Transtornos depressivos – Terapia interpessoal: Exemplo clínico

Psicoterapia nos transtornos depressivos – Terapia interpessoal: Exemplo clínico

I., 65 anos, iniciou acompanhamento psiquiátrico há cerca de 2 anos devido a sintomas depressivos moderados a graves, com humor triste, apatia, insônia global, isolamento social, aumento de peso e dores generalizadas.

Após tentar diversos esquemas medicamentosos com antidepressivos, sem resposta satisfatória, foi indicado o tratamento por meio de terapia interpessoal (TIP).

Durante as primeiras sessões de avaliação, I. falava muito da falta que sentia da filha, falecida há 3 anos em um acidente de carro, e do forte sentimento de culpa que tinha por não ter estado com ela no dia em que ela morreu.

Após as sessões iniciais, foi estabelecido como foco abordar os sentimentos da paciente em relação à filha.

Ela alimentava o pensamento de que, se estivesse com a filha, nada daquilo teria acontecido. Por muito tempo, repetia que seria melhor ela ter morrido do que a filha e falava que depois desse evento sua vida havia parado.

No decorrer do tratamento, foram utilizados e reforçados manejos técnicos típicos da TIP.

Foi realizado um mapeamento da rede de apoio social que existia, mas que a paciente não acessava.

I. frequentemente se queixava de que evitava sair de casa por sentir dores; então, foi realizado um trabalho com a paciente para incentivá-la a eleger alternativas na busca de auxílio na execução de certas atividades, motivando-a a estar mais próxima de suas outras filhas, por exemplo, que estavam dispostas a ajudar e demonstravam solidariedade ao momento de vida da mãe.

Elegeram-se maneiras e possibilidades para a retomada gradual de atividades que davam prazer para I. antes do ocorrido, por meio de técnicas de exposição social e análise de comunicação.

Gradualmente, a paciente foi se sentindo mais confortável para sair de casa, voltando a frequentar a igreja e um grupo da terceira idade e a acompanhar sua neta em atividades escolares, como apresentação de teatro.

Ao final do tratamento de 16 sessões, a paciente mostrou-se novamente desmotivada, manifestando seus sentimentos quanto à falta que sentiria do terapeuta pelo bom vínculo que haviam estabelecido, inclusive trazendo um presente como agradecimento por ele “ter devolvido sua vontade de viver”.

O terapeuta agradeceu e reforçou com a paciente o quanto ela tinha aprendido a continuar sua vida mesmo sem a presença da filha, elaborando melhor o luto, e que agora novamente estava passando por uma perda (a do terapeuta), mas os benefícios e as orientações do tratamento ficariam em sua memória, assim como as boas lembranças que tinha da filha.

Referência

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

Autores

Guilherme Kirsten Barbisan
Cinthia D. A. Vasconcelos Rebouças
Marcelo Pio de Almeida Fleck
Neusa Sica da Rocha