Luto

Introdução

O termo “luto”, do latim letum, significa morte. O “pesar pelo falecimento de algum ente querido” é uma experiência universal e inescapável, que inclui sentimentos de tristeza, dor psíquica, ansiedade e angústia. Sendo uma experiência ubíqua, é necessário definir os limites do luto normal e do luto patológico (também denominado luto complicado, luto traumático e transtorno do luto prolongado).1

Epidemiologia

É difícil estimar a magnitude da exposição a perdas de pessoas próximas. Em um estudo populacional sueco em que pais perderam crianças vítimas de câncer, 29% não tinham processado a perda entre 4 e 9 anos depois da morte,2 evidenciando maior risco de distúrbios físicos e psicológicos naqueles que não processaram o luto.2,3

Fatores de risco

  • Percepção de pouco apoio social.
  • Uso de álcool e drogas.
  • Modos disfuncionais de enfrentamento.
  • História prévia de transtorno mental.
  • Perda de uma criança.4

Diagnóstico

Os critérios diagnósticos propostos para definir transtorno do luto patológico (prolongado) incluem:5

  1. Evento: perda de uma pessoa significativa.
  2. Sofrimento pela separação: saudade, incluindo sofrimento físico e psíquico, diariamente, ou em um nível que provoque perda de função.
  3. Sintomas cognitivos, emocionais e comportamentais, incluindo pelo menos 5 (ou mais) dos seguintes sintomas diariamente ou a ponto de causar perda de função:
    • Confusão acerca do papel na vida ou sentimento de self diminuído.
    • Dificuldade de aceitar a perda.
    • Dificuldade de aceitar a realidade da perda.
    • Incapacidade de confiar nos outros desde a perda.
    • Raiva relacionada com a perda.
    • Dificuldade de prosseguir a vida (p. ex., fazer novos amigos, encontrar novos interesses).
    • Ausência de emoções desde a perda.
    • Sentimento de que a vida é vazia, sem sentido, oca, desde a perda.
    • Sentimentos de atordoamento, confusão, choque pela perda.
  4. Tempo: o diagnóstico não deve ser feito até que, pelo menos, 6 meses tenham passado desde a perda.
  5. Prejuízo: o transtorno causa prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes do viver.
  6. Relação com outros transtornos mentais: os sintomas não são decorrentes de transtorno depressivo, transtorno de estresse pós-traumático ou transtorno de ansiedade generalizada.

Avaliação

Existem pelo menos duas escalas propostas para medir o luto patológico. Há uma escala própria para sua quantificação que inclui 19 itens que apresentam, em um único construto, boa consistência (Cronbach alfa = 0,94) e validade.6 Outra escala proposta para aferir luto patológico7 foi validada para o espanhol8,9 e o francês;10 ambas ainda não têm tradução validada para o português brasileiro.

Prognóstico

Há evidências de que o luto patológico aumenta o risco de distúrbios cardiovasculares agudos, morte e suicídio,10 e de distúrbios físicos e psicológicos em pais que não processaram o luto pela morte de seus filhos.2,3

Diagnóstico diferencial

  • O Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, 5ª edição (DSM-5),11 nos critérios para episódio depressivo maior, passou a permitir esse diagnóstico quando a resposta a uma perda significativa (p. ex., luto) for desproporcional ao sofrimento esperado de acordo com a história do indivíduo e as normas culturais vigentes.
    • A distinção entre reação de luto e episódio depressivo requer apurado julgamento clínico: o afeto predominante no luto é o sentimento de vazio e perda, enquanto no episódio depressivo maior é um humor deprimido persistente e uma incapacidade de antecipar felicidade ou prazer.
    • A disforia no luto tende a decrescer em intensidade após dias a semanas e ocorre em “ondas”, as quais tendem a ser associadas com pensamentos ou lembranças do falecido.11
  • A Classificação internacional de doenças e problemas relacionados à saúde, 10ª edição (CID-10),12 mantém o luto como critério de exclusão para o diagnóstico de episódio depressivo.
  • É preciso diferenciar também reações patológicas ao luto de transtorno de estresse pós-traumático, com o qual compartilha muitas características.

Sinais de gravidade

O luto, por si só, não é uma manifestação patológica, mas é importante observar a presença dos fatores de risco para luto patológico mencionados e proceder ao acompanhamento do quadro para imediata identificação de sinais de gravidade associados com mais frequência ao transtorno, como:

  • Quadro depressivo com significado clínico.
  • Presença de sintomatologia psicótica.
  • Existência de abuso e/ou dependência de álcool ou drogas.
  • Risco de suicídio.

