como um subtipo de dementia praecox e, até o lançamento da 5a edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5),2 mantinha-se como um subtipo de esquizofrenia, quando então passou a ser classificada como uma síndrome independente que ocorre em associação a:

  1. Outro transtorno mental (especificador);
  2. Outra condição médica; ou como
  3. Catatonia inespecífica.

Muitos autores discordam da ocorrência exclusiva de catatonia na esquizofrenia e consideram que a catatonia e outros sintomas psicomotores compõem uma dimensão clínica dos transtornos psicóticos, com implicações prognósticas, terapêuticas e de pesquisa neurobiológica.3 No entanto, sabe-se que sintomas psicomotores persistentes são particularmente prevalentes na esquizofrenia e podem estar presentes antes do diagnóstico, estando associados a uma pior evolução da doença.

Pelo fato de ser considerada uma síndrome com risco de letalidade, os psiquiatras devem ter atenção ao surgimento de sinais e sintomas sugestivos de catatonia, especialmente em pacientes com fatores de risco.

Classificação

A principal divisão dos quadros catatônicos ocorre entre os dois subtipos mais frequentes da prática clínica. A catatonia retardada é mais facilmente identificada devido aos sintomas clássicos de negativismo, mutismo e posturas bizarras. Enquanto isso, a catatonia agitada ou excitatória é frequente em episódios maníacos ou psicóticos, sendo caracterizada por movimentos incessantes, verborragia e agitação psicomotora.4 Os quadros catatônicos também são classificados em agudos e crônicos, visto que estes últimos são considerados por alguns autores como entidade com fisiopatologia própria, muitas vezes associados a psicoses de longa data, e em geral não apresentam boa resposta à terapia convencional com benzodiazepínicos.3

Há risco de letalidade quando a síndrome catatônica se associa a sinais de rigidez muscular, tremores, instabilidade autonômica e alteração de parâmetros laboratoriais. Esse quadro, chamado de catatonia maligna, por vezes é indistinguível da síndrome neuroléptica maligna, havendo uma tendência atual a considerar ambas as condições como resultantes do mesmo processo fisiopatológico.5

Epidemiologia

Dados epidemiológicos populacionais sobre catatonia são de difícil interpretação. Este fato deve-se à própria falta de unificação conceitual da síndrome, à heterogeneidade no uso de escalas diagnósticas entre os diferentes serviços médicos e à diversidade demográfica dos grupos populacionais estudados. Não há estimativa de prevalência da síndrome catatônica no Brasil.

Com o objetivo de tentar dar respostas sobre este tema, Solmi e colaboradores,6 em 2017, publicaram um estudo de metanálise com uma população de 107.304 pacientes de amostragens independentes entre todos os continentes no qual encontraram uma prevalência de 9,2%, porém com grande variabilidade a depender do quadro etiológico associado.6 Esse estudo também mostrou maiores índices de prevalência em indivíduos com condições médicas não psiquiátricas, e entre as condições psiquiátricas, as maiores prevalências relatadas foram em transtorno bipolar, seguido por transtorno do espectro autista e esquizofrenia.

Fatores de risco

São considerados fatores de risco para o desenvolvimento de catatonia:

  • Histórico de catatonia.
  • Síndromes extrapiramidais.
  • Mania com excitação ou retardo psicomotor.
  • Doenças inflamatórias perinatais.
  • Epilepsia.
  • Enxaqueca.
  • Doenças do lobo frontal ou gânglios da base.
  • Hiponatremia.
  • Perda de peso.
  • Medicações que diminuem o limiar convulsivo.
  • Bloqueio dopaminérgico.
  • Baixos níveis de ferro sérico.

Diagnóstico

De acordo com os Critérios do DSM-5 – Catatonia Associada a Outro Transtorno Mental (Especificador de Catatonia) – 293.89 (F06.1).2

No DSM-5, diferentemente de versões anteriores, a catatonia deixou de ser um subtipo de esquizofrenia e passou a ser uma síndrome clínica independente. Entretanto, é importante notar que ela possui a função de especificador, e não de diagnóstico isolado, devendo ser codificada com outro transtorno psiquiátrico ou condição médica geral.

Diagnóstico diferencial

Vista sob uma perspectiva descritiva, a catatonia pode ocorrer em diversas condições clínicas e psiquiátricas de diferentes etiologias. Quadros que devem ser especialmente considerados frente a um paciente catatônico, tendo em vista implicações terapêuticas e prognósticas, incluem os seguintes:

  • Efeitos extrapiramidais.
  • Encefalite.
  • Síndrome neuroléptica maligna.
  • Estado epiléptico não convulsivo.
  • Síndrome de encarceramento.

