Contenção física

Algoritmo

A Figura 1 apresenta um algoritmo sobre a rotina de contenção física, e a Figura 2, detalhes sobre a técnica.

FIGURA 1 | ALGORITMO PARA A ROTINA DE CONTENÇÃO FÍSICA DE PACIENTE EM AGITAÇÃO PSICOMOTORA GRAVE. // Veja mais informações em Técnica.

FIGURA 2 | POSIÇÕES PARA INSERÇÃO DAS FAIXAS DE CONTENÇÃO, COM O PACIENTE EM DECÚBITO DORSAL NA CAMA. // Setas verde-claras: técnica com 4 pontos – contenção das extremidades. Setas verdes-escuras: junto com as setas verde-claras – técnica de contenção com 8 pontos. Seta cinza: contenção sobre o tórax, segundo a posição da linha pontilhada.

Introdução

Contenção física é a utilização de qualquer meio físico ou mecânico, material ou equipamento no corpo do paciente, que ele não possa remover facilmente,1-4 a fim de limitar o seu movimento, com a função de protegê-lo e também as pessoas ao seu redor.1,2 Trata-se de medida terapêutica a ser empregada somente quando todas as outras medidas para o paciente agitado tiverem falhado.

Epidemiologia

A contenção física é utilizada em 3,8 a 26% de todos os transtornos mentais observados no hospital.5-19 Os diagnósticos mais relacionados à necessidade de contenção incluem transtornos psicóticos, uso ou abuso de substâncias, transtornos do humor, transtornos da personalidade e comorbidade entre psicose e abuso de substâncias.18-24

Fatores que aumentam o risco de contenção física

  • Agitação intensa.18,25
  • Idade mais jovem.7,20,22,23,26
  • Angústia gerada pelo confinamento.23,27
  • Sentimento de vitimização e humilhação.23,27
  • Falta de clareza nas regras da unidade de internação.23,27
  • Histórico de violência.24
  • Pacientes violentos.23,28
  • Indivíduos de minorias étnicas.23,26
  • Imigrantes.7,23
  • Tentativa de fuga.23,28
  • Uso de sala de isolamento especialmente fechada.23,29
  • Violência dirigida à equipe de enfermagem.23,30
  • Autoflagelação e comportamento suicida.23,31
  • Hostilidade na admissão.23,32

Técnica

As principais recomendações para restringir pacientes incluem o seguinte:3,4,33-35

  • A intervenção/restrição física só deve ser considerada se todas as técnicas de desescalada verbal tiverem falhado.
  • Os serviços devem identificar e promover as melhores práticas na prevenção, redução e, quando possível, eliminação da intervenção física/contenção.
  • Se a intervenção física for inevitável, não deve ser usada por períodos prolongados e deve ser suspensa o quanto antes.
  • A dignidade dos pacientes deve ser respeitada durante a intervenção física, e as razões para utilizar a intervenção devem ser explicadas tanto quanto possível.
  • Todo o pessoal envolvido na intervenção física/contenção deve ser treinado em uma técnica padronizada.
  • O médico ou outro funcionário deve informar o paciente, sua família e/ou acompanhantes acerca da necessidade de restrições físicas.
  • Restrições são usadas somente com prescrição médica e por período limitado, em princípio não superior a 2 horas.
  • O procedimento é feito pela equipe de atendimento (5 profissionais, porém mais 2 podem ser necessários em alguns casos), com cada profissional assumindo a responsabilidade por um único membro; quem supervisiona o procedimento é responsável por proteger cabeça e vias aéreas do paciente e por verificar sinais vitais durante a sua realização.
  • Os seguintes mecanismos de restrição podem ser utilizados:
    • Quatro pontos: envolve a contenção dos antebraços e tornozelos, isto é, no final de todos os 4 membros, com o paciente deitado na cama (evitando-se a contenção de macas), com a cabeça erguida e os membros superiores ao lado do tronco, tomando o cuidado de não interromper o fluxo sanguíneo para as extremidades.
    • Cinco pontos: consiste na contenção das extremidades dos membros, mais o peito. Para a restrição de peito, um lençol ou uma faixa podem ser empregados. As restrições devem ser colocadas perpendicularmente ao tronco, não devendo ser posicionadas sob as axilas, o que poderia prejudicar o plexo braquial. Nas mulheres, deve-se ter cuidado com os seios, usando uma faixa larga o suficiente para cobri-los ou colocando-a logo abaixo deles.
    • Nove pontos: para agitação intensa, quando todas as outras técnicas falharam, as restrições devem ser colocadas nas extremidades de todos os 4 membros, bem como nos braços, nas coxas e no peito
    • Restrições abdominais: funcionam para pacientes gravemente agitados nos quais as restrições torácicas não podem ser empregadas ou para evitar movimentos (p. ex., após cirurgia),33 mas deve-se cuidar para não comprimir a região operada.
    • Contenção dos joelhos: alternativa para conter as coxas.
    • Contenção das mãos: opção para que os pacientes não removam o cateter ou para evitar lesões autoprovocadas; pode ser feita com luvas disponíveis no mercado ou colocando-se algodão na sua parte interna e, em seguida, atando-as de modo que todos os dedos fiquem cobertos.
  • A monitoração de sinais vitais, fluxo sanguíneo e estado do membro contido (dor, calor, inchaço ou ferimento) deve começar logo após a colocação das restrições – a cada 15 minutos, durante 60 minutos, e depois a cada 30 minutos, durante 4 horas ou até o paciente despertar.
  • Todo procedimento deve ser registrado no prontuário do paciente, incluindo sua justificativa e acompanhamento.
  • As restrições mais simples e menos dispendiosas são faixas de tecido, de preferência macias e confortáveis.
  • Ataduras ou qualquer dispositivo utilizado por autoridades policiais, como algemas, não são recomendados.
  • Restrições feitas de couro, tecido ou lona podem ser empregadas, desde que sejam confortáveis e não prejudiquem o paciente.
  • Todo paciente submetido à contenção física deverá ser medicado com tranquilização rápida para abreviar o uso da restrição.
  • A contenção física jamais deverá ser utilizada como forma de coação.

Referências

Conteúdo originalmente publicado em: QUEVEDO, J. (Org.). Emergências psiquiátricas. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2020. 326 p.

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Autores

Leonardo Baldaçara