Discinesia tardia

Sobre

É a forma de apresentação mais crônica de sintomas extrapiramidais e é comumente causada por antipsicóticos, outros bloqueadores de dopamina e alguns antidepressivos.1

Caracteriza-se por movimentos estereotipados de grupos musculares que ocorrem de forma involuntária. Em geral, manifesta-se como movimentos sem propósito e repetitivos da língua, lábios, mandíbula e pescoço. Podem ocorrer, ainda, movimentos de mastigação, de piscar, levantamento das sobrancelhas e caretas. O envolvimento das extremidades e do tronco inclui movimentos coreoatetoides de mãos, braços e pés e movimentos pélvicos de balanço, oscilação e rotação. Os movimentos cessam durante o sono e aumentam com a ansiedade. Em alguns casos, são irreversíveis. A discinesia tardia tem como alguns fatores de risco a duração de exposição a antipsicóticos, idade avançada, sexo masculino, consumo de bebida alcoólica, doença orgânica ou dano estrutural no cérebro, qualquer tipo de sintoma extrapiramidal prévio, sintomas afetivos ou negativos concomitantes, história de discinesia em familiar com esquizofrenia e os fatos de ter diabetes e ser canhoto.

Ocorre em cerca de 20 a 35% dos pacientes após uso prolongado de antipsicóticos. Essas taxas podem chegar a 30 a 50% após 5 a 10 anos de uso. Há relatos de discinesia tardia com quase todos os antipsicóticos atualmente disponíveis, incluindo a clozapina.

Os antipsicóticos atípicos produzem menos discinesia tardia que os antipsicóticos típicos, embora estudos recentes venham demonstrando uma incidência maior do que constatado a princípio. Foi documentada a incidência de 4% de discinesia tardia em uma população com média de 12 anos de uso do fármaco como antipsicótico de primeira linha.

O uso prolongado (mais de 12 semanas) de metoclopramida também pode levar a DT.

Há relatos de caso em uso de ISRSs.

Manejo

  • Deve-se fazer a redução gradual do medicamento em uso. A suspensão abrupta agrava o quadro. Caso o paciente continue a precisar fazer uso de antipsicótico, a troca por um de segunda geração e com menos propensão a causar DT (clozapina, quetiapina e olanzapina) é indicada.2
  • Descontinuar ou reduzir qualquer fármaco anticolinérgico, se possível. No entanto, o seu uso não é considerado um fator de risco por si só.
  • Diversos tratamentos já foram pesquisados, alguns com certa melhora sintomática, no caso do extrato de Ginkgo biloba e com DBS, e outros sem evidências robustas de benefício. Entre os tratamentos já testados, destacam-se vitamina E, ácido valproico, ácidos graxos, bromocriptina, clonidina, estrogênio, lítio, selegilina, bloqueadores dos canais de cálcio e β-bloqueadores. A toxina botulínica pode ser usada quando houver um componente distônico associado. Os benzodiazepínicos costumam aliviar os sintomas.
  • Os inibidores do VMAT (valbenazina, tetrabenazina e deutetrabenazina) podem tratar a dT.

Prevenção

  • Em primeiro lugar, alertar os pacientes quanto à possibilidade dessa reação adversa dos antipsicóticos, principalmente no uso prolongado.
  • Avaliar periodicamente a necessidade de continuar o medicamento e usar a menor dose efetiva; sempre que possível, deve-se evitar o uso de altas doses de antipsicóticos.
  • Sobretudo em pacientes idosos, evitar o uso de neurolépticos típicos e, quando forem necessários, usar a menor dose possível. Nos transtornos do humor, quando necessário, deve-se procurar usar a menor dose efetiva.
  • É preferível usar os antipsicóticos em pacientes com esquizofrenia de forma contínua, evitando interrupções; quando da redução da dose, reduzir de modo lento e gradual.

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Lahijani SC, Harris KA. Medical complications of psychiatric treatment: an update. Crit Care Clin. 2017;33(3):713-34. PMID [28601142]
  2. Kraemer M, Uekermann J, Wiltfang J, Kis B. Methylphenidate-induced psychosis in adult attentiondeficit/hyperactivity disorder: report of 3 new cases and review of the literature. Clin Neuropharmacol. 2010;33(4):204-6. PMID [20571380]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Eduardo Trachtenberg
Deborah Grisolia Fuzina
Everton Silva
Giorgia Lionço Pellini
Giovanni Michele Rech
Pedro Lopes Ritter
Vinicius Martins Costa
Aristides Volpato Cordioli