Tratamento

  • A meta do tratamento é que o paciente seja capaz de trabalhar o luto e a perda, eventualmente restabelecendo seus contatos sociais e atividades diárias.
  • O terapeuta deve explorar, de maneira não crítica, os eventos que levaram à morte, a morte em si e o que se sucedeu após o fato: embora essas memórias sejam difíceis e dolorosas, são cruciais no trabalho do luto.
  • O terapeuta deve auxiliar o paciente a entender que, apesar de causarem dor, essas emoções aflitivas são normais e que, uma vez toleradas, irão melhorar com o tempo.13
  • Existem práticas psicoterapêuticas adaptadas para a situação do luto patológico (traumático ou prolongado). O trabalho do luto envolve 7 componentes principais:14
    1. Estabelecimento de normas para a discussão: a natureza da perda, do luto e da adaptação a essa perda é discutida, bem como o conceito de luto patológico a fim de estabelecer para o paciente os limites do normal ou do aceitável. A descrição do tratamento e o seu embasamento também são discutidos.
    2. Promoção da autorregulação emocional: automonitoramento e observação das próprias reações e emoções, assim como dos pensamentos e reflexões. Incentivo ao sentimento de compaixão por si mesmo e confronto com a dor da perda.
    3. Construção de conexões: desenvolvimento de estratégias para conectar-se com os outros de maneira significativa, compartilhamento da perda e permissão para que outros ajudem.
    4. Construção de objetivos para continuar a viver: avaliação das ambições e metas pessoais que levem a um sentimento de esperança e entusiasmo. Promoção de emoções positivas e criação de um sentido de propósito no viver.
    5. Revisitação ao mundo externo: desenvolvimento de estratégias para lidar com situações que relembrem a perda e para confrontar a realidade.
    6. Uso de medicina narrativa (o poder das histórias): processo de recontar e refletir sobre a morte e a perda, criando uma narrativa aceitável e que faça sentido.
    7. Uso da memória: revisitação de memórias positivas e negativas com a pessoa falecida. Descrição de possíveis conversas e reações.
  • Há interesse hoje no desenvolvimento de intervenções para luto patológico que possam ser aplicadas on-line, via internet ou mesmo correspondência via e-mail – com alguns estudos demonstrando aceitação e viabilidade dessa abordagem.15
  • A vivência do luto pode desencadear a recorrência de um quadro depressivo prévio e exigir tratamentos farmacológico e psicoterápico adequados.
  • O clínico deve avaliar e eventualmente tratar um transtorno depressivo na vigência de luto patológico após meticulosa avaliação do risco-benefício, até que diretrizes mais específicas surjam na literatura.
  • O luto costuma ser listado entre as condições nas quais a psicofarmacoterapia tem papel limitado, ou coadjuvante, e nas quais a psicoterapia tem papel principal.16
  • As intervenções que mais se destacam nessa situação são psicoterapia, psicoeducação e apoio, todas com a perspectiva de serem intervenções breves.

Psicofarmacologia

  • Medicamentos podem ser usados como adjuvantes no tratamento do luto patológico.
  • O uso de antidepressivo funciona como otimizador dos sintomas depressivos concomitantes.17

Referências

Conteúdo originalmente publicado em: QUEVEDO, J. (Org.). Emergências psiquiátricas. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2020. 326 p.

  1. Solano JP. Traumatic and complicated grief? Cienc Saude Colet. 2011;16(10): 4237-8.
  2. Lannen PK, Wolfe J, Prigerson HG, Onelov E, Kreicbergs UC. Unresolved grief in a national sample of bereaved parents: impaired mental and physical health 4 to 9 years later. J Clin Oncol. 2008;26(36):5870-6.
  3. Paulhan I, Bourgeois M. The TRIG (Texas Revised Inventory of Grief) questionnaire. French translation and validation. Encephale. 1995;21(4):257-62.
  4. Ellifritt J, Nelson KA, Walsh D. Complicated bereavement: a national survey of potential risk factors. Am J Hosp Palliat Care. 2003;20(2):114-20.
  5. Prigerson HG, Horowitz MJ, Jacobs SC, Parkes CM, Aslan M, Goodkin K, et al. Prolonged grief disorder: psychometric validation of criteria proposed for DSM-V and ICD-11. PLoS Med. 2009;6(8):e1000121.
  6. Prigerson HG, Maciejewski PK, Reynolds CF 3rd, Bierhals AJ, Newsom JT, Fasiczka A, et al. Inventory of Complicated Grief: a scale to measure maladaptive symptoms of loss. Psychiatry Res. 1995;59(1-2):65-79.
  7. Futterman A, Holland JM, Brown PJ, Thompson LW, Gallagher-Thompson D. Factorial validity of the Texas Revised Inventory of Grief-Present scale among bereaved older adults. Psychol Assess. 2010;22(3):675-87.
  8. Garcia-Garcia JA, Landa Petralanda V. The revised Texas Grief Inventory adapted to Spanish. Aten Primaria. 2001;28(4):290.
  9. Garcia Garcia JA, Landa Petralanda V, Trigueros Manzano MC, Gaminde Inda I. Texas revised inventory of grief: adaptation to Spanish, reliability and validity. Aten Primaria. 2005;35(7): 353-8.
  10. Chen JH, Bierhals AJ, Prigerson HG, Kasl SV, Mazure CM, Jacobs S. Gender differences in the effects of bereavement-related psychological distress in health outcomes. Psychol Med. 1999;29(2):367-80.
  11. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.
  12. Organização Mundial da Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artmed; 1993.
  13. Swartz H, Markowitz J. Techniques of individual interpersonal psychotherapy. In: Gabbard G, editor. Textbook of psychotherapeutic treatments. Arlington: APP; 2009.
  14. Shear MK. Clinical practice. Complicated grief. N Engl J Med. 2015;372(2):153-60.
  15. Doering BK, Eisma MC. Treatment for complicated grief: state of the science and ways forward. Curr Opin Psychiatry. 2016;29(5):286-91.
  16. Weigel M, Purselle D, D’Orio B, Garlow S. Treatment of psychiatric emergencies. In: Schatzbertg A, Nemeroff C, editors. Textbook of psychopharmacology. 4th ed. Arlington: APP; 2009.
  17. Shear MK, Reynolds CF 3rd, Simon NM, Zisook S, Wang Y, Mauro C, et al. Optimizing treatment of complicated grief: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2016;73(7):685-94.

Autores

Erick Messias