TNMs (demências) – Terapia comportamental: Exemplo clínico 1

Psicoterapia nos transtornos neurocognitivos (demências) – Terapia comportamental: Exemplo clínico 1

J., 64 anos, escolaridade de nível superior, funcionário público aposentado, casado, queria voltar a ler. Essa era uma atividade da qual sempre gostou e que era muito importante para ele, mas havia abandonado esse hábito algum tempo antes de ter sido diagnosticado com transtorno neurocognitivo maior (TNM, ou demência).

A avaliação neuropsicológica não indicava limitação para leitura ou compreensão, mas havia déficit de memória e de orientação temporal.

Ele estava muito motivado a investir nesse objetivo, não apresentava sintomas de depressão nem de ansiedade e mostrava estar ciente de seu funcionamento atual.

Intervenção cognitiva

Antes de iniciar o programa de reabilitação cognitiva, J. não estava lendo livros nem revistas. O objetivo inicial era ler por 5 minutos todos os dias.

Foi combinado com sua esposa que deixasse o livro a ser lido em um lugar bem visível para facilitar a lembrança da tarefa. Foi escolhido um horário fixo para que J. realizasse a leitura, e, caso ele não lembrasse espontaneamente, sua esposa o lembraria.

Na primeira semana, necessitou ser lembrado da tarefa algumas vezes, mas manteve a prática diária.

Na semana seguinte, o hábito de ler naquele horário específico do dia já havia sido incorporado à sua rotina.

Como estratégia compensatória, em relação ao déficit de memória, foi orientado a manter anotações sobre elementos-chave da leitura diária, o que possibilitou o aumento do tempo de leitura sem perda do conteúdo, pois, no dia seguinte, podia revisar as anotações e rever alguma informação perdida. Além disso, foi sugerido que comentasse com sua esposa o que tinha lido, possibilitando, assim, mais uma modalidade de registro do texto.

Seu grau de satisfação em relação a poder retomar uma atividade que era tão prazerosa influenciou sua disposição geral para fazer outras atividades e utilizar outras estratégias. Ele passou a utilizar técnicas de mnemônica para facilitar a lembrança dos nomes dos personagens do livro e percebeu que poderia utilizar a mesma técnica para outras informações que necessitava memorizar em seu dia a dia.

Sua esposa revelou estar surpresa com o quanto uma pequena conquista, como voltar a ler, tinha realizado uma grande mudança em sua disposição geral. Nesse caso, a medida do ganho ocorrido é a execução satisfatória da própria tarefa.

Muitos outros objetivos foram sendo definidos ao longo do acompanhamento e, em virtude do caráter progressivo da demência, passaram a ser cada vez menos complexos, mas não menos importantes, para a rotina do paciente e sua qualidade de vida.

Referência

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V. ; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

Autores

Claudia Godinho
Letícia M. K. Forster
Analuiza Camozzato