Transtornos alimentares – TCC: Exemplo clínico 1

Psicoterapia nos transtornos alimentares – TCC: Exemplo clínico 1 – Abordagem motivacional e de psicoeducação em uma paciente com transtorno alimentar (TA) ambivalente com relação ao tratamento

Paciente: Não sei, acho que, na verdade, meu problema maior é que tenho medo de comer e passar mal. Acho que não tenho transtorno alimentar porque não tenho medo de engordar.

Terapeuta: Mas como seria para você se precisasse aumentar os 6 quilos necessários para se recuperar de sua desnutrição?

Paciente: Ah, quando eu tinha mais peso, eu detestava meu corpo, tinha muita vergonha de sair, ficava mais retraída. Não consigo me imaginar tendo novamente aquele peso. Eu era muito infeliz. Estava sempre fazendo dietas e me sentindo gorda e muito culpada de comer.

Terapeuta: Mas, pelo que você me contou, sua vida, neste momento, está muito limitada. Você não sai de casa, porque se sente sem energia, não participa de eventos sociais, em especial se envolvem comida – e quase todos os eventos sociais envolvem comida. E segue não se sentindo bem com seu corpo.

Paciente: Mas é que tenho medo de ter que comer, perder o controle e comer sem parar. Aí, acabo tendo dor de estômago e preciso vomitar. Além disso, não tenho vontade de sair, ver pessoas, me sinto muito deprimida. Acho que meu problema maior é depressão, me sinto muito sem vontade de fazer as coisas, não me sinto capaz. Também fico muito insegura e com muitas dúvidas, não sei que roupa vestir, não tenho assunto para falar com as pessoas, me sinto muito por fora de tudo.

Terapeuta: Bem, mas essas coisas de que você está se queixando – dificuldade com a comida, vômito, depressão, inseguranças e dúvidas – podem ser sintomas de seu TA e sua desnutrição, como já conversamos. Com o tratamento, esses sintomas podem melhorar.

Paciente: Mas esse tem sido meu jeito desde minha adolescência, acho que as pessoas não me entendem.

Terapeuta: É verdade, você já tem essas dificuldades há tanto tempo que fica difícil se imaginar sendo diferente. Mas com isso que você chama de seu “jeito de ser”, você acabou tendo vários prejuízos, como esses que acabou de falar. (...) E como você imaginaria sua vida daqui a 5 anos?

Paciente: Ah, em 5 anos, me imagino formada, trabalhando na minha área, morando sozinha ou quem sabe com um namorado.

Terapeuta: Ah, parecem bons planos. E do jeito que as coisas têm sido na sua vida nesses últimos anos, você imagina que vai ser possível realizar esse seu projeto?

Paciente: (Silêncio) É... talvez eu tenha que mudar algumas coisas para conseguir isso.

Referência

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

Autores

Miriam Garcia Brunstein
Andressa S. Behenck
Júlia Medeiros Huber
Katiúscia Gomes Nunes