TJ – Terapia cognitivo-comportamental: Exemplo clínico 1

Psicoterapia no transtorno do jogo – Terapia cognitivo-comportamental: Exemplo clínico 1

M. é natural de Itu, interior de São Paulo. Ela está em um relacionamento estável há 8 anos e não tem filhos.

Foi trazida para o tratamento por seus pais e seu namorado. Na ocasião, a paciente, muito contrariada, relatou que precisava de ajuda, pois “estava com muitas dívidas decorrentes de seu envolvimento com a bolsa de valores e o pôquer, o que se agravara havia 5 anos”.

Relatou ter vivido uma infância tranquila, dividindo com os pais e a irmã uma casa confortável. A mãe, dona de casa, e o pai, profissional liberal, sempre foram muito presentes em sua vida, porém a irmã mudou-se de cidade ainda muito jovem.

M. conheceu o namorado na faculdade, e, cerca de 3 anos depois, resolveram morar juntos, sem se casar.

Relata que, atualmente, percebe que ele gostaria de ter um filho, mas fica preocupado com o fato de ela não conseguir cumprir os compromissos da maternidade.

Ela conheceu o jogo de pôquer na própria família desde adolescente, pois primos e tios reúnem-se em mesas de clubes semanalmente.

Por causa da profissão, teve contato precoce com o mercado financeiro e percebeu como eram feitas as negociações seguras e as negociações de risco em investimentos. Em apenas 3 anos, percebeu que seu envolvimento em apostas tinha passado para 2 vezes por semana, e seus gastos haviam dobrado.

Revelou que passava muitas horas fazendo análises de movimento do mercado na bolsa de valores para investir e realizava apostas on-line em campeonatos de pôquer, perdendo todos os valores de investimentos ou prêmios que resgatava ou ganhava. Ela imaginava que tinha uma técnica segura de análise que poderia garantir seu investimento, porém nunca conseguia resgatar nenhum valor.

Em um episódio na bolsa, chegou a ter R$ 40.000 em sua carteira, resultado de investimentos realizados em 1 semana, que não resgatou e descapitalizou em apenas 1 hora, em uma transação de risco.

Com a intenção de recuperar as perdas, recorria a empréstimos, garantindo a permanência no jogo.

No início do tratamento, relatou sentir-se muito cansada fisicamente, ansiosa, nervosa e insone. Para sentir-se melhor, havia aumentado o uso de maconha e álcool.

Relatou ter muitas dívidas com cartão de crédito, banco, corretora e com os pais, em torno de R$ 100.000, mas não estava realizando apostas naquele momento.

Sua aparência era muito descuidada, com roupas desalinhadas, e o cansaço físico chamava atenção.

Há 8 meses, a família percebeu que o comportamento de jogo tinha frequência quase diária e não era mais possível avaliar com exatidão quanto tempo M. gastava nas atividades ou quanto era seu prejuízo. Após intensificar seu comportamento, M. passou a apresentar sintomas como tristeza profunda, falta de prazer na realização de atividades cotidianas, ansiedade e dificuldade para tomar decisões.

Referência

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

Autores

Mirella Martins de Castro Mariani
Hermano Tavares