Transtornos de sintomas somáticos e transtornos relacionados – Psicoterapia psicodinâmica: Exemplo clínico
L., 28 anos, foi encaminhada para tratamento psicoterápico pelo clínico que a acompanhava há alguns anos, devido a cefaleia e dores no corpo constantes.
Ainda que tivesse aceitado buscar tratamento psicoterápico, não conseguia compreender o motivo do encaminhamento, uma vez que seus sintomas eram físicos. Depois de muito tempo, tinha recebido o diagnóstico de fibromialgia.
Entretanto, aceitou a proposta, pois confiava em seu médico, mas os analgésicos não surtiam mais efeito, e o uso frequente de anti-inflamatórios havia provocado sintomas gástricos.
Foi difícil coletar a história da paciente, pois ela passava as sessões descrevendo suas dores e os procedimentos que realizava para encontrar alívio (p. ex., acupuntura, ginástica, massoterapia).
Com o decorrer do tempo, foram surgindo algumas informações sobre sua história.
Os pais eram separados desde quando L. tinha 2 anos de idade, e ela não convivia com o pai. Morava com a mãe, que vivia de uma pensão e não saía de casa, ficando a paciente encarregada do cuidado de todos os aspectos de vida prática das duas.
A mãe era uma mulher queixosa, sempre cansada e indisposta.
L. foi descrevendo situações abusivas por parte da mãe em relação a ela, sem que tivesse noção desse abuso.
Por exemplo, houve um dia em que chegou em casa, e a mãe tinha feito um bolo para ela. Sentia-se indisposta, com dores estomacais, e a mãe passou a queixar-se de que L. não era sensível ao esforço que ela havia feito ao preparar o bolo, de que era mal-agradecida por não querer comer, e ficou muito brava com a filha, tendo um acesso de raiva.
O relato desse episódio chamou a atenção da terapeuta, uma vez que a paciente descreveu essa cena logo depois de ter contado que tinha piorado das dores, sem encontrar explicação para isso.
Quando a terapeuta buscou associar a piora da dor com aquele fato, L. passou a descrever que não tinha comido o bolo da “pobre da mãe” por estar com muita dor de estômago, que não a deixou dormir por toda a noite. Passou, em seguida, a descrever as dores no estômago que sentiu, todos os procedimentos para melhorar e seu desconforto, sem conseguir conectar a dor com o fato ocorrido com a mãe.
A angústia pela situação e a raiva foram compreendidas pela terapeuta, que se lembrou, imediatamente, de uma cena semelhante, no filme Cisne negro, em que a mãe da protagonista oferece uma enorme fatia de torta para comemorar a conquista do papel principal pela filha no ballet “Lago dos cisnes”. Diante da recusa da filha em comê-la, pois era excessivamente grande, a mãe reage com um acesso de descontrole emocional, e a filha acaba aceitando o bolo, lambendo o dedo da mãe como submissão diante da reação dela.
Assim, a terapeuta, mediante o trabalho de figurabilidade1 (i.e., utilizando as imagens que surgem em sua mente a partir das emoções que são despertadas na sessão), dá um sentido àquela situação que L. não conseguia experimentar emocionalmente.
Situações como essa eram frequentes, e a paciente não conectava seus sintomas com a dor provocada por essa relação intrusiva, que impedia que ela tivesse uma vida social e profissional adequadas a seu momento de vida, mantendo-a em casa ligada à mãe.
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V. ; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Botella C, Botella S. Figurabilidade e regrediência. Rev Psic SPPA. 2003;10(2):249-341.
Autores
Alexandre Annes Henriques
Maria Cristina Garcia Vasconcellos
Sandra Machado Wolffenbüttel