Doença pulmonar obstrutiva crônica

Introdução

A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) engloba diversas entidades de etiologia e patologia distintas, mas que têm em comum a obstrução do fluxo aéreo. Compreende, no sentido mais restrito, a bronquite crônica e o enfisema pulmonar. Quase metade dos pacientes com DPOC apresenta sintomas significativos de depressão, e 20% preenchem critérios para transtorno depressivo maior e distimia. O risco de desenvolver depressão é 2,5 vezes maior para pacientes com DPOC grave comparados a controles. Sintomas depressivos são preditores de baixa qualidade de vida e associados à baixa adesão terapêutica e ao aumento do uso dos serviços de emergência e de corticoides.1

Antidepressivos

No tratamento da depressão em pacientes com DPOC, dar preferência aos fármacos menos sedativos, em especial os ISRSs e a bupropiona. Os ISRSs apresentam menos efeitos anticolinérgicos e menos interações com medicamentos usados no tratamento da DPOC. A mirtazapina, que costuma estimular o apetite, pode ser considerada em pacientes com anorexia proeminente ou quando a dispneia interfere na alimentação. Os antidepressivos tricíclicos e IMAOs raramente são a primeira opção, mas podem ser úteis em pacientes jovens ou de meia-idade com dor crônica associada. Programas de reabilitação com exercícios físicos são efetivos no alívio de sintomas depressivos em portadores de DPOC.

Estabilizadores do humor e anticonvulsivantes

Os anticonvulsivantes, como divalproato e gabapentina, são possíveis adjuvantes aos antidepressivos. Cabe lembrar que, durante a coadministração de carbamazepina, a meia-vida da teofilina cai de 5,25 para 2,75 horas, o que pode exacerbar a sintomatologia respiratória. Também pode ocorrer toxicidade pela teofilina quando utilizada em associação com fluvoxamina. A teofilina aumenta a excreção renal de lítio, sendo necessário o ajuste da dose.

O delirium é comum em portadores de DPOC, tanto pelas alterações de gases sanguíneos quanto pelos medicamentos como antibióticos, antirretrovirais e corticoides. Essa condição deve ser considerada quando há flutuação da consciência, diminuição do teste de realidade, labilidade afetiva e mudança súbita no exame do estado mental.

Outros medicamentos

Ataques de pânico e ansiedade em DPOC estão correlacionados a episódios de hipoxemia, hipercapnia e hipocapnia. Broncodilatadores, teofilina e corticoides potencializam a sintomatologia ansiosa. Os ISRSs são a primeira escolha para pacientes com DPOC e ansiedade. O uso rotineiro de benzodiazepínicos não é recomendado, pois, em altas doses, tendem a diminuir o nível de consciência, podendo precipitar insuficiência respiratória, particularmente em pacientes com quadros mais graves. Pode ocorrer efeito-rebote ao se suspender o fármaco, podendo ocasionar dificuldade de interrupção e dependência. Entre os benzodiazepínicos, dar preferência aos agentes de curta ação, como o lorazepam e o alprazolam. É importante lembrar, entretanto, que uma única dose de lorazepam já reduz a força e a duração das contrações dos músculos respiratórios em pacientes com DPOC. Há alguns indicativos de que a buspirona possa ser um bom agente antiansiedade nesses pacientes, uma vez que não apresenta alterações na ventilação e na função de troca de gases.

Os anti-histamínicos, como hidroxizina, são alternativas aos benzodiazepínicos para o controle da ansiedade, uma vez que não apresentam potencial de abuso, apesar dos efeitos sedativos e anticolinérgicos. Os β-bloqueadores são contraindicados na DPOC.

Psicofármacos e tabaco

Como a maioria dos portadores de DPOC é fumante, deve-se observar a interação do cigarro com alguns medicamentos. Sabe-se que tabagistas apresentam concentrações séricas mais baixas de imipramina, amitriptilina e nortriptilina. O mesmo ocorre com a clorpromazina, que necessita de doses 2 vezes maiores para atingir o mesmo efeito terapêutico obtido com os não fumantes.

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Zareifopoulos N, Bellou A, Spiropoulou A, Spiropoulos K. Prevalence, contribution to disease burden and management of comorbid depression and anxiety in chronic obstructive pulmonary disease: a narrative review. COPD. 2019;16(5-6):406-17. PMID [31638445]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Marianna de Abreu Costa | Marianna de Barros Jaeger
Lorenna Sena Teixeira Mendes | Fabiano Gomes
Arthur Ludwig Paim | Tamires Martins Bastos
João Pedro Gonçalves Pacheco | Alice C. M. Xavier
Alessandro Ferroni Tonial | Livia Biason
Ana Laura Walcher | Aristides Volpato Cordioli