Tratamento

Existem poucos ensaios clínicos randomizados que avaliaram algoritmos de tratamento sistemático para catatonia. Até o presente momento, apenas as abordagens com benzodiazepínicos e a eletroconvulsoterapia (ECT) possuem evidências mais robustas de eficácia, porém ainda com limitações. De forma geral, pode-se esquematizar a abordagem terapêutica da catatonia em cinco passos, levando-se em conta que algumas situações demandam julgamento clínico para melhor adequação da sequência dos passos.

É de fundamental importância que condições médicas gerais sejam identificadas e tratadas, em especial a encefalite, condição infecciosa associada a quadros catatônicos. Da mesma forma, sugere-se que antipsicóticos sejam inicialmente suspensos, sobretudo se houver suspeita clínica de catatonia maligna.

A catatonia maligna é caracterizada pela presença de febre, disautonomia e rigidez muscular. Este quadro, atualmente, é identificado como um processo patológico similar ou idêntico à síndrome neuroléptica maligna por alguns autores, porém sem a presença de antipsicóticos. Em ambos os casos, a ECT é a escolha mais adequada para o tratamento.

Em casos nos quais houve resposta parcial aos benzodiazepínicos ou à ECT isoladamente, ambos os tratamentos podem ser administrados de forma concomitante, mesmo na vigência de catatonia maligna. Apesar de os benzodiazepínicos aumentarem o limiar convulsivo, eles podem ser utilizados desde que seja dada preferência a uma medicação com meia-vida curta e que seja suspensa a dose anterior ao procedimento. Também pode ser administrado flumazenil intravenoso 1 a 3 minutos antes da indução anestésica.

1º passo: lorazepam

  • O uso de benzodiazepínicos é, junto à ECT, o método de tratamento mais extensamente estudado e com resposta mais rápida (horas a poucos dias).
  • O uso de lorazepam 1 a 2 mg IV em bólus a cada 6 a 8 horas (total de 6-8 mg/dia), com aumento de 3 mg/dia por até três dias, caso não haja indicação clara de ECT, está recomendado.7
  • Alguns pacientes podem aceitar o lorazepam via oral, sendo nesses uma opção; estudos relataram doses de até 16 mg/dia com boa tolerância e pouca sedação.7
  • A porcentagem geral de resposta em estudos ocidentais variou de 60 a 100%. Deve-se levar em conta que em casos de sintomas catatônicos crônicos, ou nos casos de catatonia secundária à esquizofrenia, este passo de tratamento apresenta menor eficácia, devendo-se, portanto, considerar prosseguir o quanto antes aos passos seguintes.

2º passo: eletroconvulsoterapia

  • A ECT foi administrada em uma média de 13 sessões, com respostas que variaram de 59 a 100%, em revisão sistemática de 11 estudos.8
  • Geralmente 2 a 3 sessões são suficientes para a melhora.7
  • A ECT também se mostrou eficaz em casos de catatonia crônica, condição que tende a ter resposta pior aos benzodiazepínicos.8
  • A ECT é recomendada como tratamento de primeira linha nos quadros de catatonia maligna, situação clínica em que febre e instabilidade autonômica são encontradas juntamente aos sintomas catatônicos;9 nesses casos, recomenda-se iniciar a ECT assim que possível.
  • Os protocolos de aplicação da ECT foram variáveis em estudos, com tendência à preferência por posicionamento bilateral de eletrodos e titulação da intensidade do estímulo.
  • Perda de memória e cefaleia tiveram maior prevalência entre os efeitos adversos relatados da ECT.10
  • A manutenção de lorazepam durante o curso de ECT é controversa, porém há literatura recomendando que seja mantido quando a resposta aos benzodiazepínicos foi parcial porém incompleta.11

3º passo: adição de antagonista NMDA

  • O antagonismo NMDA como terapêutica na catatonia advém da hipótese fisiopatológica de hiperatividade glutamatérgica em vias estriatocorticais e corticocorticais, que levariam à redução de atividade dopaminérgica e GABAérgica.
  • O uso de amantadina 100 mg 1x/dia é recomendado, podendo-se titular a dose aumentando 100 mg a cada 3 a 4 dias, atingindo dose máxima de 400 a 600 mg.
  • O derivado memantina é outra opção, iniciando-se com 5 mg 2x/dia, até dose máxima de 10 mg 2x/dia.7
  • Nos casos de catatonia concomitante a delirium, recomenda-se considerar esse tratamento como o Passo 1; entretanto, é importante ressaltar que os benzodiazepínicos em monoterapia não são contraindicados para pacientes catatônicos mesmo que estejam em delirium, devendo sua administração ser avaliada caso a caso.12

