Introdução
AVC é uma súbita perda de função cerebral resultante da interferência no suprimento sanguíneo. Pacientes pós-AVC têm risco significativo de distúrbios neuropsiquiátricos como transtornos neurocognitivos, depressão, mania, ansiedade e psicose. Sintomas cognitivos, desinibição, apatia e fadiga também são comuns. A depressão pós-AVC está entre as consequências neuropsiquiátricas mais frequentes, afetando 20 a 60% dos casos, e estudos a associam com aumento de mortalidade e piora da recuperação funcional.1 Um estudo que usou dados do Registro Dinamarquês de Estatísticas de Medicamentos reportou maior mortalidade por todas as causas em pacientes com AVC prévio tratados com benzodiazepínicos, antidepressivos e antipsicóticos do que quando comparados a pacientes pós-AVC não tratados com psicotrópicos.2
Antidepressivos
Antidepressivos parecem melhorar não apenas a depressão pós-AVC, mas também a recuperação motora,1 a função cognitiva e a adesão aos programas de reabilitação e às recomendações médicas.3 Entre os fármacos estudados até o momento no tratamento da depressão pós-AVC, o citalopram, a fluoxetina, a nortriptilina, a sertralina, a trazodona e a venlafaxina mostraram-se efetivos em ECRs. Algumas evidências iniciais demonstram a segurança da paroxetina e do milnaciprano no tratamento da depressão pós-AVC.
Existem restrições para o uso dos antidepressivos tricíclicos, especialmente aqueles que têm maiores efeitos anticolinérgicos, como a amitriptilina, a clomipramina e a imipramina. Esses fármacos estão mais associados à ocorrência de hipotensão ortostática, sedação excessiva, retenção urinária, prostatismo, arritmias e agravamento de déficits cognitivos, efeitos colaterais especialmente indesejados na população idosa. Se um antidepressivo tricíclico for usado, deve-se preferir uma amina secundária, sobretudo a nortriptilina.
Fármacos que aumentam o risco de convulsão, como a bupropiona, a maprotilina e a clomipramina, devem ser evitados. Os IMAOs irreversíveis, por seus possíveis efeitos sobre a pressão arterial, também devem ser evitados. A moclobemida, por sua vez, apresenta poucos efeitos adversos, sendo bem tolerada nesses pacientes.
Como os idosos apresentam alterações nos parâmetros farmacocinéticos (absorção, ligação a proteínas, metabolismo hepático, etc.) e alcançam concentrações séricas dos medicamentos mais altas do que o esperado, o tratamento deve ser iniciado com doses baixas, realizando-se a titulação gradualmente e sob monitoramento. Além disso, como a meia-vida dos medicamentos aumenta nessa faixa etária, deve-se optar por aqueles com meias-vidas menores (p. ex., citalopram, escitalopram e sertralina) em relação aos de meia-vida mais longa (p. ex., fluoxetina).
Antipsicóticos
Em pacientes com sintomas psicóticos relacionados a transtorno neurocognitivo decorrente de AVC, o uso de antipsicóticos de segunda geração está relacionado a maior risco de morte e de eventos cardiovasculares em comparação com placebo. Esses achados motivaram um alerta da FDA desencorajando o uso de tal classe de medicamentos nessa população, o qual mais tarde foi ampliado também aos antipsicóticos de primeira geração. Em um estudo caso-controle, o uso de risperidona e quetiapina nos 30 dias anteriores aumentou significativamente o risco de AVC entre idosos sem doença cardiovascular prévia.4 Assim, é recomendável pesar riscos e benefícios com cautela antes de prescrever antipsicóticos para pacientes com risco cardiovascular elevado, especialmente àqueles que têm história prévia de evento isquêmico. Quando indicados, deve-se preferir antipsicóticos de primeira geração de alta potência, como o haloperidol. Recomenda-se usar a menor dose possível.
Estabilizadores do humor e anticonvulsivantes
O ácido valproico, a carbamazepina e o lítio podem ser úteis na mania pós-AVC. Curiosamente, um estudo--piloto com 12 pacientes pós-AVC sugeriu que o uso de lítio pode estar associado ao aumento do volume da substância cinzenta e à melhora da memória verbal.5
Outros medicamentos
Os benzodiazepínicos devem ser evitados, especialmente os de meia-vida longa, em razão do potencial para prejuízo cognitivo e precipitação de delirium. Idade maior que 65 anos, transtorno neurocognitivo, fratura de quadril atual ou doença grave constituem fatores de risco gerais para delirium.6 Caso seja imprescindível, preferir um agente de meia-vida curta, como o lorazepam.
Embora possa haver uma associação entre exposição ao zolpidem, principalmente em altas doses, e risco de AVC isquêmico, mais estudos são necessários para confirmar essa associação.
Referências
Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.
- Loubinoux I, Kronenberg G, Endres M, Schumann-Bard P, Freret T, Filipkowski RK, et al. Post-stroke depression: Mechanisms, translation and therapy. J Cell Mol Med. 2012;16(9):1961-9. PMID [22348642]
- Jennum P, Baandrup L, Iversen HK, Ibsen R, Kjellberg J. Mortality and use of psychotropic medication in patients with stroke: a population-wide, register-based study. BMJ Open. 2016;6(3):e010662. PMID [26956165]
- Jorge RE, Robinson RG, Arndt S, Starkstein S. Mortality and poststroke depression: a placebo-controlled trial of antidepressants. Am J Psychiatry. 2003;160(10):1823-9. PMID [14514497]
- Shin JY, Choi NK, Jung Sy, Lee J, Kwon JS, Park BJ. Risk of ischemic stroke with use of risperidone, quetiapine and olanzapine in elderly patients: a population-based, case-crossover study. J Psychopharmacol. 2013;27(7):638-44. PMID [23535349]
- Sun YR, Herrmann N, Scott CJM, Black SE, Swartz RH, Hopyan J, et al. Lithium carbonate in a poststroke population: exploratory analyses of neuroanatomical and cognitive outcomes. J Clin Psychopharmacol. 2019;39(1):67-71. PMID [30566418]
- Dawson ET, Hocker SE. Neurologic Complications of Commonly Used Drugs in the Hospital Setting. Curr Neurol Neurosci Rep. 2016;16(4):35. PMID [26905071]
Organizadores
Aristides Volpato Cordioli
Carolina Benedetto Gallois
Ives Cavalcante Passos
Autores
Marianna de Abreu Costa | Marianna de Barros Jaeger
Lorenna Sena Teixeira Mendes | Fabiano Gomes
Arthur Ludwig Paim | Tamires Martins Bastos
João Pedro Gonçalves Pacheco | Alice C. M. Xavier
Alessandro Ferroni Tonial | Livia Biason
Ana Laura Walcher | Aristides Volpato Cordioli