4º passo: anticonvulsivantes

  • O uso de carbamazepina e ácido valproico já foi descrito com resultados positivos, apesar de evidências mais escassas.
  • Esse passo do tratamento deve ser considerado mais cedo em casos de catatonia secundária a episódio maníaco.
  • Deve-se dar preferência ao valproato, visto que esse fármaco apresentou eficácia em casos de catatonia excitatória.7 Recomenda-se um ensaio com dose sérica terapêutica por, no mínimo, 10 dias.
  • No caso da carbamazepina, há relato de resposta em pacientes com catatonia secundária a transtorno de humor (em média 300-600 mg/dia).
  • Não há evidência suficiente para apoiar uso de topiramato, levetiracetam ou zonisamida.

5º passo: antipsicóticos

  • Previamente ao desenvolvimento dos benzodiazepínicos, era frequente o emprego de antipsicóticos típicos em pacientes catatônicos com sintomas psicóticos, porém hoje se sabe que seu uso pode precipitar catatonia maligna ou síndrome neuroléptica maligna.
  • O uso de antipsicóticos atípicos, todavia, pode ser uma alternativa devido à sua complexa atividade em múltiplos receptores.7
  • O uso de aripiprazol e olanzapina é uma opção em pacientes com transtornos do espectro da esquizofrenia, porém essa recomendação provém de relatos de casos.
  • Antipsicóticos podem também ser considerados como Passo 3, associados a benzodiazepínicos, nos casos de catatonia concomitante a 7
  • A suspensão abrupta de clozapina pode desencadear catatonia, quadro em que a reintrodução desse fármaco deve ser considerada como Passo 1.

Referências

  1. Walther S, Strik W. Catatonia. CNS Spectr. 2016;21(4):341-8.
  2. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.
  3. Ungvari GS, Caroff SN, Gerevich J. The catatonia conundrum: evidence of psychomotor phenomena as a symptom dimension in psychotic disorders. Schizophrenia Bulletin. 2010;36(2):231-8.
  4. Fink M, Taylor MA. The catatonia syndrome: forgotten but not gone. Arch Gen Psychiatry. 2009;66(11):1173–7.
  5. Lang FU, Lang S, Becker T, Jäger M. Neuroleptic malignant syndrome or catatonia? Trying to solve the catatonic dilemma. 2015;232(1):1-5.
  6. Solmi M, Pigato GG, Roiter B, Guaglianone A, Martini L, Fornaro M, et al. Prevalence of catatonia and its moderators in clinical samples: results from a meta-analysis and meta-regression analysis. Schizophr Bull. 2018;44(5):1133–50.
  7. Beach SR, Gomez-Bernal F, Huffman JC, Fricchione GL. Alternative treatment strategies for catatonia: a systematic review. Gen Hosp Psychiatry. 2017;48:1–19.
  8. Pelzer A, van der Heijden F, den Boer E. Systematic review of catatonia treatment. Neuropsychiatr Dis Treat. 2018; 14:317–26.
  9. Rasmussen SA, Mazurek MF, Rosebush PI. Catatonia: our current understanding of its diagnosis, treatment and pathophysiology. World J Psychiatry. 2016;6(4):391–8.
  10. Leroy A, Naudet F, Vaiva G, Francis A, Thomas P, Amad A. Is electroconvulsive therapy an evidence-based treatment for catatonia? A systematic review and meta-analysis. Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci. 2018;268(7):675-87.
  11. Coffey MD. Catatonia: Treatment and prognosis. Waltham: UpToDate; 2019 [capturado em 20 ago 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/catatonia-treatment-and-prognosis?search=Catatonia:%20Treatment%20and%20prognosis.&source=search_result&selectedTitle=1~49&usage_type=default&display_rank=1
  12. Denysenko L, Sica N, Penders TM, et al. Catatonia in the medically ill: Etiology, diagnosis, and treatment. The Academy of Consultation-Liaison Psychiatry Evidence-Based Medicine Subcommittee Monograph. Ann Clin Psychiatry. 2018;30(2):140–55.

Autores

Maria Inês Rodrigues Lobato
José Henrique Borges Duarte
Matheus Coutinho Alves